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87 A parábola do porteiro e o chamado final à vigilância, Mc 13.33-37

A parábola do porteiro e o chamado final à vigilância, Mc 13.33-37 
(cf. Mt 24.42-51; 25.13-15; Lc 12.40,38; 19.12,13; 21.36)

33-37 Estai de sobreaviso, vigiai [e orai]; porque não sabeis quando será o tempoÉ como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie. Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhãPara que, vindo ele inesperadamente, não vos ache dormindo. O que, porém, vos digo, digo a todos: vigiai!

Em relação à tradução
   a
     Diferente de gregorein nos v. 34,35,37, encontramos aqui o termo mais antigo para “vigiar”,
agrypnein, que no NT só aparece ainda em Lc 21.36; Ef 6.18; Hb 13.17. A palavra parece estar em
proximidade especial com a oração. O substantivo derivado encontra-se em 2Co 6.5; 11.27, e lá não se pode
descartar que Paulo está falando de noites de oração. Para este hábito ele podia referir-se ao próprio Senhor
(1.35; 6.46; Lc 6.12). Em Lc 18.7 Jesus diz expressamente que os eleitos clamam a Deus à noite.
   b
     kairos, uma data que depende somente de Deus (cf. 1.15).
   c
     Adjetivo de apodemein em 12.1, veja a nota lá!
   d
     Aqui terminam no texto grego as frases com particípio, que na verdade servem para preparar a ação em
si. Assim o caso especial do porteiro passa para o centro da cena.
   e
     thyroros, de acordo com Jo 10.3 um empregado fixo para um curral murado onde cabem vários
rebanhos. Em Jo 18.16,17 este serviço é feito no palácio por uma escrava (cf. At 12.13ss).
   
f
     Estes são os nomes populares dos quatro turnos de guarda dos soldados romanos, que iam das 6-9, 9-12, 0-3 e 3-6 horas; cf. 6.48; At 12.4 e 14.30n. Os judeus dividiam a noite em três partes, p ex em Lc 12.28
(Bill. I, 689).
Observações preliminares
1. Contexto. Jesus aplica agora seu “ninguém sabe” absoluto do v. 32 expressamente à sua comunidade de
discípulos: “Não sabeis” (v. 33,35). Certamente a partir de agora os sinais de decadência do mundo (v. 28s)
adquirem significado, porém eles não servem para deduzir-se deles a data do fim, e o mesmo vale para a
evangelização no mundo como sintoma de edificação do mundo novo (v. 10). Deus sempre pode retardar ou
acelerar a decadência, fixar ou riscar prazos (2Pe 3.9). A data do retorno de Cristo no fim das contas não
depende de nada a não ser do próprio Deus. Sua posição como único que reina sobre a história precisa ser
levada a sério. Esta situação, de fato, resulta em um peso constante sobre a alma e o espírito da igreja, à altura
do qual ela nem sempre está. Ela paira entre a esperança da nova ordem e da continuidade das suas obrigações
no mundo velho. Com muita facilidade desmorona o equilíbrio entre o já e o ainda não. Quando, p ex, a
esperança da vida nova perde sua vivacidade, segue logo a reabilitação do mundo velho. A decadência não é
mais vista como tal, o êxodo se detém e volta-se a ser sedentário. Ou, então, os cristãos não reconhecem mais
a graça de Deus que continua sustentando o mundo velho e lhe voltam as costas sem se incomodar, ficando em
dívida com suas tarefas nele. A tensão, portanto, deve ser estabelecida e mantida, e isto no contado vivo com o
Senhor, pela oração. Por isso os chamados de alerta, que se intensificam mais uma vez aqui e atravessam todo
o NT (além dos numerosos exemplos nas parábolas, veja p ex 1Ts 5.6; 1Pe 5.8; Ap 3.3; 16.15).
2. Parábolas sobre a vigilância. A exclamação: “Estejam alerta!” dá ensejo aqui a uma parábola (v. 34),
que leva novamente ao chamado: “Vigiai! Vigiai!” (v. 35,37). Ela faz parte da série de nove parábolas sobre
estar alerta, das quais nenhuma está em paralelo exato com outra: Mt 24.42-44,45-51; 25.1-13,14-30; Lc
12.35-40,42-48; 19.12-27. A parábola do porteiro em Marcos é tão singela que acabou na sombra das outras
mais conhecidas. Mas no quadro do NT ela é tão independente que precisa ser compreendida a partir dela
mesma, sem ser misturada precipitadamente com outros materiais.
     33     Pela última vez aparece a palavra que serviu de lema para todo o discurso: Estai de sobreaviso!
Todavia, enquanto a vigilância dos discípulos de acordo com o v. 5 deveria ser com os sedutores e do
v. 9 com seu chamado, aqui ela está relacionada com o Senhor que vem, pois Jesus acrescenta:
Vigiai. Este chamado vai aumentando em direção ao fim e fica como última palavra do capítulo.
Porque não sabeis quando será o tempo. Por não saberem qual é o dia, em conseqüência eles
precisam estar alerta todos os dias. Senão, era só colocar o despertador e ir dormir.
     34     Dentro do estilo de Marcos, como em 4.26, começa uma parábola sobre a vigilância. É como um
homem que, ausentando-se do país. Diferente de Lc 12.36, Jesus omite o motivo da viagem.
Importante aqui é somente a situação na administração da casa que ele deixou para trás. Faltam
instruções e supervisão. Em uma propriedade como p ex em Mt 24.15, um escravo mais destacado
foi colocado como chefe no lugar do patrão. Aqui uma outra solução foi considerada. A palavra do
Senhor assumiu a função de liderança. Deixa a sua casa, dá autoridade aos seus servos, a cada um
a sua obrigação, de modo que cada um, responsável em relação às ordens, fazia suas tarefas.
Somente agora segue como objetivo principal o caso específico do porteiro. Tudo o que foi dito até
aqui são detalhes, sem interesse para a comparação. E ao porteiro ordena que vigie. Antes de tudo
este tinha de levantar as pontas da sua túnica e enfiá-las no cinto, “cingindo-se” (Lc 12.35; 1Pe 1.13).
Isto porque ele tinha de estar a postos quando o senhor chegasse e poder saltar os degraus sem
impedimentos. Além disso ele precisava manter a lâmpada acesa, pois acendê-la de novo exigia
algum esforço naquela época. O senhor teria de esperar impaciente do lado de fora se o servo
começasse com isso só quando ele batesse na porta. Por último, ele recebia também a chave de
madeira. Com ela ele empurrava para cima, dentro da fechadura da porta, a tranca da trave
horizontal, empurrava-a para o lado e abria a porta. À luz da lâmpada erguida o senhor podia entrar
sem perigo de bater a cabeça na porta baixa, tropeçar no pátio interno ou cair na valeta. E é claro que
o servo estava a postos para o auxílio que lhe fosse solicitado (Lc 12.37).
Este servo, portanto, não tinha autoridade sobre os conservos como em Mt 24.45, de modo que
também não simboliza a posição de apóstolo ou líder na igreja (contra Schreiber, p 92; Schlatter,
Markus, p 114). Jesus também não menciona como sendo tarefa do porteiro advertir os conservos em
caso de perigo, diferente talvez dos “cães mudos” de Is 56.10, ou para se cuidarem dos ladrões como
em Lc 12.39. Aqui só uma coisa está em vista, a relação entre servo e senhor. Por isso, o porteiro não
representa certo grupo de pessoas dentro da igreja, mas o ser discípulo em si. Ele exerce a função de
porteiro neste mundo. Seu lugar é na entrada, quando o senhor vier. Como mostrou o v. 34, a
parábola converge para este personagem, e a continuação conserva esta perspectiva.
     35,36     Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa. Como não fora marcada uma
hora para a volta, importa estar sempre acordado. O próximo versículo prevê em todo caso um efeito-surpresa para a volta do senhor (cf. Mt 24.50; 1Ts 5.3). Aqui a relação das possibilidades ilustra a
incerteza: Se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que, vindo ele
inesperadamente, não vos ache dormindo.
     37     O que, porém, vos digo, digo a todos: vigiai! Este apelo nos lembra dos apelos para prestar
atenção nas cartas às igrejas: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Ap
2.7,11,17,29; 3.6,13,22). O que o Senhor deixa a uma igreja específica como mensagem, estas frases
tornam expressamente válido para toda a cristandade. Deste modo, condensa-se aqui, na ilustração do
porteiro, a constituição da igreja posterior à Páscoa como tal. O Apocalipse tem a mesma coisa em
vista quando fala da igreja como “noiva” (p ex 22.17).
A vigília aqui não tem o sentido de ficar esperando meio adormecido na sala de espera, pois no v.
34 Jesus a deixou como “obrigação”, “trabalho” (BLH), caracterizando-a como função muito ativa e
cheia de responsabilidade.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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