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96 O juízo sobre Jerusalém, Mt 24.15-22

O juízo sobre Jerusalém, Mt 24.15-22

15-22 Quando, pois, virdes o abominável da desolação ( = profanação) de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê, entenda), então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes. Quem estiver sobre o eirado não desça a tirar de casa alguma cousa. E quem estiver no campo, não volte atrás para buscar a sua capa. Ai das que estiverem grávidas, e das que amamentarem naqueles dias! Orai para que a vossa fuga não se dê no inverno, nem no sábado.      Porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio até agora não tem havido, e nem haverá jamais. Não tivessem aqueles dias sido abreviados, e ninguém seria salvo. Mas por causa dos escolhidos tais dias serão abreviados.
Observação preliminar
Exatamente quarenta anos depois de Jesus ter dito estas palavras, numa festa de Páscoa, Tito se acampou
com suas tropas diante de Jerusalém e começou a sitiá-la. O cerco durou cinco meses. Foi um tempo terrível para a cidade. Por causa da festa da Páscoa ela estava repleta de gente. Os dois partidos principais, que deveriam defender Jerusalém contra Roma, inicialmente estavam desunidos entre si. Encontravam-se numa constante guerra interna, transformando a cidade seguidamente num campo de batalha, até poucos dias antes do início do sítio. Nisso cometeram a extrema tolice de incendiar os enormes estoques de cereais que havia na cidade, a fim de impedir que o outro partido as possuísse. Não consideraram que desse modo eles próprios se privavam dos meios para a defesa. As lutas partidárias continuaram enquanto os romanos já estavam acampados diante dos portões da cidade. Na festa pascal aconteceu novamente uma chacina no interior da cidade. O partido de Eleazar abrira as portas do pátio interno do templo para os visitantes da festa. Os líderes do outro partido aproveitaram a oportunidade para infiltrar seus homens com armas escondidas e promover o assassinato inesperado de Eleazar e seus adeptos.
Somente quando os aríetes dos romanos começaram a arremeter contra os portões da cidade a guerra
interna parou. Após 14 dias de trabalho, um dos enormes aríetes conseguiu abrir uma brecha no muro. Os
romanos penetraram e se apoderaram do primeiro muro.
Então começou a luta mais encarniçada pelo segundo muro. Na cidade alastrou-se a fome. Quem por isso
tentava fugir da cidade era capturado pelos romanos e crucificado perante a cidade, podendo ser visto de
longe. Várias centenas dessas cruzes se erguiam diante da cidade.
O flagelo da fome aumentava cada vez mais, as lutas tornavam-se cada vez mais terríveis e ferozes. A raiva
dos romanos diante da teimosia dos judeus não tinha limites. Estes ainda não queriam saber nada de rendição.
Finalmente os muros e o monte do templo foram tomados de assalto. Quando os portões estavam totalmente queimados, Tito realizou um conselho de guerra, no qual foi decidido poupar o templo. Quando, porém, no dia seguinte os judeus realizaram dois ataques rápidos a partir do pátio interno do templo, sendo rechaçados, no segundo ataque, até o interior do pátio interno pelos soldados ocupados em apagar o incêndio da galeria de colunas, um soldado lançou uma tocha pelo telhado que caiu no vestiário dos sacerdotes. Quando isso foi noticiado a Tito, ele chegou às pressas, seguido dos generais e das legiões. Tito deu ordens para apagar o fogo.
Contudo, na batalha desesperada que se desencadeou, suas ordens não foram ouvidas, e o fogo se alastrou. O futuro imperador ainda tinha esperança de salvar pelo menos o interior da construção do templo, repetindo as ordens para apagar o fogo. Contudo, a raiva dos soldados fez com que não escutassem mais o seu comando. Em vez de apagar, iniciaram novos focos de incêndio. Todo o magnífico prédio do templo tornou-se, sem chance de salvação, vítima das chamas.
Assim foi cumprida literalmente a profecia de Jesus em Lc 21.6: “Do que contemplais, dias virão em que
não restará pedra sobre pedra; tudo será destruído”.
Deve ter sido arrasador: o lamento dos judeus, o grito de triunfo dos vitoriosos, o crepitar das chamas, às
quais em pouco tempo sucumbiu a cidade inteira, e o sangue humano escorrendo pelos degraus do templo. Os judeus, que haviam esperado até o fim pela ajuda do alto, pela vinda do Messias, perderam o ânimo. O mais terrível para eles, porém, foi que com Jerusalém e o templo ruiu plena e totalmente o fundamento de sua fé e esperança mal conduzidas.
Não restou pedra sobre pedra. O templo e a cidade jaziam em ruínas fumegantes. Somente a forte muralha
fundamental do terraço do templo com seus blocos enormes resistiu à destruição, e da grande e maravilhosa
cidade Tito deixou incólume somente três grandes torres, que tinham os nomes Hippicus, Mariamne e Fasael.
Em redor tudo o mais era cinzas, nada mais que cinzas e entulhos. As três torres foram mantidas como
proteção para a guarnição que os romanos deixaram. Uma parte da muralha Tito também deixou de pé, como monumento à anterior inexpugnabilidade da cidade (provavelmente esse resto de muralha é o que atualmente se chama de “muro das Lamentações”). Das três torres deixadas de pé, que eram do palácio de Herodes, conservou-se até hoje uma, a assim chamada “torre de Davi”.
Durante o demorado cerco aproximadamente um milhão de pessoas perderam a vida. Quem caía nas mãos
dos romanos e não era abatido por armas, foi vendido à escravidão. Essa era a sorte de todos os prisioneiros na Antigüidade. Por isso milhares deles foram levados às minas e pedreiras do Egito, outros milhares foram comprados pelos mercadores de escravos a preços irrisórios, e lotaram os mercados com escravos judeus. Os vencedores distribuíram outros milhares entre si e os presentearam a amigos. Os jovens e homens mais belos e mais fortes já haviam sido separados anteriormente para as lutas com animais, para os jogos de gladiadores e para a marcha triunfal do Imperador. Desse modo, 900.000 filhos e filhas de Sião tornaram-se testemunhas no mundo inteiro do aniquilamento do reino judeu e da nação judaica. Em todas as cidades que Tito visitou
quando retornava para Roma foram festejadas grandiosas festas de vitória, nas quais centenas de jovens judeus tinham de lutar entre si e contra animais ferozes até morrer. À frente de seu carro de vitória em Roma, porém, marcharam 700 belos jovens algemados e com eles os últimos dois mais corajosos comandantes partidários,
João de Giscala e Simão bar Giora, que caíram vivos nas mãos dos romanos. A seguir eram trazidos os mais preciosos dos numerosos utensílios e tesouros do templo, “o grande candelabro dourado de sete braços, a mesa dourada e os preciosos rolos sagrados da lei”. Moedas comemorativas eternizaram a queda de Jerusalém e da Judéia. Em homenagem à marcha triunfal de Tito foi construído o arco do triunfo, o “arco de Tito”. Esse arco persiste em Roma até hoje. Seus trabalhos de escultura representam as legiões enquanto carregam a arca da aliança e o candelabro dourado de sete braços. Mostram também homens judeus algemados.
Enquanto quase todos os demais monumentos de vitórias romanas há muito caíram em ruínas, esse “arco
de Tito”, o memorial da desgraça judaica, permanece de pé, assim como o próprio povo judeu permaneceu de pé, um sinal peculiar da história universal! Qual deles durará mais tempo, a miséria do cativeiro judeu ou o monumento dela, o arco de Tito em Roma?
Por meio da guerra, a Judéia inteira foi transformada num deserto e quase totalmente privada de seus
moradores judeus. O imperador Vespasiano declarou o país todo como sua propriedade particular. 800
veteranos romanos foram assentados bem perto da cidade destruída de Emaús. O imperador doou grandes
propriedades a seus beneficiados e amigos, p. ex., Josefo. Judeus que porventura quisessem voltar a morar na Judéia, tinham de comprar a terra dos vencedores. Destruído em sua pátria, o povo judeu existia somente no estrangeiro. Constitui uma grande sorte que bem antes da destruição de Jerusalém havia muitos milhares de judeus residindo fora do país. Eram eles que, de agora em diante, formavam o verdadeiro contingente da nação e o constituirão “até que se complete o tempo dos gentios”.
A história dos judeus é uma tragédia que se desenrola sob o sol de dois milênios, como não há outra igual
para mostrar na história dos povos. Não é nenhuma tragédia artificial, mas uma real, verdadeira, cujo herói
não morre com a sua culpa, mas ressuscita sempre de novo para um novo sofrimento, pois seus pecados
deverão reverter em benefício dele e dos outros, “até que se complete o tempo dos gentios” (Cf. Heman-Harling, Die Geschichte des jüdischen Volkes, bem como a indicação de literatura no final do livro!).
Assim como até agora Jesus falou profeticamente de modo geral sobre o futuro próximo e
distante, ele agora fala particularmente sobre Jerusalém. O Senhor descreve o destino de Jerusalém
com as palavras de Daniel, que narra o horror da desolação. Não é nenhuma novidade o que o Senhor
anuncia; é o que Daniel já falou em 9.26s e 12.11.
“O que a destruição traz é um horror porque nela se revela a profanação do templo, a difamação
da lei! O fato a que Jesus se está referindo dificilmente é a fixação da “imagem de César Augusto” no
templo por meio de Pilatos, mas o que Jesus menciona tem de ser um horror que fornece aos cristãos
em Jerusalém e na Judéia um nítido sinal da catástrofe bem iminente. Daí, portanto, vem também a
exortação de que o leitor do profeta Daniel reflita. Por isso os acontecimentos referidos têm de ser os
últimos exatamente antes do sítio a Jerusalém. Naquele tempo o líder zelote João de Giscala, com
seus seguidores e uma diversidade de bandidos que aderiram a ele, havia se apoderado do monte do
templo, lutando a partir dali contra o sacerdote Eleazar e suas milícias alojadas no interior dele.
Projéteis lançados pelos bandidos muitas vezes voavam até o altar e acertavam sacerdotes e pessoas
que realizavam sacrifícios. No santuário praticamente era preciso caminhar pelo sangue dos
assassinados. Os cristãos se lembraram do conselho do Salvador, refugiando-se a tempo, após esse
sinal, para a cidade grega de Pela, ao sul do lago de Genesaré, liderados pelo bispo Simeão” (Lauck,
p. 70).
O terror da angústia é iluminado de forma soturna pela exortação do Senhor para fugirem com a
máxima pressa. Enquanto geralmente no perigo de guerra os moradores do campo buscam proteção
nas cidades fortificadas, os moradores da terra da Judéia não devem procurar socorro na sólida
fortaleza de Jerusalém, mas sim fugir para as montanhas, onde é possível ocultar-se. Quem está no
telhado da casa, não deve mais descer ao interior para rapidamente reunir o mais necessário de seus
utensílios domésticos. Os telhados das casas eram planos e usados preferencialmente para ali
permanecer, a fim de desfrutar, p. ex., a brisa matinal ou vespertina. O eirado podia ser alcançado por
uma escada do lado de fora da casa. O perigo da catástrofe que se abaterá é tão repentino que será
preciso correr do telhado direto para a rua, para salvar a vida! – Quem estiver no campo e, para
poder trabalhar desembaraçadamente, trajar somente o chitón, uma roupa de baixo em forma de
camisa, não deve correr para casa para buscar o manto, que é tão necessário para estar protegido do
frio da noite. A capa servia como cobertor, e durante o dia, para completar a vestimenta.
Com gravidade singular são atingidas as mães, que trazem uma criança no colo ou no peito e que,
em conseqüência, não podem acompanhar a fuga rápida. – Para todos os seguidores do Senhor,
porém, vale que eles roguem a Deus para que a sua fuga não suceda no inverno, quando as
tempestades retardariam a fuga. Igualmente devem pedir para que a fuga não acontecesse num
sábado, pois a lei do sábado prescrevia que não se andasse uma distância maior que um quilômetro
fora da área urbana (os judeus piedosos preferiam ser chacinados do que lutar no sábado. Cf. 1Mac
2.32ss).
A aflição que começa com a profanação do templo se estenderá por um longo tempo. Será um
tempo de grandes tribulações, tal como não houve do início do mundo até hoje, nem tornará a
haver. A profecia de Daniel se cumprirá (Dn 12.1ss). A demora torna esse tempo de tribulação quase
insuportável. Jesus promete que, por causa dos eleitos, ele será abreviado. Do contrário, ninguém
seria salvo. Jesus considera os perigos internos que estarão ligados a esse horrível tempo de
julgamento. Haverá o perigo de que a fé sucumba sob o peso das execuções. Em seu lugar poderiam
instalar-se o desânimo, que cresceria para desespero, ou a amargura, que se rebelaria em forma de
afronta. Mas Deus não pensa unicamente na sua ira, mas também na sua misericórdia diante dos seus
eleitos. A medida da tentação não excederá a capacidade de suportar dos que pertencem ao Senhor.
Jesus designa esse tempo de tormentos que virá sobre Jerusalém de “o maior da história mundial”,
inigualável em relação a qualquer outro período de tribulações na terra. De fato, abateram-se sobre a
terra outras catástrofes maiores, em que sucumbiram numericamente muito mais pessoas do que
naquele tempo em Jerusalém. Basta pensarmos nas últimas guerras mundiais e suas decorrências,
como bombardeios e fugas. Mas diz-se que a queda da cidade de Jerusalém causou para Israel um
horror tão grande de pavor e desespero, um sofrimento tão agudo, como em nenhuma outra ocasião
da história mundial. Porque as palavras de Jesus se cumpriram literal e terrivelmente (cf. opr).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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