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92 As sete condenações, Mt 23.13-33

As sete condenações, Mt 23.13-33

a. 1ª Condenação 
     Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois, vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando. [Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque devorais as casas das viúvas e, para o justificar, fazeis longas orações; por isso sofrereis juízo muito mais severo.]

b. 2ª Condenação 
15 Ai, de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós. 

c. 3ª Condenação 
     Ai de vós, guias cegos! Que dizeis: Quem jurar pelo santuário; mas se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou. 
17 Insensatos e cegos! Pois, qual é maior: o ouro, ou o santuário que santifica o ouro? 
18 E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar, fica obrigado pelo que jurou. Cegos! Pois, qual é maior: a oferta, ou o altar que santifica a oferta? 
20 Portanto, quem jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que sobre ele está. Quem jurar pelo santuário, jura por ele e por aquele que nele habita. E quem jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado. 

d. 4ª Condenação 
     Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei, a justiça, a misericórdia e a fé. Deveis, porém, fazer estas cousas, sem omitir aquelas. Guias cegos! Que coais o mosquito e engolis o camelo. 

e. 5ª Condenação 
     Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo

f. 6ª Condenação 
     Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos, e de toda imundícia.      Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade. 

g. 7ª Condenação 
29 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque edificais os sepulcros dos profetas, adornais os túmulos dos justos, 
30 e dizeis: Se tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas. Assim, contra vós mesmos, testificais que sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei-vos, pois, à medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?
Em relação à tradução
     a
     O v. 14 penetrou aqui em alguns manuscritos a partir dos paralelos de Mc 12.40 e Lc 20.47, assim
como no grego coiné, de que Lutero [e Almeida] dispunha ao traduzir. É por isso que encontramos esse
versículo em nossas Bíblias. Admitamos, pois, que ele não estava aqui originalmente, por faltar em
manuscritos importantes. Por isso é que podemos falar de sete condenações.
     b
     Fazer prosélitos: Um prosélito é alguém que não é judeu que passou para a fé judaica e foi aceito na
comunidade cultual judaica. Isso se dava pela execução da circuncisão e pelo batismo. Como o judaísmo,
não obstante as tendências universalizantes que se manifestaram sobretudo na tempo dos macabeus,
permanecesse vinculado a uma nação, a posição dos prosélitos nunca foi inequívoca. O prosélito sempre foi
um judeu de segunda classe. Apesar disso, desde o tempo dos macabeus e do surgimento de uma diáspora
judaica maior, o missionário dos judeus era muito intenso. O sucesso mais significativo da propaganda
judaica foi a conversão de uma dinastia assíria, a saber, a do rei Isates de Adiabene e sua mãe Helena, que
até se envolveu ativamente no levante judaico que resultou na destruição de Jerusalém no ano 70, ou seja,
deve ter sido simpatizante dos zelotes. Para a missão cristã a missão anterior dos judeus foi importante,
porque Paulo podia recorrer em todo lugar à comunidade judaica e aos círculos de prosélitos ligados a ela.
Em muitos casos no início as comunidades eram constituídas de prosélitos.
     c
     A prática de juramento dos fariseus: O esforço de não citar o nome de Deus trouxe consigo que as
pessoas juravam em nome do templo ou do altar. A menção do templo ou do altar, porém, tinha de expressar que a pessoa estava se referindo a Deus quando citava a sua propriedade. É aqui que inicia o casuísmo, ao se diferenciar que, citando o ouro do templo, se estaria mencionando em grau maior a propriedade de Deus, porque esse ouro fora consagrado a Deus. Assim também a oferta sobre o altar estaria mais fortemente relacionada com Deus do que a construção do altar. Por isso um rabino podia liberar uma pessoa de um juramento em que a invocação de Deus não estivesse inequivocamente evidente.
     d
     O dízimo: De acordo com a Torá, o dízimo de todos os produtos do campo e do gado era santo. Em
relação à sua utilização, porém, as determinações divergiam. Segundo Nm 18.20-32 e Ne 10.38, ele tinha de ser ofertado, segundo Dt 14.22ss devia ser comido num local sagrado, e dado aos levitas e necessitados
somente a cada três anos. Para outras determinações, cf. Lv 27.31ss e Tob 1.7ss.
     No empenho de cumprir a lei com a máxima exatidão, obedeciam-se todas as determinações, de modo
que, p. ex., um judeu consciencioso tirava a cada terceiro ano o dízimo de suas receitas, não apenas do
cereal, mas do menor tempero de cozinha. O dízimo era estendido àqueles produtos de plantas que crescem
por si, sem nenhuma contribuição do homem, e nem sequer servem à alimentação, quando muito para
temperá-la. Contrariamente, passavam sem escrúpulos por cima dos mandamentos que são mais importantes
pelo conteúdo, mas mais difíceis de cumprir. Ambos os sentidos estão contidos no termo grego, traduzido
aqui no v. 23 como importantes. Jesus não quer criticar essa exatidão na observância da lei cerimonial como
tal, enquanto a aliança ainda persiste de direito. Contudo, constitui uma prioridade invertida conceder maior
importância a essas leis que aos mandamentos éticos fundamentais. Naturalmente, os fariseus não possuíam
mais nenhuma sensibilidade para a ordem correta das prioridades. Não há local em que isso se evidencia
melhor que nas suas prescrições sobre a pureza e impureza dos utensílios (Lauck, p. 58).
     e
     Preceitos de purificação: Os preceitos de purificação a que Jesus se refere eram muito brandos
originalmente e sobretudo sensatos. Estavam limitados a manter-se puro diante de animais impuros; às
parturientes, que eram tidas como impuras por algum tempo; e à lepra (cf. Lv 11–15). Outras prescrições de pureza referiam-se aos sacerdotes e aos utensílios do templo. Portanto, as prescrições das lavagens no
começo eram obrigatórias somente para os sacerdotes, e a limpeza dos utensílios valia inicialmente apenas
para as vasilhas sagradas e tinham o objetivo de preservar o korbã, i. é, aquilo que pertence a Deus.
     Há um tratado inteiro da Mixná que descreve quais são as partes do lado externo de uma vasilha de
madeira, de bronze ou de cerâmica que podem tornar-se impuras e quais não, ou quando uma vasilha pode
ser declarada novamente como limpa e quando não, e que tipo de impureza isso é de caso para caso etc.
Quem tenta estudar esse tratado e orientar-se nesse emaranhado casuísta funde a cabeça.
     Contudo, não atormentava os fariseus que o interior da vasilha estivesse impuro por estar cheio de
alimentos adquiridos de forma injusta ou que servem ao desfrute desmedido (Lauck).
     f
     Os sepulcros caiados: Não apenas o ato de tocar o morto, mas também o solo que encobria ossadas de
mortos maculava a pessoa. Por isso, para prevenir-se do contato com as sepulturas existentes em toda a
parte, costumava-se pintá-las de branco. Ou seja, a cor clara era justamente o sinal de alerta, assim como o
chocalho dos leprosos. O costume era pintar as sepulturas todo ano antes da Páscoa com cal bem branco,
para que ninguém que peregrinasse para a festa adquirisse uma impureza, que poderia ser afastada apenas
através de longos cerimoniais. Essa é a razão por que as sepulturas judaicas ainda hoje, quando descuidadas
e cheias de hera, são realmente um local de morte.
     Em oposição a isso, iniciou no tempo dos macabeus um culto às sepulturas dos mártires e profetas, o que, por um lado, levou a construções luxuosas sobre elas, e por outro, também à proliferação de lendas sobre o destino dos mártires, sobretudo do tempo dos macabeus.
     As passagens do Talmude e outros escritos do judaísmo tardio comprovam que Jesus não está exagerando na caracterização dos fariseus.
     Assim, pois, não tardará o castigo de Deus para os fariseus e a nação desgovernada por eles. É verdade
que muitas pessoas fiéis se esforçam por construir estátuas para os profetas assassinados pelos seus pais.
Contudo, através das palavras falsas que pronunciam nessa atividade, apenas atestam para si próprios que em suas veias também corre sangue assassino. É por isso que não conseguem agir diferente do que dar
continuidade e concluir as transgressões praticadas pelos seus pais. Com extrema revolta e para expressar a
impossibilidade de corrigi-los, Jesus praticamente os desafia: “Completai a medida dos vossos pais”. Porque
não há mais como salvá-los, as realizações salvadoras de Deus apenas servem para acelerar o juízo sobre
eles. Eles completarão a medida de seus pais justamente assassinando os últimos mensageiros de salvação
enviados pelo próprio Jesus (cf. Lauck, p. 59).
A linha que interliga esses versículos é a acusação da hipocrisia, repetida em cada um dos sete ais.
Por isso compreenderemos a incriminação do farisaísmo de forma correta somente se soubermos o
que essa palavra quer dizer. Com a palavra hipocrisia, como ademais com qualquer tradução,
reproduzimos apenas de modo incompleto a palavra original. Em Mc 12.15 e Lc 12.1 Jesus define a
hipocrisia como a natureza dos fariseus. Quando ele, no sermão do Monte, se refere aos hipócritas
como o exemplo negativo que repugna, não estaremos errando se entendermos que ele está falando
dos fariseus. Em Mt 7.5 e 24.51 a palavra aparece no contexto de uma parábola. Em Mt 15.7; 22.18,
bem como aqui, Jesus trata os fariseus diretamente como hipócritas. Apenas em Lucas são
endereçados assim o povo, em 12.56, e um chefe de sinagoga, em 13.15. Contudo, mesmo nestes
textos os fariseus estão sendo visados como típicos representantes do povo e de sua religiosidade.
Portanto, podemos afirmar em primeiro lugar que, sob hipocrisia, Jesus entende a religiosidade
judaica, atingindo-a e condenando-a por meio dessa caracterização.
A acusação, porém, não descreve o que nós geralmente entendemos por hipocrisia: “aparentar”
fazer algo que não se faz, ou “fingir” ser algo que não se é.
Por exemplo, o fingimento dos fariseus na parábola não é que ele se gaba diante de Deus com
realizações (Lc 18.9ss) que ele nem tenha realizado. Sempre de novo deparamos com palavras em
que Jesus reconhece que há uma diferença entre fariseus e publicanos e pecadores, como entre fortes
e doentes (Mt 9.12), entre as ovelhas que não se afastaram e a ovelha perdida (Lc 15.4). Jesus, com
toda a seriedade, chama os fariseus de justos (Mt 9.13; Lc 15.7). Não obstante, num sentido mais
profundo, reside neles hipocrisia, contradição consigo mesmos. A justiça tem um limite. É o auto-engano, quando o fariseu pensa que pode persistir diante de Deus com as suas obras. Não há alegria
no céu pela sua justiça (Lc 15.7), e o fariseu o sabe, embora se engane ou tente se enganar a respeito
desse fato. Isso já foi expresso na primeira parte do discurso, quando Jesus criticou a obediência aos
mandamentos por meio de atos exteriores, que produzem somente a honra própria, mas não mais
tinham em vista a vontade de Deus (v. 5s). A acusação se repete no quarto ai. Ele trata da
contradição entre anunciar a vontade de Deus e uma fuga diante do seu cumprimento autêntico, ou
diante do reconhecimento de que se fracassa quando se cumpre realizações exteriores. – Os fariseus
reconhecem o mais importante na lei (v. 23), porém o contornam cumprindo as mínimas prescrições
detalhadas e tentando encobrir, desse modo, que fracassam redondamente perante a lei, e que por isso
dependem da graça de Deus. Torna-se claro em que direção aponta o ataque de Jesus: é o fato de que
ele traz a graça de Deus, mas os fariseus a rejeitam por se enganar a si mesmos com sua hipocrisia.
A partir dessa visão, não é mais difícil entender cada palavra isoladamente. Pelo fato de os
fariseus viverem nessa contradição em si mesmos, fechando para si o acesso ao reino dos céus
trazido por Jesus, também impedem de entrar aqueles que gostariam e os seguem como discípulos
(v. 13). Pela mesma razão, sua missão, que realizam com tanto empenho, deve levar à perdição dos
prosélitos, contra a sua vontade (v. 15).
Na terceira exclamação de ai Jesus desmascara a contradição própria que se torna visível no
casuísmo farisaico, com o qual tentam escapar da implacabilidade da lei. Com essa palavras Jesus
naturalmente não revoga sua rejeição fundamental do juramento. Continua válido que um sim seja
um sim, e um não seja um não. Continua válido que todas as tentativas de não citar o nome de Deus
erram o alvo (Mt 5.33-37). Na presente passagem, Jesus se torna mais claro, em comparação com o
sermão do Monte. Quem jura, precisa saber o que faz. Todas as tentativas de torná-lo menos
comprometedor têm de fracassar, porque ignoram a seriedade do juramento. Justamente por levar
muito a sério que, em respeito ao segundo mandamento, os judeus temem usar o nome de Deus,
Jesus condena o juramento. Por outro lado, ele precisa rejeitar tanto mais todas as tentativas de
esquivar-se da seriedade de um tal juramento.
O quarto e quinto ais estão ligados entre si. Em ambos os casos condena-se a tentativa farisaica de
cumprir a lei obedecendo às suas exigências formais, p. ex., levando o mandamento do dízimo tão a
sério que se ultrapassa a medida estabelecida na lei. Jesus não critica o esforço, pois novamente
reconhece a sua seriedade, mas revela ao mesmo tempo como exatamente dessa forma se faz a
tentativa de fugir da exigência central da lei. Jesus reproduz a exigência central no exato sentido do
AT. Já em Am 5.24 foram anunciados direito e justiça. No sermão do Monte Jesus declara felizes
aqueles que têm fome de justiça [Mt 5.6]. O direito com certeza também significa condenação do
mal, mas primeiramente é algo pertinente a Deus e que se realiza nas ações das pessoas, quando a
própria pessoa pertence a Deus. Do mesmo modo, a misericórdia é em primeiro lugar uma
propriedade de Deus, e somente a partir daí torna-se, nas pessoas posicionadas sob Deus, uma ação
da pessoa que tem compaixão do seu próximo. Enfim, a fé por sua vez também é uma atitude que se
comprova na fidelidade (essa também poderia ser uma forma de traduzir o termo grego) diante do
mandamento de Deus, porém a fé demonstra essa fidelidade “do fundo do coração” (Lutero), e não
pela mera ação formal. O resumo da lei dado por Jesus está de conformidade com o que em Mq 6.8 é
chamado de exigência de Deus. A lei cerimonial devia ser uma auxiliar para viabilizar esse
cumprimento da lei a partir do íntimo, a partir de uma concordância interior com ela. Mas quando
torna-se um fim em si mesma, ela realiza o contrário (cf. o sermão do Monte).
Através de um provérbio é mostrado o contra-senso da prática farisaica. Era costume coar bebidas
por meio de um pano, a fim de não engolir por engano uma mosquinha. Como é grotesca essa ação, e
inversamente engolir sem preocupação “grandes animais”!
Nas quinta e sexta exclamações de ai, Jesus desmascara o contra-senso entre observar
formalmente com rigor as prescrições cerimoniais e a perversão interior, da qual participam também
os fariseus, com ganância e adultério. É a mesma contradição de serem mantidos limpos por fora os
utensílios do culto, mas conterem um vinho que é fruto de roubo. Em decorrência, os fariseus com
sua justiça exterior se equiparam a sepulturas cujo aspecto bonito constitui precisamente um alerta
contra seu conteúdo pernicioso.
O último ai é o mais agudo. Ele desvela a contradição própria dos fariseus assim como ela se
mostra precisamente na sua atitude diante de Jesus. Enquanto os fariseus praticam um ostensivo culto
aos mártires e profetas, querendo desse modo justificar-se e purificar-se do fato de que corre sangue
assassino em suas veias (Klostermann), realizam exatamente o que os profetas condenaram, e por
conseqüência se voltarão contra aquele que foi enviado por Deus depois dos profetas com uma
missão idêntica. Portanto, andarão nas pegadas de seus antepassados apesar de todo o culto aos
mártires. Este, assim, se evidencia novamente como mera formalidade exterior. Completarão a
medida de seus pais pregando Jesus na cruz.
Todas as condenações são unificadas naquilo que Jesus expressou nessa última. Jesus pode
caracterizar os fariseus de modo tão arrasador porque tudo o que os caracteriza se manifesta de forma
mais contundente na sua atitude diante dele. Pela razão de Jesus inaugurar o reino dos céus, de na sua
pessoa esse reino estar presente entre eles, por isso, e somente por isso, é um pecado capital trancar
esse reino para si e para os outros. Pelo fato de Jesus trazer a graça imerecida de Deus, não apenas é
tolice persistir na atitude de se autocontradizer, mas a hipocrisia também é elevada ao cúmulo
quando essa falsa justiça própria é colocada acima da que foi dada por meio de Jesus Cristo.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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