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86 O ataque dos herodianos: A disputa pela moeda do imposto, 2Mt 2.15-22

O ataque dos herodianos: A disputa pela moeda do imposto, Mt 22.15-22 
(Mc 12.13-17; Lc 20.20-26)

15-22 Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam em alguma palavra. E enviaram-lhe discípulos, juntamente com os herodianos, para dizer-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens. Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar tributo (per capita) a César ou não? Jesus, porém, conhecendo-lhes a malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe um denárioE ele lhes perguntou: De quem é esta efígie e inscrição?     Responderam-lhe: De César. Então lhe disse: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Ouvindo isto, se admiraram e, deixando-o, foram-se.
Em relação à tradução
     a
     Sob “herodianos” devem ser entendidos ou os membros da casa de Herodes ou os seus adeptos
políticos. São citados já em Mc 3.6 em conjunto com os fariseus, como aliados deles contra Jesus. Eram
procurados pelos fariseus sempre que havia o perigo de uma conflito com Roma que ameaçasse a existência
do povo (Schlatter, p. 644).
     b
     “Caminho” é uma expressão corrente para ensino ético (Schniewind, Mc 1, p. 148). Por exemplo, o
escrito da comunidade cristã primitiva O ensino dos Doze Apóstolos (Didaquê) começa assim: “Há dois
caminhos, um para a vida e outro para a morte”.
     c
     No tributo per capita trata-se de um censo, como expressa a palavra grega, que é um termo romano
adotado pela língua grega. Através do pagamento desse imposto era proclamado e reconhecido o domínio do imperador romano.
     d
     O denário é uma moeda de prata romana, eqüivalente ao salário diário de um trabalhador braçal (Mt
20.2). É a unidade monetária com que se pagava o imposto. As moedas menores tinham símbolos
inofensivos, mas o denário tinha a efígie de César, e a inscrição dizia, p. ex., num denário de Tibério:
“Ti(berius) Caesar divi Aug(usti) f(ilius) Augustus”, e no reverso: “Ponti(fex) Maxim(us)”. Isso significa:
Tibério César, Augusto, filho do divino Augusto, Sacerdote Máximo.
Desde bem cedo o cristianismo entendeu essa discussão como uma decisão de seu Mestre quanto
ao relacionamento dos cristãos com o estado. De acordo com um evangelho apócrifo, por exemplo,
os adversários formularam a pergunta de uma forma generalizadora (Papiro Eguerton, nº 2): É
permitido dar aos reis aquilo que cabe à autoridade? Mais clara se torna essa transformação em
Justino (Apol. I, 17.64), o qual intitula assim o diálogo: Será que se deve pagar impostos a César? –
Com essas mudanças, porém, o presente diálogo já foi interpretado incorretamente numa direção bem
determinada. Passou-se totalmente por cima da última instrução de Jesus: Dêem a Deus o que
pertence a Deus! Mas é aqui que reside o cerne de sua resposta. Isso se depreende do simples fato
de que Jesus introduz na sua resposta algo que não foi perguntado, algo de que seus adversários não
se aperceberam, que eles, apesar da aparência religiosa, não incluíram em sua pergunta. Porém é
exatamente para essa verdade que Jesus quer remeter seus adversários.
A princípio a discussão apenas quer mostrar como Jesus, por sua palavra cheia de autoridade,
escapa da armadilha que lhe foi colocada. Para entender isso, precisamos reconhecer a essência da
pergunta. Para o judaísmo inteiro a dominação do imperador era radicalmente oposta ao domínio de
Deus. Se, pois, Jesus anunciava o reino de Deus, tinha de rejeitar, como os zelotes, o pagamento do
imposto per capita, porque ele significava admitir o governo de César. Num sentido mais rigoroso,
porém, esse reconhecimento já acontecia com o simples uso das moedas que continham a imagem e a
inscrição de César. As pessoas se esquivavam desse reconhecimento, evitando radicalmente olhar
para a imagem, como se relata de um rabino piedoso, ou escudando-se atrás do princípio de que “a
lei não podia tornar-se insuportável” (Schlatter, p. 648) e dizendo: “A moeda não está proibida”.
Assim, ficava suspensa a decisão sobre pagar ou não o imposto. Os fariseus esperavam, agora, que
Jesus apoiaria a exigência dos zelotes, de negar o pagamento do imposto, e esperavam que ele seria
aniquilado junto com a rebelião que sua declaração desencadearia. Se, porém, tomasse a decisão
oposta, perderia a adesão das massas.
Portanto, é uma evidente cilada que está proposta a Jesus. Querem que ele caia nela com tanto
maior facilidade porque apelam para a sua veracidade e também porque a questão traz embutida
claramente a pergunta pelo Messias, de modo que Jesus não pode fugir dela.
Contudo, se a pergunta constitui uma armadilha, a resposta de Jesus inicialmente consiste em
desviar-se dela. Jesus demonstra dessa forma que ele permite que outros imponham o rumo da ação,
mas que esse está sempre nas mãos dele. Ele declarará que é o Messias no momento que o Pai
determinar, quando a “sua hora tiver chegado” (Jo 2.4; 7.30; 8.20). Ele não fugirá quando “é chegada
a hora” (Mt 26.45), mas se apresentará somente então, e nenhum minuto antes, entregando-se nas
mãos dos pecadores. Para não se entregar nas mãos das pessoas antes, Jesus responde de uma forma
pela qual se esquiva desse ataque, de modo que os adversários somente se admiram. Deixam-no
parado onde está e têm de afastar-se dele. Por trás da admiração, porém, nota-se também algo do
susto diante de Jesus, cuja sabedoria, com a qual escapa da cilada, o revela como o Messias. No
entanto, revela-o de tal forma que seus inimigos não conseguem pegá-lo.
É nesse sentido que se usa a palavra admirar-se (Mt 8.27; 9.33; 15.31 etc.). Assim como Jesus se
subtrai ao ataque por meio de uma resposta inteligente, ele também concede aos seus a certeza de que
no momento certo “lhes será concedido” responder com igual inteligência. Nesse sentido, nosso
trecho é algo como um exemplo da promessa que Jesus dá aos discípulos em Mt 10.19.
No entanto, a resposta de Jesus é mais do que inteligência e sabedoria para desviar-se! Pelo
contrário, ele escapa da armadilha precisamente porque leva a sério o conteúdo da pergunta que lhe
foi colocada. Na resposta acontecem duas coisas. Por um lado Jesus revela a falta de sinceridade dos
próprios adversários, quando aponta para a moeda que os seus adversários usam, ou seja, que eles
pessoalmente nem levam a questão a sério. Por outro, força-os a levar a sério a pergunta no seu fundo
último, indicando-lhes que, na alternativa César ou Cristo e na pergunta do reinado de Deus em
relação a todos os reinos mundanos, não estão primordialmente em jogo quaisquer atitudes
exteriores, mas em primeiro lugar que realmente demos a Deus o que lhe pertence. Para que provem
que de fato estão seriamente interessados em reconhecer o reinado de Deus, a oportunidade está
sendo dada precisamente agora. Entretanto, é uma oportunidade da qual seus adversários querem se
afastar com toda a força. A oportunidade é dada na própria pessoa de Jesus. Deus vai ao encontro dos
adversários de Jesus na pessoa de Jesus, reivindicando que o reconheçam agora, que se dobrem
diante dele agora. Se eles fizessem isso, a questão de pagar impostos ficaria facilmente resolvida.
Não seria mais uma questão, por ser uma indagação deste mundo, que desaparece com este mundo.
Mas se, com Jesus, chegou o reino de Deus, o fim deste mundo está às portas, e as perguntas de
como se comportar neste mundo se tornaram perguntas secundárias. Elas possuem importância
apenas na medida em que, respondendo-as, pudermos dar testemunho em prol da vinda desse reino.
Por isso, podemos captar para nós hoje como resultado dessa controvérsia o seguinte: A primeira
pergunta, a única realmente importante, é “se damos a Deus o que lhe compete”, i. é, se o
reconhecemos como o Senhor que se revelou a nós em Cristo, se todo o nosso agir está sob o sinal de
que o mundo caminha para o seu fim, que a decisão já foi tomada. – A segunda pergunta é se e como
esse nosso reconhecimento do reinado de Deus se torna visível em nosso comportamento na terra, nas
ordens deste mundo. Devem ficar evidenciadas duas coisas: Primeiro, que saibamos que, nas
decisões deste mundo, trata-se sempre de questões provisórias e passageiras, nas quais jamais
prendemos nosso coração. Em segundo lugar, porém, igualmente deve ficar claro nas nossas decisões
que as tomamos diante da face de Deus, ou seja, em responsabilidade diante da instância suprema,
uma instância de cuja existência o mundo sequer tem conhecimento. Dessa maneira o nosso modo de
agir será carregado sempre com menos paixão e maior responsabilidade que a dos que não são
cristãos.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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