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85 A terceira parábola: As núpcias do filho do rei, Mt 22.1-14

A terceira parábola: As núpcias do filho do rei, Mt 22.1-14
(Lc 14.16-24)

1-14 De novo entrou Jesus a falar por parábolas, dizendo-lhes: O reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. Então enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas; mas estes não quiseram vir. Enviou ainda outros servos, com este recado: Dizei aos convidados: Eis que já preparei o meu banquete; os meus bois e cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; vinde para as bodasEles, porém, não se importaram (com o convite), e se foram um para o seu campo, outro para o seu negócio. E os outros, agarrando os servos, os maltrataram e mataram. O rei ficou irado e, enviando as suas tropas, exterminou aqueles assassinos e lhes incendiou a cidade. Então disse aos seus servos: Está pronta a festa, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, para as encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas a quantos encontrardes. E, saindo aqueles servos pelas estradas, reuniram todos os que encontraram, maus e bons; e a sala do banquete ficou repleta de convidados. Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcialE perguntou-lhe: Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? E ele emudeceu. Então ordenou o rei aos serventes: Amarrai-o de pés e mãos, e lançai-o para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.
Em relação à tradução
     a
     Até os tempos atuais é costume no Oriente enviar um convite duplo, o primeiro como provisório e
preparatório, o segundo quando a festa está preparada (T. W. Mason, The sayings of Jesus, 1949, p. 225).
     Os bois (touros de sacrifício) e os animais cevados (poderiam também ser ovelhas) indicam que o
banquete era riquíssimo.
     b
     O rei não vem para examinar os convidados, mas para saudá-los (T. W. Mason).
     c
     A interpelação é mais condescendente que amigável. É a palavra de um senhor que flagra um
subalterno numa falta.
A terceira da série de parábolas estreitamente interligadas, que Mateus relata acerca dos últimos
dias de Jesus em Jerusalém, também se dirige com agudeza máxima contra a camada dirigente do
povo, com a qual Jesus se confrontou nas controvérsias. Esta parábola não é a última por acaso. Ela
apresenta o auge das acusações que Jesus tem a levantar contra os mais proeminentes líderes de seu
povo. Enquanto a parábola dos filhos desiguais (21.28ss) e a parábola dos maus arrendatários da
vinha (21.33ss) tinham repreendido os líderes porque eles estavam se “esquivando” da exigência de
Deus, a presente parábola levanta a acusação muito mais grave de que os líderes do povo estão
recusando o convite de Deus. Além disso, a recusa acontece da mesma maneira que a negação da
obediência. Leva ao assassinato dos que Deus enviou para comunicar o chamado de Deus aos
convidados. É nesse ponto que se encontra a mais significativa variante da parábola em comparação
com Lucas. É uma variante semelhante à que podemos observar entre Mateus e Lucas no caso da
conhecida palavra: “Quem não é contra nós, é a favor de nós” (Mc 9.40). Na controvérsia com os
fariseus, ela toma a seguinte forma: “Quem não está comigo, é contra mim” (Mt 12.30; Lc 11.23). A
rejeição do chamado de Deus, comunicado por meio de Jesus, não leva a uma neutralidade qualquer,
mas sim à luta contra Deus. A conseqüência, por isso, não é apenas a exclusão do reino, depois da
qual ainda se poderia existir ao lado dele, mas sim, à morte. Desse modo a parábola apenas prolonga
a linha, torna-a melhor compreensível, mais nitidamente visível do que já é em Lucas. Assim como a
negação do convite com uma desculpa esfarrapada tem essencialmente o mesmo significado que os
maus tratos e o assassinato dos emissários – Jesus tem em mente, como na parábola dos maus
arrendatários da vinha, o tratamento dado aos profetas, e, mencionando a segunda turma de
mensageiros, o evangelista já poderia ter em vista os apóstolos – assim, “não degustar o banquete” é
eqüivalente ao extermínio dos convidados renitentes.
Com isso já foi expresso que o cerne da parábola deve ser visto no convite que o rei faz aos
hóspedes que ele já havia convidado. – A data do convite retrocede a um tempo indeterminado, assim
como a vocação de Israel está distante mas constitui um fato que determina o presente. – Se for esse
o ponto central da parábola, também fica clara a sua importância na boca de Jesus. Ele próprio não se
encontra na parábola, pois identificá-lo com o filho para quem o rei prepara a festa significaria uma
alegorização errada. Porém Jesus está por trás dela. É que, por meio dele, é emitido o último
chamado decisivo a seu povo. Não está sendo exposto aqui o que a parábola dos maus arrendatários
da vinha expôs, a saber, que o rei envia como última tentativa seu próprio filho amado. Contudo, isso
acontece na prática. Desse modo a fala em parábolas e o acontecimento real e atual se confundem.
Por isso não causará tanto espanto que a descrição da ação punitiva do rei seja tão viva e atual.
Podemos muito bem supor que Mateus escreve “sob a impressão imediata daquilo que sucedeu”
(Schniewind). Pois Jerusalém foi destruída e os que recusaram e mataram Jesus foram exterminados.
Mesmo que esse fato ainda não tenha integralmente acontecido na época em que Mateus escreve o
evangelho (cf. Introdução), o evangelista está vendo que o cumprimento que a parábola prenuncia
com clareza ameaçadora está vivo e inevitavelmente próximo.
Considerando que o cerne da parábola é convite como ilustração para o chamado de Deus
manifesto por meio de Jesus, os demais traços figurados da parábola posicionam-se ao lado, em
serviço. Citam-se as “figuras constantes”: o rei como Deus, o banquete como reino de Deus, os
escravos como emissários de Deus, profetas e apóstolos. Como “figuras constantes” elas são mais
que figuras. Deus é o rei eterno e seu reino é o banquete de alegria, onde todas as lágrimas estarão
enxugadas. Profetas e apóstolos são seus escravos, que apenas cumprem a vontade dele.
A parte final da parábola traz uma nova guinada. Até então a parábola se dirigira com advertência
e até ameaça ao povo de Israel, apresentando-lhe a seriedade da decisão que tinha de tomar diante de
Jesus. Agora o final se volta àqueles que receberam o convite depois que os primeiros convidados o
rejeitaram. Diferente de Lucas, eles não são caracterizados como pobres, aleijados, coxos e cegos (Lc
14.21), mas como estrangeiros que estão de passagem e recebem o convite nas encruzilhadas. Sua
descrição diz apenas que eles são todas as pessoas que podem ser alcançadas, boas a más (v. 10), ou
seja, que não têm características especiais, a não ser que são estrangeiros que não viviam naquela
cidade atingida depois pela destruição. Eram estrangeiros que receberam o convite quase por acaso
(se bem que o acaso sempre é escolha bondosa de Deus), pelo menos sem qualquer mérito.
Com essa parte final, Jesus se dirige à comunidade dos que crêem nele. Da mesma forma como
nas parábolas das ervas daninhas no meio do trigo (13.24ss) e da rede de pesca (13.47ss), ele está
dizendo que pertencer à comunidade ainda não é a decisão de tudo, que também essa comunidade
pode ter elementos impuros. Por ora teremos de nos contentar, na explicação do final, com que uma
pessoa não tem as vestes nupciais, simplesmente com a afirmação de que pertencer à comunidade
não constitui uma garantia total e jamais pode ser uma almofada de repouso sobre a qual minha fé
pode descansar, mas que a última decisão será tomada somente sob o olhar de Deus.
Se desconsiderarmos que seriam pessoas pobres, como gostamos de inserir aqui a partir do
evangelho de Lucas, então de forma alguma é injustificada a exigência feita na parábola, de que se
compareça num traje nupcial. Pelo contrário, teremos de levar em conta que, de acordo com o
cerimonial oriental, a ausência desse traje significa uma violação singularmente melindrosa dos
costumes, um menosprezo ao anfitrião. Esse menosprezo eqüivale a desprezar o seu convite por meio
da recusa de comparecer (Jülicher, p. 424). Portanto, como advertência, está sendo dito à
comunidade que o chamado que ela recebeu lhe impõe a responsabilidade de viver de acordo com
essa vocação. A partir da doutrina da justificação de Paulo, deseja-se dar a essa cena uma explicação
no sentido de que o convidado teria rejeitado o traje que lhe fora oferecido, por querer entrar com o
seu próprio (com a justiça própria). Mas essa explicação já fracassa no fato de que o texto diz: “Por
que entraste sem traje nupcial?” O rei, por conseguinte, esperava que seu hóspede trajasse a veste
nupcial ao entrar. Realmente, o texto não fala nada a respeito da oferta de outra roupa para todos os
hóspedes e que alguém na parábola tivesse rejeitado esse presente.
Entretanto, cabe-nos considerar o que quer dizer essa roupa, uma vez que também essa é uma das
figuras constantes que encontramos sempre de novo em parábolas. O novo traje significa um novo
ser (Mt 9.16; e sobretudo Ap 3.4; 4.4; 16.15; 19.13). Logo, a veste nupcial seria a existência que faz
parte do reino de Deus, a vida nova doada por Jesus. Portanto, o convidado seria uma pessoa que,
apesar de pertencer à comunidade, se fecha a esse novo ser, persistindo “na maneira própria de viver,
ou seja, na religiosidade própria” (Schniewind).
A palavra final do v. 14 apresenta novos enigmas. Acaso não está em contraposição ao final da
parábola, onde somente há uma pessoa chamada mas não eleita? Tampouco combina com a primeira
parte da parábola, pois são justamente os “muitos” (Mc 10.45) que vêm ao banquete, em
contraposição ao número limitado do povo de Israel. Contudo, já foi Jerônimo quem viu naquele um
o representante de uma grande multidão. Por isso será correto vermos nessa última palavra uma
aguçamento da advertência à comunidade contida na parte final.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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