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93 Duas palavras de conclusão, Mt 23.34-39

Duas palavras de conclusão, 23.34-39
(Lc 20.45-47; 13.34s)

34-39 Por isso eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis, a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas cousas hão de vir sobre a presente geração. Jerusalém, Jerusalém! Que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Declaro-vos, pois que desde agora já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor!
Em relação à tradução
Derramado sobre a terra: Talvez fosse melhor traduzir: “que foi derramado na terra”, porque, segundo
uma antiga opinião, era uma transgressão deixar correr o sangue por sobre a terra (assim informa
Klostermann). Por outro lado, a citação dos primeiros assassinados “sobre a terra” faz com que pareça bem
mais provável que está sendo referida a totalidade dos que foram mortos “sobre a terra” por causa de sua fé
ou da missão divina que os ocupava.
Zacarias filho de Baraquias: Enquanto Abel era honrado em geral como o primeiro assassinado, não está
muito claro a quem se refere essa indicação de Zacarias. Provavelmente é o Zacarias de 2Cr 24, que morreu
com as palavras: “O Senhor o veja e peça contas!” (v. 22). No caso dele também confere que ele foi
apedrejado no santuário, que assegurava direitos de asilo. Esse fato parece-nos ser de maior peso que a
diferença relativa de que “entre templo e altar” não coincide exatamente com a definição do local em 2Cr:
“No átrio da casa de Iavé”. Em ambos os casos está sendo mencionado o recinto sagrado (concordando com
Schniewind, contra Klostermann). É verdade que esse Zacarias se chama “filho de Joiada”. Porém, devemos
supor que em Mateus penetrou o cognome do profeta Zacarias. O evangelho apócrifo aos Hebreus corrigiu
conseqüentemente. Na igreja antiga se pensava que o Zacarias citado em 2Cr fosse portador de dois
sobrenomes.
Evidentemente, Jesus usa a primeira palavra (possivelmente também a segunda) como citação
conhecida dos fariseus. De acordo com Lucas, trata-se de uma citação de um dos escritos de
sabedoria, dos quais conhecemos, p. ex., entre os livros deuterocanônicos do AT, a Sabedoria de
Salomão, e dos quais existiam vários. A primeira palavra também pode ser identificada ainda como
citação, pelo termo introdutório: “Por isso”. Referindo uma citação dessas de um escrito
desconhecido para nós, Jesus a torna uma palavra de Deus, concede-lhe a autoridade de algo
pronunciado com autorização de Deus. Por meio dela está afirmando que o povo judeu sofrerá a
vingança por todos os delitos que esse povo, na orgulhosa teimosia por sua filiação abraâmica,
cometeu contra o povo de Deus oculto, contra o verdadeiro Israel. Como sentença condenatória sobre
esse povo, ele afirma o que as pessoas clamaram sobre si com arrogância perante o tribunal de
Pilatos: “Seu sangue caia sobre nós e nossos filhos” (27.25). Ao citar aqui essa palavra, ele também
está querendo afirmar que a atitude dos fariseus em relação a ele está na mesma linha desse grito!
Sim, a linha de Abel a Zacarias, passando por este, chega ao ápice em Jesus. Até Zacarias ainda era
provisória a decisão contra a palavra de Deus presente, uma decisão que sempre de novo se
manifestou na atitude do povo diante dos profetas. Na decisão contra Jesus ela se torna definitiva.
Mais uma vez, como tantas outras, repercute agora a parábola dos maus arrendatários da vinha.
Uma pergunta é o que Jesus entendeu com a palavra geração. Nos textos em que Jesus se refere
com ela inequivocamente à totalidade do povo judeu (16.4; 17.17), Lutero a traduziu como
“espécie”, mas também em outras passagens a palavra deve ser entendida nesse sentido (p. ex.,
12.41s; Mc 8.38). Na presente passagem e em 24.34 prefere-se entendê-la como “geração”, de modo
que a frase toda adquire o sentido de anúncio do juízo final iminente a curto prazo. O fato de que esse
juízo final ainda não chegou não deve nos predispor contra uma tal compreensão. Pelo contrário, a
partir daí temos de considerar com toda a seriedade o juízo executado sobre Israel (que caiu sobre o
povo quando foi dissolvida sua existência enquanto nação). Com certeza Jesus considerou esse juízo
algo definitivo. De agora em diante estava terminada a prerrogativa de Israel segundo a carne. A
sentença que esse povo pronunciou contra si próprio ao condenar Jesus foi executada no ano 70,
quando da destruição do templo. Assim, é certo que Jesus tinha em mente o futuro imediato quando
pronunciou essa palavra.
Mais uma vez, Jesus diz que a destruição de Jerusalém será a execução da sentença que incide
sobre o povo, vendo nesse julgamento o juízo definitivo de Deus. Não obstante, o último versículo,
que prenuncia que o povo não verá mais Jesus, que ele veio pela última vez “com glória e doce luz”,
e que uma segunda vinda não será mais para convidar, mas para condenar, é justamente para nós
mais decisivo.
O destino do povo judeu sempre de novo constituiu um sinal de advertência para a comunidade
cristã. Ele adverte que diante de Jesus existe uma decisão definitiva, que existe um “tarde demais”.
Isso se tornou visível no povo judeu, mas vale para todos e torna insistente o convite: “Hoje, se
ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração!” (Sl 95.7s; Hb 3.7s).
É comovente como Schlatter descreveu esses últimos versículos do cap. 23: “Também Jesus a
chamou de cidade do grande rei. Contudo, ela precisa receber ainda outro nome: assassina dos
profetas. Com resistência teimosa, ela afasta a todos que vêm a ela com uma incumbência divina.
Jesus diz que investiu muito amor nessa cidade e se esforçou muitas vezes para reunir seus filhos
junto dele. Ele poderia ter sido a proteção deles contra culpa e juízo e lhes teria trazido a paz. Porém
ele não pode mudar à força a sua vontade obstinada, antes está amarrado à regra da justiça divina,
que preserva a vontade da pessoa.
“Jesus, porém, lhes está sendo tirado. O Pai lhes oculta o Filho. Vivenciaram em vão que ele
estava no meio deles e os chamou a si com sua grande bondade.
“Apesar disso, o discurso termina com o louvor a Deus, com o reconhecimento do Cristo e sua
unificação com sua comunidade. Nada disso diminui a seriedade do juízo. À raça de víboras não foi
prometido que ela ainda o louvará. Contudo, quando ele retornar, reunirá todos junto de si, e então
não faltará um Israel que o adora. Seus inimigos devem saber que, apesar de tudo, são impotentes.
Não exterminarão o seu nome, assim como tampouco o enviarão para sempre à morte. Mesmo que
agora se torne invisível, o alvo do governo divino é que também de Israel estará reunida uma
comunidade junto dele, que o honra como seu Senhor (Rm 9–11)” (Schlatter, p. 349s).
Chegou ao fim o sério cap. 23. Passaram as ameaças de juízo de Jesus contra os líderes de Israel.
Os sete ais sobre os fariseus anunciam assustadoramente, como sete soturnos trovões, a tempestade
próxima do juízo. A separação é definitiva.
Soa terrível a última frase: “Jesus saiu do templo e se retirou” (Mt 24.1).
“Impõe-se a pergunta: Como era possível que se formasse essa oposição? Afinal, no início o
farisaísmo queria o bem. No tempo do exílio babilônico pessoas sinceras se haviam reunido com a
vontade e decisão de levar a sério a lei do Senhor após o retorno para Jerusalém, evitando qualquer
mistura com o mundo pagão e a forma de pensar dos pagãos, e separando-se de tudo o que não fosse
condizente com a vontade de Deus. Por isso eram chamados “os separados”, os perushim, os fariseus.
No entanto, a evolução posterior tornou-se um desenvolvimento falho, em duas direções.
“Por um lado absolutizaram a letra da lei e caíram num legalismo de mera obediência formal da
lei, negligenciando uma ética verdadeira de disposição interior e atitude do coração.
“Por outro, tornavam-se presunçosos por causa dessa sua fidelidade à lei, de modo que não
buscavam mais a Deus, mas a si próprios. A prática exterior da religiosidade e a busca espiritual
egoísta em lugar de buscar a Deus transformou nos fariseus a verdadeira religiosidade no seu
contrário, num faz-de-conta, e conseqüentemente em hipocrisia. A palavra de Deus na lei veio a ser,
por meio deles, uma caricatura. Deformou-se a magnitude e santidade da lei de Deus. Com isso não
se glorifica, mas se desonra a Deus. Deus foi substituído pelo ser humano egoísta. Religiosidade, que
deveria ser serviço a Deus, foi rebaixada para servir às pessoas. Isso significa deterioração dos
valores, destruição da ordem determinada por Deus. E tudo isso acontece sob a máscara da santidade
e da alegação de que Deus o está apoiando. Daí a agudeza implacável e o desmascaramento
impiedoso nas palavras de Jesus. Fingimento é a grande tentação dos que vivem profissionalmente na
religião. É esse o perigo inerente ao falar da santidade, mas de não vivê-la. Constitui aparência
religiosa, e desse modo falsificação da palavra e da natureza de Deus. O Filho de Deus, que é o
reflexo e o clarear da essência divina em figura humana – imago dei invisibilis (Cl 1.15) – precisa
falar e lutar com a maior radicalidade imaginável contra isso. Ele veio para glorificar a Deus, e por
isso precisa desmascarar impiedosamente a todos que tiram a honra de Deus e procuram a sua
própria glorificação. Nas sete exclamações de ais não apenas repercute a revolta de uma consciência
honesta e de uma santa indignação, que revela a farsa da aparência e arranca a máscara do rosto da
mentira, mas vibra nelas o zelo para honrar o Pai. Arde em Jesus o amor a Deus e a vontade de fazer
reluzir a honra de Deus. Dizendo não ao disfarce, derrubando poderosamente templos e imagens de
ídolos falsos, ele nos permite sentir que sua decisão é levantar o santuário de Deus e dar ao Senhor a
glória que lhe compete” (cf. Gutzwiller, p. 282s).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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