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88 O embaraço dos líderes judeus com sua intenção de matar Jesus, Mc 14.1,2

O embaraço dos líderes judeus com sua intenção de matar Jesus, Mc 14.1,2
(Mt 26.1-5; Lc 22.1,2; cf. Jo 11.47-53)

1-2 Dali a dois dias, era a Páscoa e a Fe sta dos Pães Asmos; e os principais sacerdotes e os escribas procuravam como o prenderiam, à traição, e o matariam. Pois diziam: Não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo.

Em relação à tradução
a
Uma fração de um dia era contada como um dia inteiro (Bill. I, 649; Delling, ThWNT II, 952), de
modo que não devemos pensar aqui no espaço completo de 48 horas, mas no dia seguinte, ou seja, estamos
na quarta-feira (Gnilka, p 219,232; Dormeyer, p 44; cf. também a nota sobre “depois de três dias” em  8.31).
b
No NT a “Páscoa”, quando não se refere ao cordeiro da Páscoa (14.12,14), geralmente é toda a semana
de festas, composta da noite da Páscoa e da festa de sete dias dos pães sem fermento (Mazot, cf. nota
seguinte). Quando a palavra está isolada, ela se refere como aqui (e no  AT) à festa da noite da Páscoa em si,
na primeira noite de lua cheia depois do solstício da primavera (a data em que o dia e a noite têm a mesma
duração). Na tarde daquele dia (14 do mês Nisã) os cordeiros da Páscoa eram carneados no t emplo, para
serem comidos em grupos nas casas depois do pôr-do-sol, quando começa o dia 15 de Nisã.
c
O nome completo, “Festa dos Pães sem Fermento”, de Êx 23.15, era resumido em ta azyma, “os
asmos” (“plural festivo”, Bl-Debr, § 141.7).
d
Jeremias, Abendmahl, p 67, sugere fazer uso neste lugar da possibilidade de entender  en te heorte
como identificação de lugar: no meio da aglomeração festiva (é seguido por Pesch; Haenchen). Mas a
expressão “em uma boa ocasião” (eukairos) no v. 11 faz pensar numa indicação de tempo.
Observações preliminares
1. Contexto. Nossos versículos têm nos v. 10,11 sua continuação direta. A busca lá (v. 11) continua a
procura aqui (v. 1), só que em uma direção que promete êxito, a ponto de os embaraçados experimenta rem
uma grande alegria. Por que, porém, esta relação tão direta foi interrompida pela história da unção, ainda mais
que esta aconteceu em um lugar tão diferente (Betânia em vez de Jerusalém) e também em um momento
anterior à conjuração nos v. 1,2 (“seis dias antes da Páscoa”, Jo 12.1)? Marcos age assim com freqüência
(sobre a técnica do encadeamento, cf. opr 1 a 3.20,21). Em nosso caso o resultado é uma série de contrastes
eficazes. De um lado as autoridades inquietas e confusas, do outro a imagem de Jesus  que está tranqüilo
deitado no divã para a refeição. A “boa ação” do v. 6 tem brilho redobrado neste quadro sinistro do complô
assassino. A mulher, que não faz parte do grupo dos doze (!), “veio” (v.  3) até Jesus em meio ao seu
sofrimento, enquanto o homem  que é do grupo “foi” (v. 10) dele para seus inimigos. A mulher sacrifica
dinheiro por Jesus, muito dinheiro, enquanto Judas embolsa dinheiro em troca da traição. Dedicação
comovente e infidelidade assombrosa iluminam-se mutuamente. Talvez a história inserida também responda à
pergunta pelos motivos de Judas. Ela mostra em que ponto ele rompeu com seu Senhor. Foi no momento em
que Jesus, bem diante dos portões de Jerusalém, torna irrevogável seu anúncio de sofrimento diante de um
grupo maior de seguidores (v. 8). Ali a falta de entendimento dos discípulos, que acompanhou Jesus desde
8.32, na pessoa de Judas se tornou incurável e radical. (Sobre a ganância de Judas, cf. v.  11.)
Por outro lado, estes pensamentos precisam ser comedidos. Marcos, neste contraste, não teve o mesmo
interesse  que João, que chega a mencionar os nomes de Maria e Judas. Aqui é uma mulher sem nome que
unge Jesus, como em 12.42. De acordo com o v. 9, é o que ela fez que será divulgado, não o seu nome. As
pessoas que levantam objeções também são sem nome; nem mesmo sua condição de discípulos é enfocada, e o
nome de Judas é omitido. O evento não é narrado da perspectiva do discipulado falso e verdadeiro, portanto
eclesiológica, mas cristológica. O Cristo que, conforme o v. 1, deve ser eliminado em segredo  – é o que
querem os poderosos –, apesar disso se torna o salvador crucificado em público e anunciado a todo o mundo.
A sabedoria de Deus é maior que a astúcia das pessoas (cf. 1Co 1.25). Portanto, a história da unção em Marcos
precisa ser interpretada e classificada totalmente a partir da declaração que começa com “em verdade” no v.  9.
2. A Páscoa como festa da libertação messiânica. Na noite da Páscoa os judeus cantavam em todas as
casas da cidade superlotada durante horas sobre a salvação da servidão no Egito. Da litu rgia faziam parte os Sl
113–118, o chamado Hallel cheio de confiança ardente. O texto básico da festa era a visão que Ezequiel teve
da vivificação dos ossos (cap. 37). Todo o simbolismo da festa pode ser explicada neste contexto: o pão sem
fermento, o sacrifício do cordeiro, as verduras amargas e os quatro cálices de vinho tinto. E a festa não se
limitava a recordações. O pedaço de passado que era celebrado ao mesmo tempo servia como tipo da
libertação escatológica de Roma. Os ânimos estavam “encharcados de sede de libertação e expectativa
iminente de salvação” (Lapide, p 35). De acordo com uma esperança, o Messias se manifestaria exatamente
nesta noite no templo (Bill. IV, p 55,785). “Nesta noite fomos salvos; nesta noite seremos salvos” (em Lapide,
p 39). Com uma atmosfera tão carregada, um sinal pode facilmente desencadear a revolta. “O povo judeu está
predisposto para revoltas durante a festa”, afirma Josefo em relação a seus patrícios (Guerra Judaica I, 4.3).
Por esta razão os romanos reforçavam suas tropas em Jerusalém nesta data crítica, e o governador, que residia
em Cesaréia, aparecia pessoalmente no local. O levante desesperado no gueto de Varsóvia em 18/4/1943
também começou exatamente no dia em que começou a Páscoa.
É sob esta luz que devemos ver o  movimento de Jesus em direção à festa a partir de 10.47. Várias
passagens mostram uma multidão que voltava suas esperanças messiânicas para Jesus. “Parecia -lhes que o
reinado de Deus havia de manifestar -se imediatamente”, resume Lc 19.11. De acordo com Jo 11.56, as
pessoas estavam ansiosas no templo: “Diziam uns aos outros: Que vos parece? Não virá ele à festa?” Neste
sentido a liderança judaica, em vista da festa que se aproximava, não estava somente preocupada com o
grande ajuntamento de pessoas, mas exatamente com a época da festa. Esta tinha de ser um pesadelo para eles.
1  Dali a dois dias, era a Páscoa e a Festa dos Pães Asmos; e os principais sacerdotes, a quem a
polícia do templo respondia e que eram responsáveis pelas prisões, e os escribas procuravam como
o prenderiam, à traição, e o matariam. A decisão de matá-lo já é pressuposta aqui (cf. 3.6; 11.18;
12.12; Jo 11.53). Só o como ainda estava sem solução e se tornava cada vez mais difícil. A
perplexidade deles na procura aumenta visivelmente desde 11.18 (como matá-lo?), passando por
12.12 (como prendê-lo?) até este versículo: Como prender e matá-lo? O tempo imperfeito do verbo
“procurar” tem o sentido: Ainda estavam procurando! Porém, será que é tão difícil para autoridades
prender um súdito? Por causa da sua aceitação ampla pelo povo (cf. 11.18), este Jesus apolítico se
tornara uma questão política de primeira grandeza, e a festa próxima criava uma situação altamente
política adicional. Assim, eles tinham de submeter-se a duas condições: tinham de apossar-se dele em
segredo, em lugar afastado e na presença do menor número de pessoas e, acima de tudo, tinham de
manter a festa desvinculada desta ação.
2  Pois diziam: Não durante a festa. Por que não? A profanação da noite santa provavelmente não
seria um escrúpulo para estes homens. Eles poderiam até apelar a uma instrução expressa. Um herege
e sedutor perigoso do povo devia “ser trazido até o Sinédrio em Jerusalém, onde ficaria preso até a
próxima festa para ser morto, porque está escrito (Dt 17.13): „Para que todo o povo o ouça e tema‟”
(Jeremias, ThWNT V, p 899; Abendmahl, p 73). É evidente, p ex, que Herodes quis agir assim em At
12.3. Para desencorajar outros candidatos a revoltosos, as festas de peregrinos eram especialmente
apropriadas para execuções, porque nestas ocasiões “todo o povo” estava reunido. Os principais
sacerdotes optaram pelo contrário da instrução: “Que seja morto na festa”, exclamando: Neste caso
não durante a festa! Este seria o momento menos propício. Sua motivação era: Para que não haja
tumulto entre o povo. A relação deste temor com a festa é explanada na opr 2. Os responsáveis
anteviam um banho de sangue imenso, em conseqüência de um levante popular que os romanos
esmagariam. Sob esta perspectiva já tinham emitido um “mandato de captura” em Jo 11.48,57 para a
prisão de Jesus. Para eles, Jesus não devia viver até a data temida, simplesmente não podia mais
aparecer no templo no dia 15 de Nisã (cf. Jo 11.56). O adiamento do seu caso para  depois da Páscoa
seria para eles a segunda pior solução. A melhor seria apanhá-lo antes que a data da Páscoa tivesse
excitado as multidões ao máximo e antes que, por causa da festa nas casas à meia-noite, o pátio do
templo ficasse cheio de multidões agitadas (Bill. I, 993), para talvez vivenciar ali a manifestação do
Messias (opr 2).
Jesus também não queria nem revolta nem banho de sangue, antes, “dar a sua vida em resgate por
muitos” (10.45). E, apesar de a prisão acabar ocorrendo mesmo na noite perigosa da Páscoa, a revolta
não aconteceu. O povo, em vez de levantar-se contra Roma, levantou-se contra Jesus e, segundo Jo
18.15, até ouviu seu sumo sacerdote fazendo um juramento de lealdade ao imperador romano. O que
Jesus queria era morrer no dia da Páscoa, depois de cear com seus discípulos. De outro modo não se
pode entender o trecho detalhado de 14.12-16, e Lc 22.15 diz neste sentido: “Tenho desejado
ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento”. A relação da morte de Jesus
com a Páscoa faz parte evidente dos pensamentos de Deus e, assim, das suas disposições. Por isso
Paulo pôde escrever mais tarde: “Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado” (1Co 5.7).
Portanto, a partir de agora o cronograma dos judeus compete com as intenções de Deus. Os judeus
não gostariam mais de saber-se incomodados por Jesus quando, na noite da Páscoa, recordassem com
gratidão e adoração da salvação do Egito. Sem ser perturbado, o silêncio devia estender -se sobre
Sião. Ao mesmo tempo, porém, sua “traição” (v. 1) caracteriza sua apostasia do verdadeiro Israel,
“em quem não há dolo” (Jo 1.47). Do outro lado está a abertura incondicional de Jesus para a decisão
de Deus. Poderíamos colocar o Sl 31.14,15 em seus lábios. Lá o homem de Deus ora em face ao
complô dos perseguidores: “Tu és o meu Deus. Nas tuas mãos, estão os meus dias”. Desta entrega
nasce sua atitude soberana no trecho de 14.1-52. Ele não se apresenta como joguete impotente nas
mãos dos seus inimigos, mas tudo acontece acentuadamente sob sua direção e conforme seus
anúncios (14.8,13,18,20,21,22-25,27,30,41). Ele não só é entregue, mas ele também entrega a si
mesmo.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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