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83 A primeira parábola: Os filhos desiguais, Mt 21.28-32

A primeira parábola: Os filhos desiguais, Mt 21.28-32

28-32 E que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai 
hoje trabalhar na vinha. Ele respondeu: Sim, senhor; porém não foi. Dirigindo-se ao segundo, disse-lhe a mesma cousa, mas este respondeu: Não quero. Depois, arrependido, foi. Qual dos dois fez a vontade do pai? Disseram: O segundo. Declarou-lhes Jesus: Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus. Porque João veio a vós outros no caminho da justiça, e não acreditastes nele; ao passo que publicanos e meretrizes creram. Vós, porém, mesmo vendo isto, não vos arrependestes, afinal, para acreditardes nele. 

Em relação à tradução
    a
     Na RC, e na tradução ecumênica TEB, da Loyola/Paulinas, o filho que diz “não” consta primeiro,
enquanto o que diz “sim” passou para o segundo lugar. Uma vez que a edição grega de Nestle, seguindo um
dos manuscritos mais importantes, traz a ordem inversa, o pregador encontrará certa dificuldade, por não
saber a que versão deve aderir. Por isso devemos dizer algo a respeito. Perguntamos não pelo valor dos
manuscritos, o que neste contexto levaria a demais detalhes, e sim pelas razões de conteúdo que parecem ser
favoráveis a uma ou outra forma textual.
     Nossa tendência talvez seja de seguir a RC, porque somente assim se justifica suficientemente o pedido ao segundo filho. Se o primeiro diz não, resulta por si que o pai se dirige, agora, ao segundo. Esse argumento naturalmente não é contundente, porque bem poderíamos imaginar a situação, sem que fosse expressamente descrita assim, de que o pai se volta ao segundo filho depois que verificou que o primeiro não cumpriu sua palavra.
     Além disso, a possibilidade de que o que disse sim tenha estado originalmente no início pode ser
comprovada por uma razão bastante aceitável.
     Quem é o que disse sim e quem é o que disse não?
     Isso parece evidente, mesmo sem a informação expressa do v. 32. Os que dizem sim são os líderes do
povo (v. 23), com os quais Jesus está discutindo, e os que dizem não são os publicanos e pecadores. Aos
representantes oficiais da religião, que por princípio deram seu sim às exigências de Deus, são contrapostos
os que dizem não, que se haviam distanciado da vontade de Deus e que, fundamentalmente, dizem não.
     Entretanto, acontece que Jesus se voltou primeiro aos grupos dirigentes do povo – é o que denota a
parábola da grande ceia – e, quando o rejeitaram, voltou-se aos excluídos do seu povo, que lhe deram
ouvidos. Portanto, nessa seqüência se retrataria simplesmente a realidade daquilo que aconteceu (segundo
Günther Dehn).
De modo similar a Lc 15 (a parábola do filho perdido), nossa parábola agrupa todo o povo como
filhos de Deus. O povo de Israel possui a prerrogativa irrevogável de se encontrar numa ligação tão
especial com Deus que não pode ser anulada nem mesmo pelo pecado do povo (Rm 3.2; 9.1ss).
Entretanto, já no tempo de Jesus se admitem diferenças dentro do povo de Israel.
Também no judaísmo há palavras que expressam algo semelhante à presente parábola. São
palavras de que quem aceitou como compromisso a Torá, i. é, a palavra de Deus, e disse sim a ela,
tem uma obrigação muito maior do que quem não conhece a vontade de Deus.
O sentido da nossa parábola, porém, reside na pergunta pela atitude em que se reconhece o
cumprimento da vontade de Deus. Jesus recorre novamente à mensagem do Batista, com a qual se
identificou desde o início (Mt 3.2-4,12). Enquanto no judaísmo o homem religioso era aquele que
praticava a vontade de Deus, Jesus, na parábola considera quem cumpre a vontade de Deus como
sendo aquele que se curvou ao chamado do Batista para se arrepender. Por outro lado, naquele que
resistiu ao chamado do Batista mas disse sim à lei, Jesus vê a pessoa da parábola que disse sim, mas
que no fim acaba se subtraindo à vontade de Deus.
Por meio dessa afirmação, Jesus não rotula o pecado dos publicanos e das prostitutas como
insignificante. Terem dito não à vontade de Deus continua sendo o seu pecado, que não é ninharia,
da mesma forma como continua sendo positivo que eles reconheceram a vontade de Deus. Na hora
decisiva, que iniciou com o chamado do Batista ao arrependimento, os piedosos fracassaram e os
publicanos e pecadores se aproximaram.
Além disso, a parábola vem a ser um último convite aos líderes religiosos. O último não dos
piedosos ainda não foi pronunciado, mas será na condenação definitiva de Jesus para a morte na
cruz. Jesus fala somente de João, como já fizera ao responder a questão da autoridade. Ainda há
tempo. Acontece, porém, que, na atitude diante de João, já se tornou visível o que mais tarde se
explicitará na decisão diante de Jesus. Essa é, porém, a dimensão revolucionária da palavra de Jesus,
de que ele afirma que diante da sua pessoa se decidirá quem cumpre a vontade de Deus ou não.
A parábola abala hoje a nossa avaliação das pessoas, por meio da qual gostamos de fazer o mesmo
como as pessoas religiosas daquela época. No final, a questão decisiva é que nos refugiemos
integralmente nos braços de Jesus com os repetidos nãos à vontade de Deus que praticamos por
natureza. Refugiando-nos nele estamos verdadeiramente cumprindo a vontade de Deus. No entanto,
para cumprir a vontade de Deus nesse sentido estão dispostos em todos os tempos, muito antes,
aqueles que sabem que não têm nada a apresentar, aqueles que sabem que por natureza sempre de
novo dizem não.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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