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88 O ataque dos fariseus: A pergunta pelo principal mandamento, Mt 22.34-40

O ataque dos fariseus: A pergunta pelo principal mandamento, Mt 22.34-40 
(Mc 12.28-34; Lc 10.25-28)

34-40 Entretanto os fariseus, sabendo que ele fizera calar os saduceus, reuniram-se em conselho.     E um deles, intérprete da lei, experimentando-o, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.
Em relação à tradução
    a
     Aqui geralmente se traduz: “Com toda a tua alma” [NdT: O autor sugere: “Com toda a tua força
vital”]. No hebraico (Dt 6.5) está a mesma palavra que em Gn 2.7, que Lutero também traduz com “tornou-se o homem uma alma vivente”. A palavra refere-se à totalidade da vida humana, com todo o seu sentir,
pensar, querer, com sua consciência e sua sensibilidade. Uma vez que entre nós a palavra “alma” tem uma
acepção mais restrita, oriunda do helenismo (cf. o comentário ao trecho anterior), é melhor que usemos de
forma inequívoca a expressão “força vital”. Poderemos dizer ainda melhor “com toda a tua vida”, se
tivermos clareza de que com isso não está entendida a extensão temporal da vida, mas a profundidade e a
totalidade de tudo o que para nós significa vida.
Podemos entender as diferenças na transmissão desse episódio como um indício de que a pergunta
que aqui foi trazida a Jesus surgia na maior diversidade imaginável de formas, porque é a questão
central que ocupava justamente os judeus religiosos diante de Jesus, ou seja, sua posição perante a
lei. Essa pergunta aflorava vivamente nas curas em dia de sábado, bem como no comportamento
despreocupado dos discípulos ao caminharem por um trigal. Porém, essa questão precisava ser
resolvida na pergunta pelo centro de toda a lei. Quando Jesus, nas mais variadas determinações
específicas da lei, enfatizava sua liberdade pessoal, quando fazia retroceder outros mandamentos
diante do mandamento do amor, tornava-se aguda a pergunta de onde, agora, se deveria buscar o
critério, qual seria o mandamento principal, ao qual todos os demais têm de se subordinar. Por isso
é muito provável que todos os três evangelhos com suas versões singulares da história estejam
corretos. Ou seja, essa pergunta pode ter sido trazida a Jesus uma vez como pergunta para tentá-lo,
outra vez por uma pessoa que realmente estava procurando, ao qual Jesus até pode dizer: Não estás
longe do reino de Deus (como em Mc 12.34), e uma terceira vez por alguém que também está
buscando a verdade, mas que depois foge ao desafio (Lc 10.29ss). Do mesmo modo, porém, não se
pode discordar de que cada evangelista persegue o seu interesse específico quando traz aquela
formulação do trecho que mais lhe convinha na linha que ele estava elaborando. Assim, para Lucas a
ênfase consistia no mandamento do amor ao próximo, o que ele realçou com a parábola seguinte, que
para ele se torna o ponto principal. Marcos mostra que, para os escribas, não era tão impossível
entender Jesus, enquanto Mateus transmitiu a história no contexto das controvérsias que ocorreram
em Jerusalém durante os últimos dias. Naqueles dias as controvérsias com certeza eram mais
importantes que qualquer diálogo instrutivo. Em Mateus a conversa está mais condensada que em
Marcos. Não acontece mais uma troca de opiniões, mas a disputa foi resumida em pergunta e
resposta. Com isso destaca-se mais uma vez a intenção, já observada na controvérsia sobre a moeda
do imposto, de mostrar Jesus como majestosamente superior no diálogo, a quem os adversários não
conseguem responder palavra alguma (22.46; de modo semelhante já em 21.27). Nesse tom de
superioridade com que Jesus conduz as controvérsias, ele revela-se ao que tem olhos para ver e
ouvidos para ouvir quem está falando.
A resposta que Jesus dá não é novidade, não é nada que fosse desconhecido para seus adversários.
Um aluno de Hillel resumiu, cerca de 20 a.C., a lei com as seguintes palavras: “O que é negativo para
você, não o faça ao seu próximo” (citado por Klostermann e Schniewind, Comentários ao Ev. Mc.).
De modo semelhante opinam Filo e outros. Contudo, também nessa pergunta não há interesse de
ouvir algo novo. Todo o legalismo judaico tinha sua origem na palavra de Lv 18.5: “Pondo em
prática as minhas leis e os meus costumes é que o homem tem a vida“. Dali surgiu o esforço de
obedecer corretamente a lei em cada detalhe. Por trás desse esforço, um “coar de mosquitos” (Mt
23.24), estava oculta a consciência de que, apesar de tudo, não se seria capaz de cumprir a lei. Por
isso a pergunta real que estava por trás da ilegítima, de tentação, era esta: Como é possível cumprir a
lei? Logo, não se tratava de reconhecimento intelectual, de doutrina, mas a única coisa que realmente
interessava era a ação. Assim como Jesus dissera aos discípulos: “Sejam perfeitos“ (Mt 5.48),
afirmando com isso que um novo agir e um cumprimento verdadeiro da lei são possíveis, ele agora
está proclamando essa possibilidade. Esse novo modo de agir, diz Jesus, brota do amor a Deus. O
novo modo de agir, como Jesus repetira sempre de novo no sermão do Monte, é sempre de novo
apenas o sinal desse amor a Deus. Para o amor de Deus vale, porém, já para Jesus, que ele não é
constituído pelo fato de que nós de qualquer maneira nos decidimos por impulso próprio para esse
amor, mas que Deus nos amou (1Jo 4.10)! Precisamente essa é a novidade que Jesus traz, não com
palavras ou com seus milagres, mas com toda a sua vida, simplesmente com sua presença como Filho
entre as pessoas (dessa presença, palavras e milagres apenas constituem o sinal). É ele quem traz esse
amor de Deus e possibilita, através dele, que realmente cumpramos o grande mandamento.
Neste ponto torna-se novamente visível a barreira que persiste entre Jesus e seus adversários. Para
eles a resposta de Jesus apenas pode ter o significado daquilo que outros já disseram antes dele.
Unicamente quem crê em Jesus como o Filho de Deus compreende que naquele momento está sendo
feita essa oferta. À comunidade crente, porém, o evangelista anuncia desse modo: A vocês foi
concedido! Vocês podem realizar o que Deus pede de vocês porque receberam a dádiva de Deus.
Por meio dessa palavra, Jesus prestou mais uma vez um serviço inestimável à sua comunidade.
Indicou-lhe o local a partir do qual ela precisa captar a riqueza das palavras bíblicas. Dessa maneira,
a vida não se torna para ela um emaranhado enigmático, no qual se confundem sem nitidez o justo e
injusto, o dever e o pecado, e no qual nunca sabemos bem o que nos cabe realizar. Jesus torna reto o
nosso caminho, pois nos dá um “mandamento régio”, o mandamento do amor, que está no comando.
Com essa mentalidade, na comunidade de Jesus, foi cumprida, desde então, a lei, inclusive com suas
prescrições formais, a lei como orientação que nos ensina a amar a Deus e ao próximo acima de todas
as coisas. – Tudo o mais que nos cabe realizar está ligado a esse mandamento do amor, procede dele
e leva até ele, de maneira que, sem o amor, não somos nada. É por isso que esse mandamento nos
fornece uma medida que coloca todo o dever no seu devido lugar. Quanto mais amor um dever
contém, tanto mais sagrado é esse dever.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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