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92 Predição da entrega de Jesus por um dos seus doze discípulos, Mc 14.17-21

Predição da entrega de Jesus por um dos seus doze discípulos, Mc 14.17-21
(Mt 26.21-25; Lc 22.21-23; Jo 13.21-30)

17-21 Ao cair da tarde, foi com os doze. Quando estavam à mesa e comiam, disse Jesus: Em verdade vos digo que um dentre vós, o que come comigo, me trairá. E eles começaram a entristecer-se e a dizer-lhe, um após outro: Porventura, sou eu? Respondeu-lhes: É um dos doze, o que mete comigo a mão no pratoPois o Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito; mas ai daquele por intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido!

Em relação à tradução
a
Cf 1.32n. A celebração da Páscoa começava em uma “hora” prescrita (Lc 22.14), que era às seis da
tarde, e se estendia até a meia-noite.
b
lypein expressa a dor do luto, mas também pode ter o sentido de insatisfação e ira (Bultmann, ThWNT
IV, 319).
c
meti: a resposta que a pergunta espera é “não”.
d
Acrescentado de acordo com Mt 26.23.
e
No grego falta o predicado, de modo que a frase tem a forma de uma exclamação.
f
Só aqui “ir” (hypagein) significa “morrer”, no sentido de ir pa ra o julgamento. Em Jo 7.33; 16.5; 13.3;
16.10,17 o termo também significa o fim da vida, mas no sentido de ir para o pai.
g
Na verdade “bonito, bom”, mas cf. 9.42n.
Observações preliminares
1. Título. Pode-se sobrescrever este trecho junto com os  versículos seguintes 22-26 com “A Última Ceia de
Jesus” ou algo parecido, desde que se entenda que só nos são apresentados aqui dois momentos da festa que
durava muitas horas: a predição da entrega e o novo significado de pão e cálice.  – O título “Indicação do
Traidor” para os v. 17-21 também não é exata. Marcos não menciona Judas pelo nome, neste contexto. A
perspectiva é mais ampla. Já no v. 14 ouvimos, com vistas à Ceia: “Eu com os meus discípulos”. Assim
também começa o v. 17: “Ele com os doze”, e mais uma vez lemos no v. 20, em contexto direto com a traição:
“É um dos doze”. veja também o v. 18: “Um dentre vós”. Portanto, temos um trecho concentrado
especialmente nos doze. O sentido do chamado deste grupo fora que estivessem com ele exatamente nesta
noite e na sua morte. O “comigo” dos v.  18,20 soa como um eco do “estar-com-ele” de 3.14. Era nesta noite
que eles exerceriam sua função, de ser testemunhas e beneficiários da nova Páscoa: Jesus anunciou sua morte
como o nascimento deles como novo povo de Deus (v. 22-24). Assim como o Israel antigo se viu poupado da
ira de Deus pelo sangue do cordeiro, o mesmo aconteceria agora com eles pela morte expiatória de Jesus. Por
isso é tão necessário que os doze façam parte desta Páscoa, mais do que a sala, as almof adas, os jarros e os
alimentos. Por isso, porém, também eles tinham de ser definidos como carentes de salvação. Exatamente isto
foi feito pela indicação indelével de que a rejeição do Filho do homem procedeu dentre deles. O traidor, cuja
individualidade e nome aqui não importam, só serviu de representante de qualquer um deles (v.  19). (Veja
também a opr 3 à divisão principal 11.1–12.44.)
2. Posição do evento no desenrolar da Páscoa judaica. O parágrafo dos v. 12-16 não deixou dúvidas de
que esta ceia foi uma Páscoa judaica. Para os leitores daquela época, especialmente os cristãos de origem
judaica, com isto automaticamente uma série determinada de procedimentos vinha à mente. Pequenos indícios
no texto nos informam da posição em que este momento deve ser encaixado. Para os leitores de hoje falta este
fundo. Podemos nos informar em Bill. IV, 41-76; Jeremias, Abendmahl. P 79s; Stauffer, p 88s; Pesch II, 348s:
a. O antepasto. Depois de os convivas se deitarem nos divãs e almofadas em volta da mesa baixa, o dono
da casa dá início à refeição tomando seu cálice e dizendo a frase de louvor. Os demais em volta da mesa o
confirmam com “amém”. Em seguida cada um bebe até o fim seu primeiro cálice (vinho, misturado com
bastante água). Então se come o antepasto: um pouco de verduras e um pouco de ervas amargas (símbolo da
servidão), ambos mergulhados primeiro na bacia comum com compota de frutas (símbolo do trabalho
forçado). Depois o prato principal é trazido e o segundo cálice é  enchido.
b. A meditação da Páscoa. Antes que se toque no prato principal, declaram-se com frases prontas de
pergunta e resposta as ações de Deus na noite da Páscoa no Egito e, com palavras explicativas, o sentido dos
elementos da festa. Em seguida canta-se a primeira parte do Hallel (Sl 113–114) e bebe-se o segundo cálice.
c. O prato principal. Neste ponto o dono da casa se senta, toma um pão sem fermento (mazzen, símbolo da
pobreza), ergue-o um pouco e diz a frase de louvor. Todos dizem amém. Em seguida ele quebra pequenos
pedaços e os estende aos demais. Assim que o último recebeu seu pedaço, todos o levam à boca. Com isto a
refeição em si está começada. Come-se o cordeiro assado (símbolo do fato de terem sido poupados), os
mazzen, as ervas amargas e a compota de frutas. Tudo é acompanhado de vinho e várias frases de louvor.
Depois da oração final, o terceiro cálice (o “cálice da bênção”) é bebido.
d. O encerramento. Canta-se a segunda parte do Hallel (Sl 115–118). O cântico é seguido por mais uma
frase de louvor e pelo quarto cálice.
Os dois trechos dos v. 17-26 podem facilmente ser encaixados nesta seqüência. “Quando estavam à mesa”,
no v. 18, refere -se ao antepasto. O pão submergido na tigela com a palavra sobre o traidor, no v.  20, faz parte
do aperitivo das ervas nesta primeira parte. O segundo “enquanto comiam”, no v. 22, e o ato de tomar,
agradecer e partir o pão, com as palavras explicativas, faz parte da refeição principal. A palavra do cálice no v.
23 refere-se ao terceiro cálice (“depois de cear” em Lv 22.20; 1Co 11.25; “cálice da bênção” em 1Co 10.16).
Por fim, o v. 26 menciona a segunda parte do Hallel.
17  Ao cair da tarde, foi com os doze. Sobre o interesse especial nos doze, veja a opr 1. Os dois
mensageiros do v. 13 pelo visto estavam  novamente com eles; faz parte da execução da tarefa do
mensageiro relatar o cumprimento. No mais não se pode provar que Jesus e os doze estivessem
sozinhos nesta noite. A Páscoa judaica não era uma festa só de homens. Podemos imaginar que as
mulheres que os tinham acompanhado desde a Galiléia, mencionadas em 15.40s, e talvez também o
dono da casa com seus agregados, estivessem presentes. “Um dos doze” no v. 20, em vez de “um de
vocês doze”, pode indicar que havia outras pessoas presentes. Mas estas pergunt as estão totalmente
fora de questão aqui.
18  Quando estavam à mesa e comiam. Estavam deitados em divãs e almofadas em volta de uma
mesa baixa, cf. 14.3n. O que era comum em banquetes, no jantar da Páscoa era regra rígida,
divergindo da noite da Páscoa no Egito, em que comeram de pé (Êx 12.11). Até para os mais pobres,
inclusive os escravos judeus, que tinham de ficar de pé durante as refeições, nesta noite era preciso
arranjar acomodações para deitar. “No jantar da Páscoa é necessário comer deitado , para mostrar que
se passou da servidão para a liberdade” (em Jeremias, Abendmahl, p 43, nota 3). Quem costumava
comer deitado eram os homens livres e importantes, e a Páscoa era a festa judaica da libertação.
Portanto, se os evangelhos registram oito vezes em relação à última Ceia de Jesus que ele se deitou
para comer com seus discípulos, a idéia de liberdade certamente também deveria ter destaque na Ceia
da aliança do NT. Os primeiros cristãos partiam o pão em meio ao júbilo pela libertação, salvos do
medo (At 2.47; Rm 8.15).
Disse Jesus: Em verdade vos digo que um dentre vós, o que come comigo, me trairá. Sobre
“em verdade”, cf. 3.28. Com insistência Jesus afirma aqui e no v. 20 que esta ação monstruosa se
origina na própria comunhão à mesa. “Toda comunhão à mesa é, para o oriental, concessão de paz,
fraternidade, confiança; comunhão à mesa é comunhão de vida, escreve Jeremias, Abendmahl, p 196,
para continuar: “A comunhão à mesa com Jesus é ainda mais”, ou seja, salvação e comunhão com o
próprio Deus. Portanto, deste grupo que vivia palpavelmente o estar-com-ele de 3.14, sim, que se
encontrava nos braços do próprio Deus, um “levanta contra ele o calcanhar”, como está em Jo 13.18,
citando o Sl 41.9. Um do grupo dos doze passa uma rasteira traiçoeira e desp rezível no Senhor. Isto é
o que significa “entregar”.
19  Esta palavra caiu como um raio no meio do grupo dos discípulos. Sem a passagem costumeira com
“e”, uma frase descreve a perplexidade: Eles começaram a entristecer-se. Chocados e indignados
eles exclamam, um após outro: Porventura, sou eu? De fato, para onze deles a idéia de ser desleal
não passava pela cabeça. Jesus parecia estar sendo injusto com eles. Mas a parágrafo dos v. 27 -31
retomará e iluminará melhor a questão. Eles ainda estavam muito fortes para poder suportar o
discipulado. Sua indignação somente evidenciava sua falta de entendimento (cf. 1.36).
20  Por isso Jesus fez que não ouviu a solicitação para que lhes conferisse atestados de fidelidade. Sem
se  impressionar, ele repete seu diagnóstico: É um dos doze, o que mete comigo a mão no prato.
Enfiar a mão juntos na tigela nos recorda mais uma vez a comunhão concedida. Lança-se luz sobre
um abismo de amor. Jesus alimenta o seu inimigo (cf. Rm 12.20)! E ele o faz ainda no momento em
que morre a esperança de alcançar e ganhar o traidor. Segundo Jo 13.27, exatamente esta
demonstração de amor fez empedrar o coração de Judas. Mesmo assim, os onze não tinham motivo
para falar sobre esta infidelidade como se estivesse fora deles. Eles não deveriam sentir-se
superiores, mas desmascarados.
21  Pois o Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito. Como em 9.12s; 14.49,
dificilmente Jesus tinha em mente uma passagem específica, mas a teologia do sofrime nto no AT
como um todo. É claro que se tratava de um cumprimento da Escritura como nenhum escritor
humano o poderia ter imaginado. O destino de Jesus, portanto, brotou decididamente do plano de
salvação de Deus. A especulação de que tudo teria sido diferente se não tivesse havido um Judas,
nem passou pela mente de Jesus. Todavia, o caráter bíblico dos seus sofrimentos, e a autorização
dada por Jesus ao sacrílego segundo Jo 13.27, não isentam Judas de culpa. Mas ai daquele por
intermédio de quem o Filho do Homem está sendo traído! Ele não “tinha” de fazê-lo. O amor de
Jesus se aplicava a ele, e Judas sabia disso. Agora o lamento do luto israelita é pronunciado sobre ele.
Melhor lhe fora não haver nascido! Aqui não se está falando da sua morte eterna mas da sua vida
desgraçada, separada de Deus e desperdiçada. O judaísmo aplicava esta expressão com freqüência
aos pecadores (Bill. I, 989), de modo que Judas não é declarado aqui um pecador especial.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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