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93 A proclamação da sua morte por Jesus na Ceia da Páscoa, Mc 14.22-26

A proclamação da sua morte por Jesus na Ceia da Páscoa, Mc 14.22-26
(Mt 26.26-29; Lc 22.15-20; 1Co 11.23-26; cf. 10.16,17)

22-26 E, enquanto comiam, tomou Jesus um pão e, abençoando-o, o partiu e lhes deu, dizendo: Tomai, isto é o meu corpo. A seguir, tomou Jesus um cálice e, tendo dado graças, o deu aos seus discípulos; e todos beberam dele. Então, lhes disse: Isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo que jamais beberei do fruto da videira, até àquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus. Tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras.

Em relação à tradução
a
artos (pão) pode ser usado sem problemas também para pão sem fermento (azyma) (Jeremias,
Abendmahl, p 56ss).
b
eulogein, no grego, comumente significa elogiar, falar bem de alguém; aqui, porém, está no lugar de
um verbo semítico intransitivo que tem o sentido de “dar graças à mesa”. No versículo seguinte há outro
verbo eqüivalente (eucharistein). Sobre os dois termos, cf. 6.41n e 8.6.
c
“isto” (touto) em grego é neutro, “pão”, porém, é masculino. Será que Jesus, com “meu corpo”, nem
estava pensando no pão e muito menos em algum objeto, mas  – como muitos gostam de interpretar – em
todo o processo? Será que, então, o ato de Jesus de tomar, agradecer, partir, distribuir, falar e comer
significou seu “corpo”? Sem mencionar o fato de que isto não faz muito sentido, estas atividades teriam de
ser indicadas com um plural (tauta, como 11.28,29,33; 13.4,29,30). “Isto ali” (tradução com WB 1122) está
aqui no contexto de uma lição objetiva, e Jesus tem o pão erguido em vista, como figura ou sinal. “Sinal”,
em grego, é neutro.
d
Nas fórmulas litúrgicas, é uma maneira indireta de falar do vinho (Jeremias, Abendmahl, p 176). Isto
assegura o uso de vinho na Ceia.
e
hymnein, cantar, pode se referir também ao  Hallel (Bill. IV, 76).
Observações preliminares
1. Contexto. Depois que Jesus tinha predito e, com isso, liberado sua entrega nos v. 17-21 (cf. Jo 13.27), a
noite da Páscoa praticamente se tornou a “noite da entrega” (1Co 11.23). Deus tinha atingido seu objetivo,
contra a vontade dos principais sacerdotes, que tinham dito: “Não durante a festa!” (14.2). Jesus não queria
desaparecer de cena antes da hora, sem mais  nem menos, mas ser sacrificado significativamente durante a
festa, como o verdadeiro cordeiro pascal, para que a criação fosse poupada. Ele não deveria morrer sem que o
povo o percebesse, mas de uma maneira que judeus, romanos e o mundo inteiro ficassem sabendo. Depois que
esta data, preparada por Marcos em muitos versículos com muitos detalhes, finalmente foi atingida, segue
como meta e ponto culminante a “dedicação sacrificial de Jesus” (Gese, p 125). Jesus anuncia a sua morte (e
ressurreição) como mudança das épocas e chegada do reinado de Deus, da qual eles haveriam de participar.
Ele o faz. O anúncio poderoso e objetivo da sua morte remonta aos seus lábios. “Eu o recebi do Senhor”,
testifica Paulo em 1Co 11.23. O Senhor não somente suportou a cruz, mas  fez com que ela pudesse falar, ser
falada, crida e experimentada. Neste ponto não estamos entregues à nossa própria sabedoria ou estupidez. Ele
mesmo nos esclareceu o sentido da sua morte nesta noite, de modo que agora se pode dizer (1Co 11.26):
“Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor”, e isto cheios de
júbilo, adoração, espírito e esperança.
2. Relação com a Páscoa. A data da Páscoa parece ser de extrema importância para os sofrimentos de
Jesus, de acordo com Marcos. O termo como que está reservado para este propósito. Em nenhuma outra
ocasião ele menciona a “Páscoa”, apesar de vários eventos terem relação com esta festa (Jeremias, ThWNT V,
897); em conexão com a última Ceia de Jesus, porém, ele usa o termo quatro vezes (14.12,14,16). De acordo
com Mt 26.18 (cf. v. 2), Jesus identificou a Páscoa como “o meu tempo (de morrer)”. Na igreja antiga,
“Páscoa” foi ligado ao termo para “sofrimento”, de som semelhante (pasxa – pasxein; Jeremias, ThWNT V,
902). Os pesquisadores, por sua vez, perceberam que o trecho dos v. 17-26 “não contém nenhuma referência a
uma ceia pascal” (Kümmel, Theologie, p 82). Não somente falta o termo “Páscoa”, mas também os elementos
indispensáveis à festa, como pão sem fermento, cordeiro, e ervas amargas. Será que a última refeição histórica
de Jesus não tinha nada a ver com a Páscoa, antes foi inserida mais tarde neste contexto, depois de reflexão
profunda? (Grundmann, Wikenhauser, Schweizer, Bultmann e outros). Esta dedução com certeza é
precipitada. Os v. 22-26 também não falam dos “doze” ou dos “discípulos”, mas só de “lhes, aos, vos”.
Mesmo assim ninguém conclui disto que os participantes fossem outros que os discípulos antes mencionados.
Respeita-se o contexto. Acima de tudo pesa aqui uma série considerável de detalhes secundários relatados
como que ao acaso que, no conjunto, reforçam a impressão de que Jesus estava realmente festejando a Páscoa.
O que segue está baseado em Jeremias, Abendmahl, p 35-82; cf. Behm, ThWNT III, 733; Klappert, TBLNT
672ss; Patsch, EWNT IV, 341. De acordo com o v. 17, a Ceia começou “ao cair da tarde” e se estendeu até o
meio da noite, segundo o v. 30. Somente a Páscoa é uma refeição noturna. Outros banquetes aconteciam no
começo da tarde, como a refeição principal dos judeus. Em segundo lugar, conforme o v.  18, os convivas
estavam deitados em volta da mesa, o que era obrigatório no caso do jantar de Páscoa. Em terceiro lugar, o
pão foi partido no v. 22 somente depois de servida a refeição com o molho no v. 20. A Páscoa era a única
refeição judaica que não começava com o partir do pão. Em quarto lugar, o cálice levantado nos v. 23s lembra
um dos quatro cálices prescritos para a festa da Páscoa. Nisto, a referência a sangue pressupõe o vinho tinto,
raramente mencionado, mas que era exigido para a Páscoa. Em quinto lugar, o  fato de haver uma explanação
nos v. 22,24 combina com o costume da Páscoa conforme Êx 12.36s; 13.8. Em sexto lugar, o v. 26 fala do
cântico de encerramento, pressupondo-se que o conteúdo era conhecido. Isto se aplica exatamente ao  Hallel da
Páscoa (cf. opr 2d aos v. 17-21). Em sétimo lugar, nesta noite Jesus pernoitou diferente do seu costume com
seus discípulos no monte das Oliveiras, que fazia parte da área urbana. Isto correspondeu à prescrição para a
noite da Páscoa. Jeremias resume na p 73 o exame de t odas as objeções: “Podemos ver que o relato da Paixão
não menciona um procedimento que não possa ter transcorrido no dia 15 de Nisã (a Páscoa)” (da mesma
forma Pesch II, p 362).
3. Retrocesso da relação com a Páscoa. Por outro lado, não se pode negar que a relação com a Páscoa,
especialmente nas frases centrais dos v. 22-26; é extremamente rala. Paralela a uma conexão com a Páscoa,
pode-se reconhecer também uma separação da festa judaica. O interesse volta -se para um outro “cordeiro”,
uma nova aliança, uma outra esperança. Por isso Jesus também não seguiu rigidamente a ordem da festa. Ele
já a interrompeu com sua declaração que começou com “em verdade” no v.  18, e colocou suas explanações
nos v. 22,24 em lugares incomuns. P ex, ele fez todos beber do mesmo cálice (14.23; Lc 22.17). Uma das
mudanças também está no hábito, como se pode ver logo depois da Páscoa: a desvinculação da época do ano e
a celebração diária ou dominical, em seu lugar (At 2.46; 20.7). Assim, pode-se aplicar 2.27 a este caso: Jesus é
senhor também da Páscoa. Ele não estava sujeito à Páscoa, antes, a festa existia para ele. Por isso não devemos
entender errado a diminuição dos traços judaicos, como se Jesus.  p ex, não tivesse comido o cordeiro da
Páscoa (Bornhäuser, p 62; Stauffer, Jesus, p 89). O relato é marcado pela novidade, pelo centro em Cristo e
seu uso no culto dos primeiros cristãos.
4. Lição objetiva. Desde o começo Jesus celebrava refeições junto com seus discípulos, como expressão da
comunhão de vida e salvação (cf. 1.31). Depois da declaração de Pedro em 8.29, estas foram adquirindo cada
vez mais sentido messiânico. Da última refeição na quinta-feira a tradição relata quase exclusivamente as duas
declarações explicativas como sendo especiais, uma ligada à oração costumeira para início da refeição
principal, a outra ligada à oração final (especialmente visível em 1Co 11.25; Lc 22.20). A refeição entre as
duas não é mencionada, porém mesmo assim iluminada por esta moldura. Pois se pão e vinho são
interpretados como os elementos sólidos e líquidos de uma refeição, toda ela está incluída, no nosso caso o
jantar da Páscoa. Deste modo, o procedimento pode ser enquadrado na série de “lições objetivas proféticas”
(Popkes, Abendmahl, p 51; cf. opr 2 a 6.6b-13). Essencial em um evento assim  é sempre a explanação.
Ilustrações causam um impacto bem maior sobre os espectadores do que meras palavras, porém têm a
desvantagem de se prestarem a várias interpretações, a critério de cada um. A explanação assegura a
compreensão correta. (Sobre o transcurso da Páscoa judaica, cf. opr 2 a 14.17-21.)
5. Termos divergentes. Não havia uma autoridade central que zelava por regras uniformes de transmissão e
impedisse que versões diferentes circulassem. A tradição de Jesus desde o começo andou em várias direções
(Lc 1.1-4). Ao mesmo tempo detalhes comuns importantes mostram que não predominava uma criatividade
sem limites.
6. Conflitos por causa da Ceia. A divisão dos cristãos especialmente por causa da Ceia incomoda e abala a
muitos. Mesmo assim não se pode pôr o conflito de lado sem mais nem menos, sem considerar que há razões
para ele. É só conscientizar-se de como aquilo “que recebemos do Senhor” tem sido soterrado por termos
como: sacramento, administração ou distribuição do sacramento do altar, meios da graça, comunhão, missa,
eucaristia, consagração, transsubstanciação, consubstanciação, presença real, ubiqüidade,  verbum visibile, ex
opero operato, e lementos, sinais, sinais eficazes, sacrifício sem sangue, manjar do sacrifício, hóstia. Tudo isto
tem mesmo de ser? Em todo caso, desta perspectiva nosso texto parece um mundo diferente.
22  E, enquanto comiam, portanto, festejavam animadamente. Comer era sinal de alegria; quem estava
de luto jejuava. Tomou Jesus, no início da refeição, um pão e, abençoando-o, o partiu e lhes deu.
Rapidamente a descrição passa por estes processos bem conhecidos. No partir do pão ainda não se
deve ver uma indicação da morte de Jesus. Trata-se somente do ato da distribuição. Só depois segue
algo diferente. Jesus rompe o silêncio de praxe durante a distribuição (Pesch, p 373), dizendo:
Tomai, isto é o meu corpo.
Na parte devocional prescrita para a festa, os judeus aplicavam o pão sem fermento à miséria de
Israel no Egito. O que Jesus fez dele?
Em sua língua materna a pequena frase não tem verbo. Era simplesmente: “Isto – meu corpo”.
Podemos completar com “significa”, sem problemas. O “é”, neste contexto, também não deve ser
mal entendido. De forma alguma ele funciona como sinal de igual na matemática. Jesus não se tinha
transformado neste pão nem o pão nele, já que ele continuava pessoalmente presente entre seus
discípulos. Os orientais compreendem lições objetivas e linguagem figurada. Quando Jesus abraçou
uma criança e disse: “Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me
recebe” (9.37), naturalmente a criança não se transformara em Jesus. “Isto é” tem seu lugar próprio
na interpretação das parábolas (p ex 4.15,16,18,20; Ez 5.5).
O que Jesus disse, sem figuras? Conforme uma opinião (p ex Behm, ThWNT III, 735), com “meu
corpo” Jesus não estava falando do seu corpo físico mas, no estilo semita, da sua pessoa, de si
mesmo. É como se dissesse: Isto sou eu mesmo. Eu posso ser comparado com o pão, a vida de vocês.
Por meio desta Ceia eu me volto para vocês como pessoa e lhes concedo comunhão.  – Contudo,
devemos ter em mente os pensamentos que uniam as pessoas daquela época em  cada refeição
conjunta. Uma  vez que o dono da casa tivesse um daqueles pães em forma de panqueca e agradecido
por ele diante de todos, que os convivas se tivessem unido à frase de louvor com “amém”, e cada um
tivesse recebido um pedaço e ingerido, a comunhão estaria colocada sob a bênção de Deus. Isto os
discípulos conheciam desde a sua infâncic (Jeremias, Abendmahl, p 224). Para isto o dono da casa
não precisava afirmar que o pão era seu corpo.
Portanto, a explanação deve conter um sentido que ultrapassa a concessão geral de comunhão. Ele
se revela se deixamos a última Ceia de Jesus no quadro em que todos os três relatos o colocam, o
quadro da refeição de sacrifício. Tanto “corpo” em nosso versículo como “sangue” no v. 24
procedem da linguagem sacrificial. Hb 13.11 deve ser considerado prova desta maneira de falar,
apesar das objeções (p ex Lohse, Märtyrer, p 125): “Pois aqueles animais cujo sangue é trazido para
dentro do Santo dos Santos, pelo sumo sacerdote, como oblação pelo pecado, têm o corpo queimado
fora do acampamento”. Jeremias, na 3ª edição do seu livro de 1959 sobre a Ceia (Abendmahl, p 213,
nota 8), acrescentou exemplos extrabíblicos. Em certos tipos de sacrifício, p ex na oferta de gratidão
que era tão importante (hebr. toda, “confissão de louvor”), só partes do corpo do  animal eram
queimados. Outras partes eram comidas pelos convivas na refeição que era o ponto culminante do
sacrifício (Lv 7). No banquete da toda, a pessoa festejava o reinício da sua existência, na comunhão
de pessoas convidadas do seu grupo de convivência. Depois de escapar de um perigo mortal ou
também depois de desvencilhar-se do pecado, celebrava o fato de a aliança misericordiosa de Deus
ter-se tornado visível (cf. Gese, p 117-226). Portanto, quando Jesus distribuiu o pão aqui como seu
“corpo”, ele pressupunha a eliminação da sua vida terrena, física, e isto claramente no sentido de
sacrifício pelos que festejavam. Hb 10.10 também fala da “oferta do corpo de Jesus Cristo” em
sacrifício. Da mesma forma, “corpo” em Lc 22.19 está no contexto de sacrifício : “meu corpo,
oferecido por vós” (cf. 1Co 11.24; Ef 2.16). Nestas últimas passagens também se aproximam
declarações sobre o pão e o cálice, em termos de comparação. Com ambas o Senhor proclama sua
morte como cordeiro sacrificial. A pergunta sobre a diferença ainda teremos de fazer. Em todos os
casos, este testemunho de si mesmo desencadeou na história um impacto amplo entre os primeiros
cristãos (1Co 5.7; Jo 19.36; 1Pe 1.19; Hb e Ap).
Vários intérpretes se interessaram em saber se Jesus comeu e bebeu esta última refeição com os
demais. Nenhum texto fala sobre isto, mas é possível deduzi-lo. Jesus disse aos seus discípulos:
Peguem, comam, bebam! Portanto – conclui-se – ele mesmo se absteve. “E todos beberam dele”,
então, quer dizer: todos, menos ele. Lc 22.15 é interpretado como se Jesus gostaria de comer com
eles, mas se absteve, contra a expectativa evidente dos discípulos, também segundo 14.12. “Jamais
beberei” e “beber de novo” no v. 25 ele teria dito antes da refeição. O exegeta católico Wikenhauser
(p 260) menciona uma razão dogmática para o interesse nesta posição: Jesus não ingeriu pão e vinho,
“pois os transformara em seu corpo e seu sangue”. Outros pesquisadores (Jeremias, Grob, Goppelt,
Pesch, Gnilka) não deixam entrever nenhum motivo, o que não exclui este. Seja como for, os textos
não dizem que Jesus jejuou. Eles não relatam que Jesus se separou da comunhão com seus discípulos
no último banquete, deixando de comer; isto teria destruído o sentido da sua ação simbólica. Ele não
queria lhes dar pão transformado, mas um pão com outro significado, representando profeticamente
sua morte expiatória e sua ressurreição.
23  Lc 22.20 e 1Co 11.25 situaram o que segue “depois de haver ceado”. Trata-se do terceiro e mais
solene dos cálices da Páscoa judaica, que encerrava a refeição principal junto com a oração final.  A
seguir, tomou Jesus um cálice e, tendo dado graças, o deu aos seus discípulos; e todos beberam
dele. O tempo imperfeito, “bebiam”, retrata como o cálice deu a volta de mão em mão. Ninguém é
omitido. O “todos” continua inexorável nos v. 27,29,31,50. Aqui eles são incluídos como pessoas
que serão assim.
24  Enquanto o cálice circulava ouviu-se mais uma palavra de explanação: Então, lhes disse: Isto é o
meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos.  Este “é” não quer dizer
que o vinho tinto seja agora o sangue de Cristo, misteriosa mas essencialmente (cf. v. 22). Se assim
fosse, os discípulos teriam rejeitado o cálice, horrorizados. Beber sangue era indizivelmente
horripilante para os judeus.
A vinculação do cálice que circulava com o sangue de Jesus anunciava o mesmo sacrifício como o
pão que fora distribuído vinculado ao corpo de Jesus. Desta vez, porém, Jesus não se limitou à
afirmação simples, mas acrescenta uma  frase cujo centro é a palavra “aliança”. Uma  aliança de Deus
com pessoas sempre é baseada em sua misericórdia, pois nós seres humanos só temos comunhão com
Deus quando ele o deseja. Ele a quer, às suas custas e expensas. Deixar Deus fazer sua vontade,
aquietar-se totalmente diante da promessa de Deus – isto a Bíblia chama de “crer”. Assim Abraão
creu em Deus e agradou a Deus (Gn 15.6; Rm 4.3; Gl 3.6; Tg 2.23). Israel muitas vezes não creu em
Deus, e de forma alguma na presença do seu Messias. Queriam ser e ficar, ter e poder algo em si
mesmos (Rm 10.3). Cancelaram esta aliança. A isto Deus não respondeu com seu cancelamento, mas
com a promessa da “nova aliança” em Jr 31.33,34. O adjetivo “novo” aqui não quer dizer que o
antigo haveria de começar novamente, mas que Deus se decidira por uma iniciativa criativa
incomparavelmente diferente, que causaria uma transformação de Israel até os recônditos do seu
coração. Na promessa de Jeremias, um Deus ansioso quase se atropela: Eu quero, eu quero, eu quero!
Esta passagem solitária no AT sobre a “nova aliança” foi retomada por Jesus em vista da sua morte
iminente e ampliada à potência milionésima, difundindo -se por todas as línguas do mundo nas
palavras da instituição da Ceia. A expressão completa “nova aliança” está e m 1Co 11.25. Esta
interferência totalmente própria e ansiosa de Deus em favor do seu povo perdido é a morte sacrificial
e a ressurreição de Jesus. Ela se torna, como será dito em seguida, o centro da salvação também do
mundo dos povos e da criação transtornada (Ap 21.1–22.5).
O sangue derramado, aqui, não é uma referência a um assassinato sem qualquer significado de
sacrifício sagrado. O eco literal de Êx 24.8, quando Moisés colocou a aliança do Sinai em vigor no
contexto do culto por meio de uma cerimônia de sangue, mostra claramente o sentido. A morte de
Jesus servirá para pagar os pecados e terá alcance universal, ampliando misteriosamente o número
dos beneficiados: em favor de muitos. A expressão de Is 53 – e sem este capítulo grandioso as
palavras da Ceia não podem ser explicadas – foi estudada detalhadamente em 10.45. A aplicação
universal dos cânticos do Servo (Is 42.1,4,6; 45.6,22s; 49.6s,26; 51.4,5; 52.10) reforça o pensamento
em favor dos últimos, mais distantes, esquecidos e até agora não mencionad os (diferente de Pesch II,
p 360). “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19). A Sexta-feira da Paixão
abriu a todos a porta para o banquete de Deus. De modo análogo, Is 53 também está cheio da
admiração dos salvos. Eles sabem que est ão dentro do alcance de um milagre extremo.
Em retrospectiva, podemos comparar as duas palavras de explanação. Será que elas somente estão
duplicando o mesmo pensamento? Temos uma ação simbólica dupla diante de nós, ou as ênfases são
diferentes? P ex, chama a atenção que o vinho, diferente de pão, não é mencionado diretamente, pois
sempre se fala do cálice. Mas isto talvez só espelhe que o pão era passado sem recipiente, o que não é
possível com o vinho. Portanto, não se pode concluir nada do fato de beber -se do cálice em vez do
vinho (cf. também 10.38s). Outra coisa, porém, merece ser destacada. Com o cálice erguido, diante
das pessoas reunidas, atentas, a boca se abre para o discurso solene. Um exemplo temos exatamente
no Sl 116.13,14, com referência à toda: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor
[…] na presença de todo o seu povo”. É significativo que a palavra de Jesus sobre o cálice também é
rica em conteúdo de proclamação. Por isto ela não é menos importante que a palavra sobre o pão , e
esta não é aplicada menos ao sacrifício de Jesus do que a palavra do cálice, antes, a segunda palavra
serve de explanação durante a refeição. O palavra do pão fornece a interpretação básica, a palavra do
cálice edifica sobre ela e está direcionada para o evento da proclamação. A palavra do pão
proporciona profundidade, a palavra do cálice amplitude.
25  Como quase sempre, Jesus vincula o anúncio da morte à profecia da ressurreição. Uma declaração
que começa com “em verdade” (cf. 3.28n) enfatiza a segurança dada por Deus: Em verdade vos
digo que jamais beberei do fruto da videira. Ele está lembrando da série de banquetes que tivera
com seus discípulos desde os tempos na Galiléia. Agora terá de haver uma interrupção. Com firmeza
ele prediz sua morte. Esta participação de falecimento, porém, não tem margens pretas de luto, antes,
está entrelaçada com uma palavra de triunfo: até àquele dia em que o hei de beber, novo, no reino
de Deus (Mt completa: “convosco”). Por um período intermediário eles terão  de festejar sua presença
invisível, mas serão preservados para a salvação. A ênfase está na reunião festiva com ele, não na
duração ou dificuldade do tempo de espera. O crucificado será, vivo, o centro do banquete que Deus
vai oferecer (Is 25.6; 65.13; Ap 2.7), e o sem-número de Ceias desembocará na “ceia das bodas do
Cordeiro” (Ap 19.9).
26  Tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras. Com canto e contracanto, entoaram
os Sl 115–118. O Hallel completo consistia nas orações de gratidão dos Sl 113–118, sendo que os
judeus respondiam com um “aleluia” a cada meio verso, num total de 123 vezes. Isto não é ambiente
de enterro, ainda mais que Jesus acabara de falar do início do reinado de Deus. O poder da vitória
pairava sobre o grupo que partia; mas será que estava também em seus corações? De acordo com as
regras, eles não podiam deixar o perímetro urbano durante a noite da Páscoa. A encosta ocidental do
monte das Oliveiras, porém, estava incluída nele (Bill. II, 833s). Para lá eles seguiram.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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