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95 A tentação de Jesus no Getsêmani, Mc 14.32-42

A tentação de Jesus no Getsêmani, Mc 14.32-42
(Mt 26.36-46; Lc 22.39-46; cf. Jo 12.27; 14.31; 18.1)

32-42 Então, foram a um lugar chamado Getsêmani; ali chegados, disse Jesus a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou orar. E, levando consigo a Pedro, Tiago e João, começou a sentir-se tomado de pavor e de angústiaE lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai. E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra; e orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora. E dizia: Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres. Voltando, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Simão, tu dormes? Não pudeste vigiar nem uma horaVigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Retirando-se de novo, orou repetindo as mesmas palavras. Voltando, achou-os outra vez dormindo, porque os seus olhos estavam pesados; e não sabiam o que lhe responder. E veio pela terceira vez e disse-lhes: Ainda dormis e repousais! Basta! Chegou a hora; o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima.

Em relação à tradução
a
O “jardim”, de acordo com Jo 18.1, ficava no pé da vertente ocidental do monte das Oliveiras (opr 3 a
11.1-11), que ainda fazia parte da área da cidade, de  modo que quem ali pernoitasse não transgredia a regra
de que a noite da Páscoa tinha de ser passada em Jerusalém. O nome significa “prensa de azeite”, por isso
pode-se pressupor instalações para transformação de azeitonas. De acordo com o v.  51, poderia haver gente
morando no terreno.
b
ekthambeisthai reforça thambesthai de 1.27; 10.24,32. Esta forma forte está no NT só em Marcos
(ainda em 9.15; 16.5,6).
c
ademonein é interpretado e derivado de várias maneiras. O sentido básico provavelmente é: não se
sentir em casa, tranqüilo, seguro, por isso, estar inquieto, assustado. Fora da história do Getsêmani, somente
ainda em Fp 2.26.
d
A expressão perilypos psyche aparece na LXX no conhecido estribilho do Sl 42.5,11; 43.5.
e
Termo infantil para “papai”, análogo a imma para “mamãe”. Assim era costume falar no círculo íntimo
da família, desde a tenra infância até a idade adulta.
f
Não há nada de especial em “Simão” em vez de “Pedro” pois, segundo os evangelhos, Jesus sempre
chamou este discípulo por este nome (exceção Lc 22.34)..
g
Esta ênfase em “uma hora” dificilmente se refere a uma hora exata, mas a um tempo curto em termos
gerais (cf. Ap 17.12; 18.10,17,19).
h
protymos transmite a idéia do ânimo alegre. A palavra não é comum no  NT (fora desta história só ainda
em Rm 1.15), e pode haver uma relação com o Sl 51.14.
i
Que Jesus lhes deseja que continuem tendo um bom sono não convence (Schmithals, p 640). Mais
próxima está a comparação com o v. 37. Jesus faz uma pergunta com censura, mas se interrompe.
j
Esta palavrinha, que no grego também é um termo só e falta nos textos paralelos, causa muitas
dificuldades. Um sem-número de sugestões têm sido apresentadas. A maioria dos tradutores abandona o
texto grego e segue o latim sufficit da Vulgata: “Basta” (dito com ironia aos que estavam dormindo). Isto não
tem nada a ver com o sentido da palavra  apechein: a) ter, receber, dar recibo; b) deter, impedir; c) estar
longe. Dentro destas possibilidades, o interesse maior se volta para a alternativa a. Contudo, quem recebeu
algo aqui? Judas seu pagamento ou o Senhor para ser entregue? Deus as orações de Jesus? Tudo isto soa
desajeitado, de modo que se recomenda o sentido impessoal (neutro em vez de masculino). Então, o seguinte
ficou claro: Jesus, motivado pela aproximação do grupo de soldados que vinha com Judas para prendê -lo,
constata com uma palavra breve a mudança de situação (veja o comentário; com Gnilka e Schmithals).
Observações preliminares
1. Formação do testemunho. Um acontecimento quase incrível foi mesmo assim colocado em uma forma
bem elaborada. O número três orienta sua montagem. Em uma introdução em três partes Jesus se solta
progressivamente do seu ambiente, até ficar totalmente sozinho. Três vezes ele ora, e o conteúdo da sua oração
tem três partes, conforme o v. 36. Três vezes ele também procura seus discípulos e os exorta três vezes para
estarem vigilantes. A história termina com duas seqüências de três partes (v.  41s). Esta construção mostra com
que intensidade os primeiros cristãos refletiram sobre o Getsêmani. Passagens como  Hb 4.15; 5.7s confirmam
isto. Todavia, não devemos confundir a formação de um testemunho com invenção (Pesch II, p 395).
Contudo, será que é possível termos aqui um testemunho ocular e auricular, já que os discípulos estavam
dormindo, conforme os v. 37,40,41? A idéia de que os três adormeceram ao mesmo tempo (!), instantânea (!)
e profundamente (!), sobrecarrega o texto. Além disso Jesus gritou sempre a mesma coisa na noite escura (v.
39), de acordo com Hb 5.7 “com forte clamor”. Isto também pode gravar-se em testemunhas que participaram
do processo a certa distância e meio atordoados.
2. Singularidade. Não raramente o tema próprio de um parágrafo se destaca na comparação com os textos
paralelos. Também em 5.37,40 Pedro, Tiago e João formam um grupo especial para a revelação do Cristo.
Além disso os pais estão presentes. 13.3 também não é um paralelo perfeito. André está presente como quarta
pessoa, e lá são os discípulos que tomam a iniciativa. Por outro lado, no início da transfiguração em 9.2 temos
a mesma separação intencional dos três por Jesus como aqui no v. 33 (cf. lá opr 2). Lá como aqui Jesus se
transforma de modo estranho diante dos olhos deles, logo que está só com eles. Nos dois casos os discípulos
não sabem o que dizer e, apesar de não terem compreendido, mais tarde são as testemunhas. Em ambas as
vezes a visão é interrompida de repente. O paralelismo não pode ser provado. E ele é ainda mais profundo.
Nos dois casos se vê o que  há de mais íntimo em Jesus, que é sua relação de filho com o pai, mesmo que em
sentido contrário. No monte vem uma voz de cima: “Meu filho amado!”, no Getsêmani ouve-se de baixo:
“Aba, pai amado!” As duas histórias giram em torno do envio deste filho para  o sofrimento. E tudo isto aponta
para a revelação. Com este propósito é que a vanguarda dos três escolhidos foi trazida. Ela deverá intermediar
para a igreja futura o que recebeu. – Esta comparação deverá orientar a interpretação.
32  Então, foram a um lugar chamado Getsêmani. Depois da indicação aproximada no v. 26, agora
ficamos sabendo do alvo exato. Lá onde o fundo do vale do Cedrom se alarga e oferece espaço para a
plantação, havia um pomar de oliveiras ao pé do monte (há vestígios ainda hoje), no qual Jesus se
detinha com freqüência (Jo 18.1s). Ali chegados, disse Jesus a seus discípulos: Assentai-vos aqui,
enquanto eu vou orar. Orar estava para Jesus debaixo da regra de Mt 6.6. Também em 1.35 ele orou
em um “lugar deserto”, e em 6.46 ele despediu as pessoas antes de orar.
33,34  Aqui, porém, segue algo diferente. E, levando consigo a Pedro, Tiago e João. Um pequeno
grupo seleto precisava estar junto como testemunhas, pois esta oração era ao mesmo tempo
revelação, sem a qual  não seria possível compreender corretamente mais tarde quem era o
crucificado e o que ele fazia.
Logo ele se transformou diante dos olhos deles, como nunca antes o tinham visto.  Começou a
sentir-se tomado de pavor e de angústia. Na comparação com 9.2, desta vez os sinais estão
trocados. Lá ele estava diante deles envolto pelo brilho celeste, aqui ele está totalmente sem brilho. É
um desabamento, em comparação com a determinação e iniciativa anteriores (p ex 10.32).  E lhes
disse, usando as palavras do estribilho dos Sl 42 e 43: A minha alma está profundamente triste.
Constantes apartes zombeteiros atingiam o salmista como facadas no coração. Abatido ele grita para
o Deus ausente: “Por que te esqueceste de mim?” Jesus ainda reforçou a expressão de tristeza: até à
morte. Ele chegou ao limite do suportável, o coração quer partir-se em seu peito. Tal foi o
sofrimento da sua dúvida em seu Deus. Fraco como um moribundo ele acrescentou:  Ficai aqui e
vigiai. Sua intenção não era que lhe fizessem companhia, intercedessem com ele em comunhão de
oração, como o próximo versículo dá a entender. Ele não queria que o consolassem, fortalecessem ou
mantivessem acordado. A cada versículo é Jesus quem vigia, quem ora e, também por isso, quem é
preservado. Por causa da sua condição de testemunhas é que eles deveriam ficar com ele; de acordo
com o v. 38, no máximo orar por si mesmos.
35  E, adiantando-se um pouco. Jesus se isola, sem suspender a comunhão com estes três. Eles ouvem
sua oração em voz alta e, assim como ele vai três vezes até Deus, ele volta três vezes para eles.
Prostrou-se em terra. Joelhos e testa encostados no chão é uma das posições de oração dos  judeus,
expressão de submissão completa. E orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora.
Marcos resume de antemão o conteúdo da oração, apesar de este seguir em discurso direto. O v. 36,
porém, mostrará que não temos aqui um ponto morto, mas que o caminho já está sendo aplainado
para a compreensão. Jesus não estava lutando contra a desobediência. Desaparecer pelo outro lado do
monte das Oliveiras para dentro da noite, salvar-se para o deserto da Judéia, onde desde o tempo de
Davi sempre de novo fugitivos se escondiam em ravinas e cavernas, ainda era uma possibilidade
prática para ele, mas não espiritual. Movia-o uma possibilidade do próprio Deus. Deus poderia fazer
passar uma tempestade que se forma no horizonte, sem que ela desabasse.
36   E dizia: Aba, Pai. Nenhum judeu, nem antes nem depois de Jesus, se dirigiu a Deus com tanta
intimidade. Como acontece no AT, às vezes os judeus podiam comparar Deus com um pai do seu
povo, mesmo que somente com o conceito oficial de “pai” (ab; Jeremias, Abba, p 16-19, relaciona
dezesseis passagens no AT). Quando, porém, se tratava de dirigir-se assim a Deus em oração, e até
com Abba, as pessoas se intimidavam. Jesus, no entanto, orou sempre só assim, em todas as
dezenove orações dele que foram preservadas (Jeremias, ThWNT V, 985, nota 251; a única exceção
é 15.34, na cruz, onde Jesus faz uso de um salmo). Esta maneira de falar com Deus, em linguagem
familiar não litúrgica, evidencia o cerne da sua comunhão com Deus: estar em casa com ele sem
perturbação, confiança básica, certeza de ser filho. Foi para trazer isto ao nosso mundo e transferi-lo
aos seus discípulos que ele viera. A maneira exterior do seu falar gravou -se de modo tão indelével na
memória dos discípulos, que eles passaram a difundi-la em sua  forma aramaica original para o
mundo dos povos (Gl 4.6; Rm 8.15).
Não há o menor indício de falta de respeito em tudo isto. A oração começou com submissão à
divindade de Deus: Tudo te é possível (cf. 9.23; 10.27; 11.24). Esta o encoraja a fazer o pedido ma is
audacioso: Passa de mim este cálice. Do v. 35 sabemos em que cálice Jesus está pensando. É “esta
hora”, que no v. 41 “chegou”, isto é, a entrega do Filho do homem nas mãos dos pecadores, à mercê
da ação deles (cf. 9.31). Aqui vemos a provação de Jesus. A ação do Pai no Filho seria encoberta
totalmente pela ação dos maus, a ponto de desaparecer nela. Aquele que estava ligado a Deus como
nenhum outro haveria de tornar-se alguém abandonado por Deus como nenhum outro.
O pedido é prova de uma liberdade sem limites, Jesus podia pedir assim. Ele sabia que, p ex, não
era obrigado a sofrer. Também o “é necessário sofrer” do v. 31 não tinha este sentido. Como mostra a
continuação, ele sabia diferenciar sua vontade da vontade de Deus, sem, porém, separar -se dele. No
fim das contas, seu ancoradouro era a vontade de Deus. Sua própria vontade lutou com a vontade
Deus, mas com o propósito de que a vontade de Deus fosse vencedora: Contudo, não seja o que eu
quero, e sim o que tu queres. Assim, ele não simplesmente teve de sofrer, mas no fim também quis
sofrer. Sua cruz foi a cada momento, apesar das lutas imensas, sua própria ação e seu caminho
trilhado conscientemente (Jo 10.18; 17.19). Ele foi entregue, mas também entregou a si mesmo (Gl
1.4; 2.20).
Marti escreve (p 319s) sobre a oração de Jesus: “Porém Deus ficou firme”. Se o Pai não poupou o
Filho de fazer corresponder sua própria entrega ao fato de ser entregue, devemos mesmo chamar isto
de “rigidez metálica”, ou será que isto é ser pai de modo superior? Jesus continuo u sendo filho para
Deus até o extremo, podendo querer algo e devendo estar presente com sua vontade. Em nenhum
momento ele o transformou em um escravo que arrastasse atrás de si, amarrado e atordoado. E se
Deus foi mesmo firme, foi contra si mesmo, sacrificando um filho como este.
37  Jesus continua orando, mas a partir deste versículo o fracasso dos discípulos passa para primeiro
plano. As duas coisas andam lado a lado: o fracasso daqueles por quem Jesus se santifica, e a
santificação de Jesus pelos que fracassam. Voltando, achou-os dormindo; e disse, em vista do v.
31, especialmente a Pedro: Simão, tu dormes? Não pudeste vigiar nem uma hora? Aquele que
acabara de se apresentar para o martírio não possui nem mesmo a força de manter os olhos abertos.
Assim somos nós. Começou a queda do v. 27. Ela teve vários degraus: a justiça própria no v. 30, o
sono no v. 37, a fuga no v. 50 e a negação no v. 71.
38  Ficar acordado externamente pode ter motivação espiritual. Vigiai e orai, para que não entreis em
tentação. Ficar acordado aqui se concentra em uma só coisa, a oração, diferente de 13.33-37. Quem
dorme forma um quadro impressionante para uma pessoa que não ouve nem vê nem sabe do perigo.
Imerso em seus sonhos, ele acaba se deixando amarrar, levar  embora e matar. “Paz e segurança, não
há nenhum perigo!” prega sua respiração tranqüila em meio à perdição (cf. 1Ts 5.3). Jesus aqui
objetiva a solidão do eu dos v. 29,31: eu sou, eu quero, eu posso, eu irei. Por esta razão falta a
oração. Orar significaria reconhecer a própria incapacidade e abrigar -se na comunhão com Deus.
Esta seria a vigilância que preserva. A oração é a força dos fracos. Estes três, com seu sono, atestam
sua separação da comunhão com Deus. O que farão exteriormente no v. 50, já fazem  aqui no sono:
dormindo, estão se mandando.
Não entrar em tentação não significa viver em um ambiente sem tentação, mas não cair sob o
poder de apostasia, traição e mentira. Quem ora pode ficar sob o reinado de Deus.
O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. A versão alemã da BLH, Die Gute
Nachricht, parafraseia aqui: “Boa vontade vocês têm, mas vocês são fracos”. Por mais que isto seja
verdadeiro, esta sabedoria psicológica parece ser superficial aqui. A proximidade com Sl 51.14
aconselha pensar na tensão do ser humano entre a carne como o “espírito de baixo” e o Espírito de
Deus do alto. Este Espírito entra em cena com Jesus como a força que pressiona, empurra e ilumina,
mas só para quem ora.
39,40  Retirando-se de novo, orou repetindo as mesmas palavras. Voltando, achou-os outra vez
dormindo, porque os seus olhos estavam pesados; e não sabiam o que lhe responder.  Eles
estavam naquele estado em que a pessoa ouve sem conseguir reagir direito. Em 9.5s a expressão não
exclui toda reação, mas sim a resposta com entendimento. Nisto pode estar a ênfase aqui.
41  E veio pela terceira vez e disse-lhes: Ainda dormis e repousais! Basta!  Acabou o tempo de
preparativos, também de orar ou dormir, assim como da provação e fraqueza para Jesus. A oração
tríplice, insistente, trouxe paz depois da grande tempestade (cf. 2Co 12.8). “Um anjo do céu lhe
apareceu, que o confortava” (Lc 22.43). Chegou a hora; o Filho do homem está sendo entregue
nas mãos dos pecadores. Sobre a hora da “entrega”, veja 9.31 e opr 1 à divisão principal 14.1–16.8.
As mãos de Deus se retiram, os pecadores põem as mãos nele (v. 46; Lc 22.53). Como o único que
nesta noite não foi vencido pela escuridão, ele é entregue à escuridão.
42  Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima. Um segundo “eis” reforça o fato de que
nada surpreendeu Jesus. A referência a Judas fornece a informação que ele não está presente. De
acordo com Jo 13.30 ele deixara o grupo ainda durante a festividade na cidade, logo que ficou
sabendo onde Jesus se instalaria para passar a noite (Jo 18.2). Agora ele aparece com os soldados que
irão prender Jesus. Surpreendentemente, Jesus já vem ao seu encontro (cf. Jo 18.4).
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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