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89 A unção de Jesus em Betânia, Mc 14.3-9

A unção de Jesus em Betânia, Mc 14.3-9
(Mt 26.6-13; Jo 12.1-8; cf. Lc 7.36-50)

3-9 Estando ele em Betânia, reclinado à mesa, em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher trazendo um vaso de alabastro com preciosíssimo perfume de nardo puro; e, quebrando o alabastro, derramou o bálsamo sobre a cabeça de Jesus. Indignaram-se alguns entre si e diziam: Para que este desperdício de bálsamo? Porque este perfume poderia ser vendido por mais de trezentos denários e dar-se aos pobres. E murmuravam contra ela. Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua.

Em relação à tradução
a
Cf opr 3 a 11.1-11.
b
Nas refeições comuns os judeus ficavam sentados ou de cócoras. Ficar deitado em volta da mesa era
um sinal de que a refeição é festiva (2.15; 6.26,39; 8.6; 12.39; 14.3,18). As pessoas ficavam deitadas sobre o
lado esquerdo, de modo que a mão direita ficava livre para levar comida à boca. Para isto não se usavam
talheres, mas os dedos ou um pedaço de pão para comida picada (Bill. IV, 617; Jeremias, Abendmahl, p 42s;
Goppelt, ThWNT VIII, 210).
c
Simão era um nome da moda entre os judeus. Somente no NT há uma dúzia de “Simãos”, diz-se que
em vários povoados um terço dos homens tinha esse nome. Por isso é arbitrário querer identificar o dono da
casa em nosso texto com  o Simão de Lc 7.43 na Galiléia. Para fazer a diferença costumava-se usar um
segundo nome, com recurso à origem geográfica, o nome do pai, particularidades do caráter, características
físicas ou, como aqui, uma antiga doença. Se ele ainda fosse leproso, não poderia participar da refeição.
Talvez ele também já tivesse falecido e só sua casa ainda mantinha seu nome. Se Jesus o curou está fora do
nosso interesse.
d
alabastron, recipiente de uma pedra finíssima de gesso, levemente cinza e transparente.  O termo se
tornou comum também para recipientes feitos de outros materiais (Blinzler, p 408).
e
Esta descrição do conteúdo com quatro palavras sem ligação entre si chama a atenção. 1) myron (ainda
nos v. 5,6; cf. v. 8), “perfume”, “bálsamo” (v. 4), pomada feita de plantas para cuidar da beleza, geralmente
importada (cf. Ap 18.13. Óleos nativos eram chamados de  elaia, p ex em 6.13; 2) nardos, planta aromática
da Índia de cujas raízes novas extraía-se o óleo; 3) pistikos, “puro”, genuíno; havia substitutos de menor
valor. Aqui o termo deve derivar de pistos, confiável, não da planta indiana pistácia, como sugerem Pesch e
Lane, já que como planta originária já foi mencionado o nardo; 4) polyteles está enfático no fim, no original:
preciosíssimo!
f
Só com este “derramar” a ação do versículo se completa: pode-se ver a mulher derramando
(imperfeito!)
g
Temos exemplos de unção dos pés de um hóspede por uma escrava da casa, mas também da cabeça,
por mulheres de posição (Bill. I, 427).
h
Uma gota correspondia praticamente ao salário diário de um trabalhador rural, a soma total mais ou
menos ao ganho de um ano. De acordo com Jo 6.7, com 200 denários daria para alimentar milhares de
pessoas.
i
Lit.: “ação bonita”. Contudo, na linguagem do NT kalos praticamente eqüivale a agathos quanto ao
sentido. Especialmente aqui não se pensa em uma ação bonita em termos estéticos, mas éticos, como  p ex
também em Hb 10.24 e como expressão comum no judaísmo. Eram conhecidas três categorias de “boas
obras” da vontade de Deus. Em primeiro lugar, o cumprimento das 613 prescrições de deveres da Torá (cf.
opr 2 a 12.28-34). Em segundo e terceiro lugar havia obrigações que excedia m os deveres, e que estão uma
diante da outra aqui nos v. 5-8. Por um lado tratava-se das dádivas de dinheiro para os pobres (“justiça” em
Mt 6.1, ou “ajuda” em Mt 6.2,3,4 NVI, BLH; RA “esmola”), por outro lado de “ações de misericórdia”. Destas
contavam-se doze, baseando-se de preferência em Is 58.6,7. Entre estas constava em grau bastante elevado o
sepultamento digno dos mortos que não tinham parentes, pois era uma ação que nunca mais poderia ser
repetida. Jeremias trata deste assunto detalhadamente (Abba , p 100-114; ThWNT V, 712; cf. Grundmann,
ThWNT III, 547; Bill. IV, 559-610) e resume: De acordo com Jesus, na história da unção a ajuda aos pobres
não se opõe ao desperdício, mas às ações de misericórdia.
j
Lit.: “o que tinha”, mas echein pode, com sua amplitude de significados, assumir o sentido de “poder”
(WB 659), o que certamente se encaixa melhor aqui.
l
Lit. soma, com seu sentido original de “corpo, cadáver” (sobre o corpo de Jesus, veja também
15.43,45).
m
A preposição grega eis, “para”, espelha aqui o hebr. l
e
e indica, ligado a “pregar”, o ouvinte da
mensagem, no caso, todo o mundo das pessoas (Bl-Debr, § 207, nota 2; Sasse, ThWNT III, 890; Jeremias,
Abba, p 116). As versões brasileiras tomam eis em seu sentido geográfico: anunciar para dentro do mundo
inteiro. Mt 26.13 mudou a formulação: “Anunciar em todo o mundo:”.
n
Jeremias, Abba, p 120, entende o texto em sentido estritamente escatológico: “…o que ela fez será dito
(por um anjo, diante de Deus, no juízo final, a favor dela), para que ele lembre (dela) com misericórdia”.
Pesch, Schenk, p 176, Berger, p 24,51ss o seguem. Esta posição, porém, pressupõe operações questionáveis
de crítica textual. Jesus não está falando de um procedimento único no juízo final, mas de um acontecimento
interativo no transcurso do trabalho missionário: “Sempre que for pregado…”
Observações preliminares
1. Posição cronológica. Marcos informa sobre o local da ação, mas não sobre a data. O hábito dos judeus
de marcar as festas para um sábado (p ex 1.31; Lc 14.1) fala contra a colocação desta unção na quarta -feira à
noite (talvez depois de 14.1). Segundo Jo 12.1 ela aconteceu “seis dias antes da Páscoa”, portanto num sábado,
que começa sexta-feira à noite. A propósito, de acordo com João, o jantar não parece ter sido realizado na casa
de Lázaro, pois neste caso sua presença dificilmente teria sido destacada.
2. Ponto central. A história nos tenta para espiritualizações. “Unção” pode ser o dom do Espírito e
representar o entendimento autêntico (1Jo 2.20,27; 2Co 1.21), e o perfume o poder penetrante da palavra
divina (2Co 2.14s). No entanto, a interpretação não pode enredar-se aqui no processo da unção. Este só é
descrito com um versículo, como introdução. Seguem seis versículos de afirmações de várias pessoas, e o
conteúdo fica mais importante nos últimos quatro versículos. O ponto culminante é o v.  9.
3  Estando ele em Betânia, reclinado à mesa, em casa de Simão, o leproso. Na localidade em que
Jesus se hospedava com freqüência (11.11) e tinha um número considerável de seguidores (Jo 11.45),
acontece uma festa, com certeza com atmosfera messiânica (cf. 10.46-52; 11.8-10; Lc 19.11). Aí veio
uma mulher para ungir Jesus. Estranho não é que ela queria fazê-lo como mulher (veja nota à
tradução), mas o dispêndio luxuoso: trazendo um vaso de alabastro com preciosíssimo perfume
de nardo puro; e, quebrando o alabastro, derramou o bálsamo sobre a cabeça de Jesus. Aqui
um hóspede foi honrado sem medida. Um hospedeiro já fazia um gesto generoso quando honrava
personalidades de destaque aspergindo algumas gotas do óleo aromático sobre a cabeça delas,
guardando o restante do estoque para uso futuro (Lc 7.46). Aqui, porém, o recipiente se quebra, por
gosto ou devido à emoção, e, conforme Jo 13.3, um litro inteiro se derrama sobre o corpo de Jesus.
Será que ela pretendia  fazer uma unção simbólica de um defunto? Seu gesto foi uma ação profética
como as dos profetas do AT ou a de Ágabo em At 11.28, para indicar a Jesus que ele morreria em
Jerusalém? Para isto falta qualquer indício no texto. Pelo contrário, não é ela que lhe profetiza, mas
ele para ela (v. 9). A aplicação à sua morte no v. 8 sai da boca dele e vem em socorro da mulher só
depois do ato.
4  Indignaram-se alguns entre si. Manifestam-se objeções de discípulos, originadas como em 10.41
de razões supostamente espirituais. Estes guardiães da teolo gia formulam a causa do seu protesto:
Para que este desperdício de bálsamo?
5  Porque este perfume poderia ser vendido por mais de trezentos denários e dar-se aos pobres.
Eles pensavam nos pobres. Isto era um costume sagrado especialmente por ocasião da festa
(Bammel, ThWNT VI, 900). No grupo em volta de Jesus este propósito recebera incentivo adicional
(10.21,28; 12.43). “O Espírito do Senhor está sobre mim […] para evange lizar os pobres” (Lc 4.18
citando Is 61.1; cf. Lc 14–19). Assim, os indignados creram em sua própria ira santa e caíram em
cima da mulher “ímpia” com força, com a boa consciência que é fruto da unanimidade. Ela
transgredira contra o evangelho dos pobres! E murmuravam contra ela, “repreendiam-na” (BJ),
“severamente” (NVI), na certeza de serem apoiados por Jesus.
6  Mas Jesus disse: Deixai-a (em paz); por que a molestais? Primeiro ele ordena soberanamente que
parem de atormentar a pessoa da mulher consternada. Na seqüência ele defende como em 12.40s o
gesto dela, surpreendendo com isso não só aqueles homens, mas a própria mulher e o leitor até hoje:
Ela praticou boa ação para comigo. Ela não transgredira, pelo contrário, fizera uma “boa ação”,
que é um termo técnico judaico (veja nota à tradução). No que neste caso consistiu a boa ação para
Jesus, ainda é um mistério. Somente no v. 8 ele o diz.
7  Em todo caso trata-se de uma oportunidade única, momentânea, de fazer o bem, enquanto o cuidado
dos pobres podia ser sempre repetido (Dt 15.11). Porque os pobres, sempre os tendes convosco e,
quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem. Este “vós” pode ter um sentido oculto. Eles se
comportavam como guardiães e incentivadores de outros. Mas será que eles t eriam mesmo dado este
dinheiro aos pobres, se o tivessem à sua disposição? Judas, pelo menos, não. No v. 11 ele não gastou,
mas embolsou.
Mas a mim nem sempre me tendes. É importante observar o tempo: sempre – nem sempre. Para
fazer o bem não é preciso só ter dinheiro, mas também o tempo e a oportunidade certa. O bem não se
pode fazer seguindo um princípio rígido, mas submetendo -se ao plano de tempo de Deus.
8  Sem este versículo, a afirmação do v. 6, de que a mulher fizera uma boa ação, teria ficado no ar. Só
por isso ele já não pode ser um acréscimo estranho, como entendem Bultmann p 283 e outros.
Primeiro a avaliação de Jesus: Ela fez o que pôde, coloca esta mulher ao lado da viúva sem nome
em 12.44: “Ela […] deu tudo quanto possuía”. Como lá, Jesus usa novamente parâmetros diferentes.
É verdade que o pouco que é colocado aqui à disposição de Deus não consiste em uma soma pequena
de dinheiro, mas em uma ação de efeito muito breve. O aroma, por mais intenso que tenha sido na
casa naquele momento, rápido demais terá desvanecido, o dinheiro gasto inutilmente. Mas o gesto
fora feito em Deus, e Deus toma a pequena bola de neve humana e a transforma em uma avalanche.
Agora a ação da mulher é identificada como Deus a vê e recebe: Ela antecipou-se a ungir-me
para a sepultura. A unção podia fazer parte da “boa ação” do sepultamento de um morto, como
última homenagem (veja nota à tradução). De acordo com 16.1, na manhã da Páscoa algumas
mulheres tinham planejado fazê-lo com o corpo de Jesus. Só que chegaram tarde. Esta mulher se
antecipara a elas. Naturalmente ela não poderia ter agido pensando em fazer uma unção antecipada,
pois isto não existia no judaísmo, mas Jesus conferiu este sentido ao sacrifício dela. Ele o salvou da
falta de sentido. Ele a aceitou com  honras, ela que queria honrá-lo e se viu agredida e ameaçava
duvidar de si mesma, para levá-la consigo no cortejo triunfante do avanço missionário.
Este versículo também se insere na seqüência de prenúncios da morte de Jesus. Novamente ele
segue como resposta a alguém que confessa segui-lo (cf. 8.31). Mais uma vez ele choca o grupo dos
discípulos. Somente uma mulher indefesa está à altura do momento. Como em 12.41 -44;
15.40,41,47, uma mulher representa a futura igreja.
9  Também desta vez a referência à sua morte não está isolada, mas é ligada ao futuro (cf. v. 25,28,
neste capítulo). Isto é típico de Jesus. Ele não via sua vida terminar em um beco escuro. Sempre
pode-se ver o fio prateado da Páscoa. Aqui ele anuncia a pregação do evangelho em todo  o mundo,
com uma declaração iniciada por “em verdade” (cf. 3.28n).  Em verdade vos digo: onde for
pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua.
Seu sepultamento não sepulta o evangelho, antes, sua morte o faz entrar em vigor, inesperadamente.
Em contradição gritante com o desejo dos principais sacerdotes nos v. 1,2, que queriam empurrar
Jesus para um canto escuro para esmagá-lo sem espectadores, ele conquista o público mundial. A
intenção de fazê-lo desaparecer, enterrar e esquecer não dá em nada.
Quando e onde a morte salvadora de Jesus for contada, para sempre fará parte da narrativa o que
esta mulher fez. Não é o seu nome que faz parte; este não é nem pronunciado nem invocado. Sua
ação também não é evangelho em si, mas é contada junto com o evangelho. A “memória” de Jesus,
que é lembrada a cada Ceia do Senhor, une-se à “sua memória”. Este versículo apoia a suposição
expressa na opr 2 à divisão principal 14.1–16.8 de que, na celebração da Ceia pelos primeiros
cristãos, não se recitavam somente as palavras da instituição, mas um relato detalhado da Paixão, que
em essência correspondia ao de Marcos. Desta maneira os leitores do evangelho de Marcos
experimentavam regularmente o cumprimento da declaração solene de Jesus.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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