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96 A entrega de Jesus por Judas e a fuga dos discípulos, Mc 14.43-52

A entrega de Jesus por Judas e a fuga dos discípulos, Mc 14.43-52
(Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.2-12)

43-52 E logo, falava ele ainda, quando chegou Judas, um dos doze, e com ele, vinda da parte dos principais sacerdotes, escribas e anciãos, uma turba com espadas e porretesOra, o traidor tinha-lhes dado esta senha: Aquele a quem eu beijar, é esse; prendei-o levai-o com segurança. E, logo que chegou, aproximando-se, disse-lhe: Mestre! E o beijouEntão, lhe deitaram as mãos e o prenderam. Nisto, um dos circunstantes, sacando da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelhaDisse-lhes Jesus: Saístes com espadas e porretes para prender-me, como as um salteadorTodos os dias eu estava convosco no templo, ensinando, e não me prendestes; contudo, é para que se cumpram as EscriturasEntão, deixando-o, todos fugiram. Seguia-o um jovem, coberto unicamente com um lençol, e lançaram-lhe a mãoMas ele, largando o lençol, fugiu desnudo.

Em relação à tradução
a
paraginesthai aparece só aqui em Marcos, e também pode ter o sentido de “entrar em cena” para
encarar a missão da sua vida (p ex Mt 3.1).
b
Trata-se de uma medida do Conselho Superior, cujas três frações são relacionadas aqui. Como era o
caso do tribunal de qualquer cidade (Mt 5.25; 10.17; Lc 21.12), mais ainda o supremo tribunal judaico tinha
forças da ordem à sua disposição (“serventuários”,  funcionários do tribunal, cf. 14.54n). Que a polícia do
templo, composta de levitas, acompanhava o batalhão é pressuposto por  14.49 (cf. Lc 22.52). A
administração do direito civil, e às vezes também a do criminal, nas províncias romanas, geralmente era
deixada a cargo das autoridades locais (Blinzler, p 99s; Gnilka, p 272). O livro de Atos traz muitos exemplos
disto.
c
ochlos pode denotar qualquer agrupamento de pessoas, desde uma aglomeração espontânea até uma
tropa organizada (Meyer, ThWNT V, 583). Aqui o comissionamento pelo Conselho Superior e o encargo de
uma prisão de verdade favorecem a segunda possibilidade.
d
Deve ficar claro que não está chegando um bando de brigões que se guarneceram de paus. Há provas
de que a palavra xylon descreve uma arma comum das tropas judaicas ou romanas (Blinzler, p 88,93).
e
syssemon é, diferente de semon, um sinal combinado entre duas partes.
f
kratein significa aqui, como nos v. 46,49 (cf. v. 51) a prisão oficial. Em seu lugar, o v. 48 tem
syllambanein. Também apagein, da linguagem policial, que vem a seguir, combina.
g
Que aqui, em lugar de philein do v. 44, foi escolhida a forma intensiva  kataphilein, dificilmente deve
ter sido uma questão de estilo (Stählin, ThWNT IX, 138 , nota 240). Judas leva a cerimônia até o fim, pois
fazia parte do combinado.
h
De acordo com Pesch II, 400, um dos captores, na confusão, acertou por acaso a pessoa errada, pois os
“circunstantes” ou “presentes” (BJ) na história da Paixão geralmente são estranhos (14.69,70; 15.5,39). Veja,
porém, o comentário.
i
doulos, aqui como em várias outras ocasiões na Bíblia, não deve ser pejorativo, mas indica um
funcionário importante do sumo sacerdote, talvez o líder do empreendimento (Lc 22.52: “capitão do
templo”). Por isso também se sabia o nome.
j
Para a tradução nesta passagem, cf. 8.31n.
l
lotarion, na verdade “orelinha”, que pode significar a ponta da orelha, ou pode ser atribuído à
predileção de Marcos por diminutivos. Lohmeyer (p 322) lembra que na Antigüidade as orelhas eram
cortadas em sinal de desonra, e também não pensa aqui em legítima defesa, mas na intenção de infligir ao
representante do Conselho Superior um sinal vergonhoso. A fras e, porém, sugere, que o golpe fora desferido
com a intenção de acertar em cheio.
m
lestes podia indicar tanto um criminoso como um zelote combatente pela liberdade (assim pensa
Stauffer, Jesus, p 90; cf. opr 4 a 12.13-17).
n
“Escrituras” no plural significa todo o AT (Schrenk, ThWNT I, 751), de modo que não é necessário
procurar uma palavra bíblica específica aqui (como Is 53.12).
o
No grego, “todos” está no fim da frase, para dar ênfase.
p
Tempo imperfeito de conatu: ele  queria seguir, preparava-se para acompanhar o grupo.
q
sindon, um estrangeirismo, denotando um pano de linho, que na Palestina geralmente era importado.
Aqui a palavra significa uma peça de roupa, se túnica ou capa (cf. 10.50n) deve ser concluído das
circunstâncias. Como é dito que ele usava esta peça de roupa diretamente sobre a pele, somos levados a crer
que se tratava da capa, pois para a túnica isto seria óbvio. Além disso o moço não poderia ter -se
desvencilhado de uma túnica na fuga; ela teria sido rasgada de todo. A conclusão simples, portanto, é que o
moço dormia no terreno, sem roupa como é costume no Oriente, acordou assustado e se envolveu às pressas
no lençol com que se cobria para dormir, que é sua capa. Sua boa condição financeira só é  mencionada pela
referência marginal ao material (mais claramente em  15.46).
r
kratein, cf. v. 44, mas não uma prisão de fato, somente uma tentativa.
Observações preliminares
1. Contexto. Todos os quatro evangelhos dedicam a máxima atenção a este acontecimento, já que se trata
da “entrega do Filho do Homem” anunciada há tanto tempo (por último nos v.  41,42), a transição da ação de
Jesus para a sua Paixão, ou sua passagem das mãos de Deus pa ra as dos homens (anunciado no v. 41,
executado no v. 46). Para o relato de Marcos é peculiar que, das muitas pessoas que agem, ele só menciona
duas pelo nome. Os “discípulos” não são mencionados, também não o nome de quem usa a espada, nem o do
sumo sacerdote ou do seu funcionário, nem o do jovem, apenas “Jesus” e “Judas”. Na verdade os dois
representam os doze, Jesus como o “rabi” deles (v.  45) e Judas como “um dos doze” (v. 43), mais exatamente
como o diabo deles, como diz Jo 6.70.
2. Unidade. O problema com uma “abundância de dificuldades” (Haenchen, p 498) no texto é devido a
questionamentos estranhos ao texto. Supõe-se que até três fragmentos de tradição estejam misturados aqui.
“Ninguém se atreve a dizer que o presente relato é uma narrativa procedent e da mesma fonte”, escreve
Schmithals, p 645. Ele não conta Pesch (II, p 391), que falou de um “texto narrado uniformemente”. Vale a
pena tentar entregar-se totalmente ao relato de Marcos.
3. O jovem dos v. 51s. O fato de não se mencionar seu nome despertou o interesse ainda mais. Supõe-se
que ele seja Pedro, Tiago, João ou, acima de tudo, o próprio Marcos, ou o mesmo jovem de  16.5. Ou que ele é
uma criação baseada em Am 2.16. Ele também é considerado símbolo da hesitação dos cristãos oriundos do
paganismo em tomarem a cruz sobre si, ao lado da fuga dos discípulos no v. 50 que seria símbolo da
indisposição para o sofrimento por parte dos cristãos de origem judaica. Diz-se que o ato de tirarem sua roupa
e sua nudez representam a morte vergonhosa de Jesus, e sua escapatória a ressurreição. Para a dogmática dos
gnósticos da Antigüidade este texto era indispensável: o verdadeiro Cristo não morreu, mas separou -se a
tempo do corpo de Jesus, aqui no jardim.  – Nossa interpretação parte da idéia de que estes dois versículos não
recebem seu sentido apenas quando se tenta adivinhar algo que supostamente falta, mas que eles devem ser
encarados assim como estão. Todos os discípulos e seguidores de Jesus que tinham vindo com ele da cidade
ficam assim automaticamente excluídos da identificação. Eles com certeza estavam totalmente vestidos.
43  As circunstâncias do aprisionamento pressupõem que os outros oito discípulos tinham vindo até
onde estavam os quatro, ou vice-versa. E logo é uma expressão que chama a atenção com excitação
para o andamento da história de Deus (cf. 1.10n). Falava ele ainda, quando chegou Judas. Já na
primeira menção da sua pessoa em 3.19 ele foi marcado como aquele que entregaria Jesus. Na
segunda referência a ele o encontramos de tocaia, aguardando sua oportunidade (14.10s). Nesta
terceira e última vez ele tem a sua chance. O momento da sua vida! Fica evidente o que havia dentro
dele. Depois ele sai de cena, pois nos interrogatórios já não precisavam mais dele. Assim, ele é
totalmente “aquele que entregou”. Nem uma vez os sinóticos o mencionam sem referir -se a este fato,
assim como João (a única exceção é Jo 13.26,27,29). At 1.16 define a função -chave de Judas: “foi o
guia daqueles que prenderam Jesus”. Seu conhecimento do lugar, da agenda e das pessoas o
predestinou para o serviço de condutor nesta noite.
O acréscimo um dos doze na verdade não é uma informação sobre sua pessoa, “como se ele ainda
fosse desconhecido aos leitores” (Jeremias, Abendmahl, p 89). Ele mantém desperta a noção de que
neste homem solitário mesmo assim os doze estavam presentes. Judas revela, mesmo que em
extremo, o que há em todos os doze, na verdade em todas as pessoas, que é o protesto natural contra
este Cristo de Deus. Ele mostra quão pouco os discípulos de Jesus, quando  entregues a si mesmos,
hoje como naquela época, têm condições para serem discípulos e o quanto eles pertencem ao lado
contrário. Com Jesus todo o grupo dos doze desmorona. Depois dele ninguém mais os segurou, como
mostrará o v. 50. Em lugar de “estar-com-ele” (3.14), em redor de Judas formou-se outro “com”: e
com ele, vinda da parte dos principais sacerdotes, escribas e anciãos, uma turba com espadas e
porretes.
44  O versículo insere uma informação posterior importante. Ora, o traidor tinha-lhes dado esta
senha: Aquele a quem eu beijar, é esse. O plano evidentemente era de evitar uma revista geral da
encosta do monte das Oliveiras, cheia de peregrinos que pernoitavam. Nada de prisões em massa!
Ainda estava em vigor o propósito do v. 1: Não chamar a atenção! O objetivo era tirar Jesus com
segurança dentre os seus seguidores, sem o risco de confundi-lo. Para tanto Judas tinha de andar na
frente e bancar o discípulo inocente, como acabou fazendo. As cavernas que se pode ver lá hoje em
dia e os pomares de oliveiras cheios de sombras dão a entender que a tarefa não seria fácil (contra
Schmithals, p 645). O próprio Jesus lhes facilitou o trabalho, indo ao encontro deles.
Prendei-o e levai-o com segurança. Pode ser que “com segurança” indique que o amarraram.
Será que o Senhor foi agarrado pelos braços, imobilizado e amarrado com firmeza? Será que
passaram em volta da sua cintura o cinto largo revestido de pontas e provido de quatro cordas, com
que quatro soldados puxavam com violência até a cidade o prisioneiro que cambaleava entre eles?
Será que Jesus se contorcia para não ser ferido pelas pontas? Será que saltitou, tropeçou e caiu pelo
caminho pedregoso, puxado e ridicularizado pelos soldados? O relato não descreve nada disto. Ele só
diz: “entregue nas mãos dos pecadores” e “lhe deitaram as mãos” (v. 41,46).
45  E, logo que chegou, aproximando-se, disse-lhe: Mestre! E o beijou. O beijo era um gesto normal
no Oriente, no contexto de uma saudação, e também era devido a um aluno em relação ao seu rabino
(Bill. I, 995; Stählin, ThWNT IX, 140). Os orientais faziam saudações longas (cf. 15.18 e 12.28n).
Neste tempo os soldados podiam cercar o grupo. Mais importante, porém, que as circunstâncias
exteriores é aqui o fato inacreditável de que Judas entregou o Senhor totalmente com uma atitude  de
discípulo. Em Judas todos nós nos tornamos manifestos como discípulos. Existe uma relação
específica da Paixão com a igreja. Aquele que morreu por nós, também morreu por nosso intermédio.
Nossas cantatas de Sexta-feira da Paixão também sabem disso. Só depois que compreendemos isso é
que estamos em condições de pregar o evangelho a outros.
46    Então, lhe deitaram as mãos. Nesta altura passaram para o uso da força. E o prenderam. Até
então não tinham conseguido “apanhá-lo” nem com palavras (12.13); agora o próprio Deus o entrega.
47  Os próximos versículos recordam sem relação imediata alguns detalhes que indicam a derrocada do
grupo dos doze. Nisto, um dos circunstantes, sacando da espada, feriu o servo do sumo
sacerdote e cortou-lhe a orelha. Sobre a espada nas mãos dos discípulos, veja Lc 22.38. O fato de
que aqui alguém avança contra este homem (veja nota à tradução) mostra que se trata de um seguidor
de Jesus. No sentido do relato, porém, isto é somente um fato geral. Na verdade este agressor se opõe
diametralmente à Escritura, à elevada ação de Deus e à missão de Jesus. Ele só deixa  ver o quanto já
se distanciou do seu mestre. Ele e os outros discípulos não vivem mais o “estar -com-ele” de 3.14,
mas são somente “circunstantes”. E, como depois do beijo de Judas, nada lemos sobre a reação de
Jesus. O relato silencia e deixa os fatos gritar por si.
48-50  Outro estilhaço significativo. O que segue pressupõe que Jesus reconheceu oficiais entre os
soldados que ele não enfrentava pela primeira vez.  Disse-lhes Jesus: Saístes com espadas e
porretes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias eu estava convosco no templo,
ensinando, e não me prendestes. Jesus percebeu totalmente a atitude baixa, covarde e maligna dos
seus captores. Mais incompreensível ainda a frase seguinte deve ter sido para os discípulos:
Contudo, é para que se cumpram as Escrituras. Em vez de exterminar o mal com poder divino,
Jesus aceita o papel de criminoso como vontade de Deus. Que Deus é este? Aqui, na fé em Deus, tem
início a desagregação dos doze. Eles não entendem mais nada.  Então, deixando-o. Por causa dele
tinham deixado redes, família e tudo mais para trás (1.18,20; 10.28s), por causa dele voltaram para
isto. Todos fugiram. Não são simples covardes que estão passando sebo nas canelas aqui. Estes já
teriam fugido bem antes. Não, as juras de fidelidade deles dos v. 31s estavam em vigor. Porém Jesus
se comportava diante deles como alguém que considera sua própria causa perdida. O colapso deles
foi completo. Por isso deixaram que eles fugissem, e também depois da morte de Jesus não os
incomodaram.
51,52  Seguia-o um jovem, coberto unicamente com um lençol, e lançaram-lhe a mão. Mas ele,
largando o lençol, fugiu desnudo. O que motivou este desconhecido, se curiosidade ou adesão séria,
não sabemos e não deve nos preocupar. O que o une aos discípulos é algo meramente exterior. Ele
também queria seguir animado o séquito de Jesus, mas desistiu em vista das conseqüências e fugiu; e
assim como os discípulos abandonaram o Senhor nas mãos dos perseguidores, ele fez com suas
roupas. Nos dois casos o fim dá um retrato lamentável. Portanto, são as palavras “seguir, lançar a
mão, largar, fugir” que tornam este personagem que no mais é insignificante um paralelo dos
discípulos. A vida forneceu uma ilustração adicional, que deixa o leitor pensativo e o faz deter -se
mais uma vez no tema da fuga dos discípulos. O ensino do parágrafo é, assim, aprofundado em
termos fundamentais e impiedosos.
Assim que Deus entrega seu Filho para ser julgado para salvar o mundo, os discípulos não
conseguem nem podem mais acompanhar. Eles gostariam, fazem um último esforço, mas até os mais
corajosos e capazes, assim como os mais silenciosos e simples, acabam sucumbindo. A salvação do
mundo é obra só de Deus, não também em parte dos discípulos, dos cristãos ou das igrejas. Isto não é
exagerado, conforme o relato da Paixão em Marcos, mas uma verdade central. A Sexta -feira da
Paixão coloca os cristãos entre os judeus e os pagãos. Só podemos festejar a Sexta-feira da Paixão
contra nós mesmos, como festa da soberania de Deus.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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