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94 Anúncio da desagregação e renovação do grupo dos doze, Mc 14.27-31

Anúncio da desagregação e renovação do grupo dos doze, Mc 14.27-31
(Mt 26.30-35; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38; cf. 16.32)

27-31 Então, lhes disse Jesus: Todos vós vos escandalizareis, porque está escrito: Ferirei pastor, e as ovelhas ficarão dispersas. Mas, depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galiléia. Disse-lhe Pedro: Ainda que todos se escandalizem, eu, jamais! Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes.
Mas ele insistia com mais veemência: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. Assim disseram todos.

Em relação à tradução
a
Sobre a forma ativa, cf. 9.42n. A voz passiva pode indicar que a pessoa ficou chocada por algum
tempo, ou tropeçou ocasionalmente, mas no presente contexto significa mais.
b
Jeremias, ThWNT VI, 492, traduz por “matar” (cf. BLH, BV). Quando se refere à espada (como em Zc
13.7), patassein indica o ferimento mortal.
c
Kremer, EWNT I, 906, exige que se entenda a voz passiva de egeirein como voz média (portanto, não
“depois da minha ressurreição”, como está aqui). Segundo ele, o termo indica “não (pelo menos não em
primeira linha) a ação causada ao crucificado, mas a nova manifestação de vida do crucificado possibilitada
(!) por ela”. No entanto, de forma alguma pode-se pensar em uma ressurreição própria por Jesus. A
ressurreição de Jesus em nosso livro é descrita como egeirein ainda em 16.6,14, em contraste com o
anastenai mais antigo de 8.31; 9.10,30; 10.34 (cf. Jeremias, Theologie, p 264).
d
A BJ traduz por “preceder”, que transmite a idéia de tempo melhor do que “irei na frente”. Para a
diferença, compare 6.45 (tempo) com 10.32; 11.9 (espaço). Jesus não queria estar visivelmente à frente do
cortejo de Jerusalém para a Galiléia, mas estar lá antes deles, para aparecer-lhes só ali (16.7). Para a
liderança literal de um pastor há um outro termo em  Jo 10.4.
e
Há comprovação da criação de galinhas na Jerusalém daquela época (Bill. I, 922s; Jeremias, Jerusalem,
p 53s; cf. Mt 23.37). O cantar do galo era usado já na Antigüidade para marcar o tempo, também porque as
aves muitas vezes dormiam no mesmo cômodo com as pessoas. De acordo com Lane, p 543), observações
de vários anos em Jerusalém mostraram que os galos cantam ali com bastante regularidade. A primeira vez
meia hora após a meia-noite, a segunda vez uma hora mais tarde e novamente uma hora depois, sempre por
três a cinco minutos, após o que há silêncio. Por esta razão também todo o quarto da noite das 0 às 3 horas
tinha o nome de “cantar do galo” (13.35) (como em Grundmann, p 396; Pesch II, p 445; Betz, ThWNT IX,
296). Outros transferem o cantar do galo para mais ou menos 3 horas (Bill. I, 993; Blinzler, p 416; Inmitzer,
p 113). Isto, porém, deixa sem explicação a contagem  exata das vezes que o galo canta.
f
Cf 8.34n.
Observação preliminar
Contexto. Este parágrafo, conhecido como “anúncio da negação de Pedro”, abrange da primeira à última
frase a totalidade do grupo dos doze. É verdade que “doze” aparece somente nos  v. 17,20, mas desde o v. 12 o
assunto não deixa de ser a relação de Jesus com este grupo. Pedro só aparece às vezes como porta -voz. A falta
de entendimento dos discípulos alcança seu ponto culminante nesta última desavença expressa com Jesus.
Depois disto só pode vir o fracasso prático dos discípulos e a solidão rápida de Jesus. O leitor recebe uma aula
ilustrada sobre a nova aliança do v.  24. É uma aliança baseada unicamente na graça.
27  Então, lhes disse Jesus: Todos vós vos escandalizareis. Jesus prevê mais do que fuga exterior,
mais do que falta de coragem. Eles perderão a fé nele. Ainda há pouco, durante o grande Hallel (v.
26), o grupo cantava alegre: “A destra do Senhor se eleva, a destra do Senhor faz proezas.  Não
morrerei; antes, viverei… (Sl 118.16s). Mas a conclusão que tiraram disto para o Messias Jesus, o
“pensamento humano” deles (8.38), receberia um golpe mortal. Segundo o entendimento que Jesus
tinha da Escritura, eles precisavam quebrar.
Segue a única citação expressa de Marcos na história da Paixão, que só por isso já merece receber
atenção, até porque Zc 13.7 nunca foi usado neste sentido no judaísmo ou entre os primeiros cristãos
(Berger, Auferstehung, p 364): Porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas ficarão
dispersas. Junto com médico (2.17), construtor (14.58) e dono da casa (3.34), pastor é uma das
profissões que simbolizam o Messias (cf. 6.34). Todavia, o próprio Deus entregará este pastor à
morte. Com isto as ovelhas perdem o ponto central que as une como rebanho. Elas se dispersam em
todas as direções. A passagem chega perto do que é incompreensível em Is 53.6. Lá, aliás, fica claro
que isto acontece para o bem das ovelhas. Aqui o aspecto da culpa delas é omitido. Os discípulos
parecem brinquedos à mercê de acontecimentos terríveis, poderosos demais. Suas tentativas de
permanecer-com-ele têm de fracassar miseravelmente.
28  Mesmo assim, a passagem de Zacarias também abrigava a idéia da salvação. O próprio Deus é
quem age na morte do pastor. No fim das cont as, também nisto o bem acontece. “Aquele que
espalhou a Israel o congregará e o guardará, como o pastor, ao seu rebanho” (Jr 31.10; cf. Zc 13.9).
Jesus o diz assim: Mas, depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galiléia. O lugar
do começo deles (3.14) haveria de ser também o lugar do novo começo deles (16.7). Deste modo eles
sofrem na desintegração da sua relação antiga com Jesus uma dor que aponta para ressurreição e
vida.
29  Poderia surpreender-nos que Pedro não reagiu à palavra sobre a ressurreição que acabara de ouvir.
Mas isto só repete processos como em 8.32; 9.33; 10.35. O bloqueio se formava nos discípulos no
início da profecia, na parte do julgamento, de modo que a parte da promessa sempre ficava sem
sentido para eles. Disse-lhe Pedro: Ainda que todos se escandalizem, eu, jamais!  Pelo menos no
que tange a sua própria pessoa ele levanta uma profecia contrária. Sob todas as circunstâncias, como
último e único, ele ficará com Jesus. Com isto, porém, ele não só se separa das pala vras do seu
Senhor, mas também já dos seus irmãos. A derrocada do grupo dos doze se anuncia: “Cada um se
desviava pelo caminho” (Is 53.6; Jo 16.32).
30  Esta atitude de Pedro tende inexoravelmente para o abandono. Nesta altura Jesus o apanha: Em
verdade te digo, na posição em que te colocas. Em seguida ele se torna cada vez mais concreto:
Hoje, que pode abranger um dia ainda longo, nesta noite, cuja metade já tinha passado, antes que
duas vezes cante o galo, o que deixava somente duas a três horas de margem. Tu me negarás três
vezes, ou seja, de maneira completa e indiscutível.
31  Pelo simples fato de que o discípulo ficou com a última palavra, o Senhor ficou com a razão.
Separado do seu Senhor, Pedro foi levado pelas palavras. Mas ele insistia com mais veemência:
Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. É claro que seu
“ainda que” era muito teórico: Pedro considerava o anúncio da morte de Jesus um absurdo (8.32;
contra Jeremias, ThWNT V, 711, nota 472). Era mais possível que algo fracassasse com seu Senhor
do que com ele. E não é que estamos diante de um fanfarrão que se gaba em altos brados, pois segue
uma generalização expressa: Assim disseram todos. Cada um deles se retirou para a própria
fidelidade e entrou sozinho na Paixão, à qual não resistiram.
Naturalmente há dedicação, lealdade e obediência na igreja de Jesus. Mas se quisermos realmente
perseverar em seguir a Cristo, necessitamos acima de tudo a percepção do que não é possível fazer
seguindo a Cristo, daquilo que ele notoriamente faz por nós, sem que possamos imitá-lo ou
acompanhá-lo. Não devemos dissimular de alguma forma o anúncio da sua morte sacrificial, que foi
feito nos v. 22-24 e novamente aqui no v. 27. Ele é o coração vivo da igreja de Jesus.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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