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90 A caracterização dos fariseus, Mt 23.1-7

A caracterização dos fariseus, Mt 23.1-7

1-7 Então Jesus falou às multidões e aos seus discípulos: Na cadeira de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus. Fazei e guardai, pois, tudo o quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem (de acordo). Atam fardos pesados [e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homensentretanto eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.      Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois alargam os seus filactérios e alongam as suas franjasAmam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças, e o serem chamados mestres pelos homens.
Em relação à tradução
  a
     A cadeira de Moisés, segundo a doutrina rabínica, lhe foi dada por Deus no monte Sinai. Por isso, é a
cadeira do professor da lei.
  b
     A figura é a do feixe de lenha, no qual são amarrados os vários galhos.
  c
     As correias de oração e as franjas são um bom exemplo de como o fariseu se prendiam nas coisas
exteriores. Compreendendo literalmente Êx 13.16; Dt 6.8; 11.18, os judeus escreviam sobre minúsculas
folhas de pergaminho trechos da Torá como Êx 13.1-10,11-16; Dt 6.4-9; 11.13-21, colocando cada um numa
cápsula artisticamente confeccionada de couro. Uma dessas cápsulas era afixada com uma tira de couro na
testa abaixo dos cabelos, perpendicularmente acima do nariz, outra era usada sob a roupa no antebraço
esquerdo, também atada mediante um tira, de modo que estivesse na mesma altura do coração e voltada para ele. Os judeus especialmente religiosos usavam essas correias de oração todos os dias, não só nos sábados e festivos. Era prescrição usá-las pelo menos nas orações. Deviam lembrar o portador incessantemente da lei e
ser ao mesmo tempo um símbolo de sua disposição de obedecê-la sempre. É por isso que eles contavam com múltipla recompensa por usá-las, neste mundo e no vindouro. Como não havia prescrições de tamanhos específicos para essas correias de oração e cápsulas, os fariseus as confeccionavam com uma largura que chamava a atenção (o termo grego no evangelho na verdade significa “amuletos”, pois mais tarde também eram considerados como tais, cf. Lauck, vol. XI, p. 56).
     O que Deus havia ordenado nas referidas passagens de Moisés, a saber, atar o mandamento de Deus nas mãos e sobre a testa, para que sempre estivesse presente, obviamente deve ser entendido figuradamente. O mandamento, portanto, seria bem observado numa atitude como, p. ex., a do Sl 119.11,47: “No meu coração conservo as tuas ordens”; “Delicio-me em teus mandamentos” etc.
     Entretanto, aquelas palavras produziram o costume de anotar os mandamentos, fechá-los em cápsulas e
usá-los atados com correias nas mãos e na testa. Os especialmente religiosos nunca os retiravam. De maneira
semelhante as franjas devem recordar os mandamentos de Deus. Quanto às borlas nos mantos, referidas no v.
5, cf. o exposto sobre 9.20 na nota 23 do capítulo 8.
     Do Talmude pode-se depreender que corriam uma série de apelidos e expressões sarcásticas que
caracterizavam as “poses de oração” desses fariseus: Falava-se de “fariseus de ombros”, ou seja, aqueles que carregam suas realizações de oração sobre os ombros, para que todos os pudessem ver e admirar, e dos “fariseus furtivos”, i. é, dos que andavam a passos lentos e cerimoniosos, mal erguendo os pés do chão, para expressar a sua importância. O “fariseu da compensação” faz a contabilidade de seus cumprimentos da lei em troca de seus pecados. O “fariseu da perda de sangue” não levanta os olhos, a fim de não ver de modo algum uma mulher, e assim bate a cabeça, chegando a sangrar. O “piedoso fanático” vê uma criança lutando contra as ondas, mas até desatar os filactérios para poder ajudá-la, ela já se afogou.
     d
     Nos banquetes os lugares eram distribuídos de acordo com a importância. Somente mais tarde
passaram a ser designados pela idade. Na sinagoga os escribas costumavam assentar-se entre o povo e o
armário da Torá, com o rosto voltado para o povo (sobre a sinagoga, veja o exposto em 13.54ss).
     e
     Rabino [mestre], significa originalmente “o grande”, e posteriormente passou a ser idêntico a
“professor” ou “mestre”.
O ataque de Jesus aos fariseus começa com o reconhecimento deles como professores da lei, da
Torá. O v. 2 não deve ser entendido erroneamente como ironia. Eles se assentam na cadeira de
Moisés e ocupam esse lugar com razão. Por isso também é preciso entender como de pleno direito
que Jesus diz que devemos fazer o que eles dizem. O início desse discurso é uma repetição da sua
posição diante da lei, agora referida aos fariseus, conforme expôs no sermão do Monte, em 5.17ss,
mas que ele já expressou antes por ocasião de seu batismo, em Mt 3.15.
A grande investida de Jesus contra os fariseus inicia com a discrepância entre ensinar e praticar, e
isso num sentido bem específico. O modo de agir dos fariseus não contradiz o seu ensino numa
compreensão corriqueira, p. ex., que eles ensinassem o sétimo mandamento mas eles próprios fossem
ladrões. Pelo contrário, eles ensinam os mandamentos como sendo de Deus, porém praticam-nos
perante os olhos das pessoas. Nesse sentido eles negligenciam o que é mais difícil na lei, porque é
relativamente fácil parecer justo perante as pessoas. É difícil ser justo diante de Deus, e mais difícil
ainda é a condenação da própria pessoa, que acontece na lei, e que temos de reconhecer.
Em relação à lei, porém, acontece que, se eu a reconheço, preciso reconhecê-la integralmente e
praticá-la integralmente (Tg 2.10)! No entanto, se eu transgredir somente um mandamento, então sei
que me tornei culpado de toda a lei. Esta verdade de fato se expressa na doutrina dos fariseus. Por
meio desta doutrina eles impõem pesadas cargas às pessoas, mas eles próprios fogem para um
cumprimento formal (correias de oração, borlas, orações em público etc.), de modo que a acusação
de Jesus os atinge da mesma maneira como a palavra do profeta Isaías, que Jesus lhes havia citado já
em 15.8s. Portanto, Jesus recrimina os fariseus de que, no fundo, sabem de sua condenação pela lei,
o que também expressam em sua doutrina, mas que ignoram sempre de novo essa conseqüência,
contradizendo-se a si mesmos (pois do contrário teriam de ser levados a agarrar humildemente a mão
de Deus estendida por meio de Jesus).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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