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91 A exortação daí decorrente aos discípulos, Mt 23.8-12

A exortação daí decorrente aos discípulos, Mt 23.8-12

8-12 Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele está no céu.      Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo. Mas o maior dentre vós será vosso servo. Quem a si mesmo se exaltar, será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado.
Em relação à tradução
     a
     No v. 8 rabino é igualado ao título “professor”, enquanto no v. 10 aparece outra palavra para
“professor”, que provavelmente em breve também se tornou um título na comunidade primitiva, que ainda
hoje conhecemos pelo termo “catequista”, derivado do grego.
     b
     Aqui se nota de modo singular como Mateus traduz do aramaico. “Pai” é a tradução da famosa
interpelação “Abba”. Professores famosos eram tratados como “Abba”. Eles são o “pai”, assim como
denominam seu aluno de “filho”. O nome honorífico “pai” não era usual somente para os patriarcas Abraão,
Isaque e Jacó. Outras pessoas destacadas também o recebiam. Sobretudo os famosos escribas Shammai e
Hillel eram chamados “pais do mundo”.
Podemos resumir a exortação dada aos discípulos e, através deles, à comunidade, dizendo que
dentro da comunidade não devem vigorar títulos que levem a que quaisquer pessoas se destaquem.
Naturalmente também houve cargos na primeira comunidade (1Co 12.28ss), que estavam
distribuídos de acordo com os dons que cada indivíduo recebeu. Entretanto, essa circunstância não
levava à glorificação de um em detrimento do outro.
A determinação é que jamais alguém se eleve sobre o outro (apesar de que Paulo talvez tenha de
evitar justamente isso na primeira carta aos coríntios). Pelo contrário, as diferenças somente possuem
importância na medida em que as diferenças entre os diversos membros têm importância para o
corpo.
É fato – e isto é admirável e apenas compreensível a partir desta ordem direta de Jesus – que não
existiu na primeira comunidade nenhum dos títulos aqui proibidos. Apesar de que muito em breve
surgiu na comunidade o cargo de professor, a comunidade evitou o título rabino, que estava à mão.
Por trás dessa exortação do Senhor e dessa atitude da comunidade com certeza encontra-se a palavra
de Jr 31.34, de acordo com a qual no tempo do Messias não haveria mais necessidade de professores,
porque o próprio Deus seria o único professor a ensinar a todos. Portanto, a posição de autoridade do
professor está sendo condenada, porque ela o posicionaria contrariamente à função de Deus como
ensinador.
O que no tempo de Jesus ainda era necessário, e a medida de autoridade que ele ainda concede aos
fariseus, isso não existe mais na comunidade cristã.
De igual modo não pode mais existir o nome pai no relacionamento entre pessoas, porque agora
todos podem invocar o Pai no céu dizendo “Abba”, “que é o verdadeiro Pai de tudo que se chama
filho no céu e na terra” (Ef 3.15). Por isso a paternidade natural constitui apenas uma cópia pálida da
condição de Deus como nosso Pai.
Foi um erro que a igreja, em seu desenvolvimento posterior, reintroduziu em diversos de seus
ramos o título de “pai” (não somente no catolicismo o termo “papa” significa pai, mas também é esse
o sentido da título clerical father na Igreja Anglicana, e na Igreja Ortodoxa o designativo “pope”
expressa o mesmo). Por sermos todos “filhos” diante de Deus, a designação “irmão” é a única
correta. É surpreendente que Jesus não escolhe a designação “discípulo”. Provavelmente já influiu o
temor de que esse também poderia tornar-se um título que viesse a destacar a primeira geração dos
discípulos de Jesus diante dos demais. Porém era exatamente isso que Jesus queria evitar.
O nome professor no v. 10 possui um sentido um pouco diferente. Poderíamos traduzi-lo com
“dirigente” ou até com “líder”, ou guia (segundo Schniewind). É a designação para uma posição de
mediador. Por isso é compreensível que o Senhor reserve esta designação para si próprio, porque ele
é o único “caminho” (Jo 14.6) e a única porta ao Pai (Jo 10.7).
Toda a exortação surgiu a partir da nova situação que se criou com a vinda de Jesus, na qual a
comunidade cristã, por isso, vive como comunidade singular no mundo todo como a comunidade do
Messias. Todas as exortações de nada valeriam se ainda persistisse a antiga ordem, na qual Jesus
também atribui aos fariseus uma posição especial. Por meio da sua vinda essa ordem foi liqüidada,
motivo pelo qual um não pode mais elevar-se sobre o outro.
Os dois ditos finais são transmitidos em diversas ocasiões (cf. o exposto sobre 20.26! Quanto ao
segundo dito, veja 18.4). Tão somente temos de tomar cuidado para que, pela via do serviço, não
volte a instalar-se a glória própria, que esvazia qualquer serviço pela orgulhosa presunção: hoc ego
feci – isso fui eu que fiz! Somente é genuíno aquele serviço que de fato acontece totalmente por
causa do outro. Somente recebe recompensa de Deus aquela ação que não se realiza por causa da
recompensa, que não acontece com o menor pensamento por méritos, em que uma mão realmente
não sabe o que a outra faz (Mt 6.3). O mesmo vale para a auto-humilhação. Quando ela acontece de
forma intencional, não representando uma convicção sincera da própria pequenez diante de Deus,
ela nada mais é que uma forma sutil de auto-exaltação. Precisamente por Jesus condenar o “fariseu
dentro de nós”, temos de nos cuidar para não cairmos no farisaísmo oculto, que se orgulha do próprio
serviço e da própria humildade e que secretamente diz para si: Eu lhe agradeço, ó Deus, porque não
sou como esse fariseu [cf. Lc 18.11]!

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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