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97 A confissão messiânica de Jesus diante do Conselho Superior, Mc 14.53-65

A confissão messiânica de Jesus diante do Conselho Superior, Mc 14.53-65
(Mt 26.57-68; Lc 22.54-71; cf. Jo 2.19; 18.13-24; At 6.14)

53-65 E levaram Jesus ao sumo sacerdote, e reuniram-se todos os principais sacerdotes, os anciãos e os escribas. Pedro seguira-o de longe até ao interior do pátio do sumo sacerdote e estava assentado entre os serventuários, aquentando-se ao fogo. E os principais sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum testemunho contra Jesus para o condenar à morte e não achavam. Pois muitos testemunhavam falsamente contra Jesus, mas os depoimentos não eram coerentes. E, levantando-se alguns, testificavam falsamente, dizendo: Nós o ouvimos declarar: Eu destruirei este santuário edificado por mãos humanas e, em três dias, construirei outro, não por mãos humanas. Nem assim o testemunho deles era coerente. Levantando-se o sumo sacerdote, no meio, perguntou a Jesus: Nada respondes ao que estes depõem contra ti? Ele, porém, guardou silêncio e nada respondeu. Tornou a interrogá-lo o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito? Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu. Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes e disse: Que mais necessidade temos de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia; que vos parece? E todos o julgaram réu de morte. Puseram-se alguns a cuspir nele, a cobrir-lhe o rosto, a dar-lhe murros e a dizer-lhe: Profetiza! E os guardas o tomaram a bofetadas.

Em relação à tradução
a
Sobre a tradução de archiereus às vezes por “principais sacerdotes” (aqui ainda no v. 55), outras por
“sumo sacerdote” (aqui nos v. 54,60,61,63), cf. 8.31n.
b
Estes hyperetai não são seguranças ou escravos particulares quaisquer (como a empregada no v. 66).
Sua ligação com o tribunal é confirmada em v. 65; Jo 7.32,45; 18.3,12,18,22; 19.6.
c
naos, em Marcos somente ainda em 15.29,38, enfoca principalmente o prédio do templo, enquanto o
termo comum hieron abrange todo o complexo do templo.
d
A expressão também pode significar simplesmente “lhe davam bofetadas” (WB 919). Seja como for,
os soldados a serviço do tribunal não devem ter-se imiscuído na ação direta dos membros do Conselho,
porém tido a sua oportunidade em seguida, e de maneira mais violenta.
e
Outra tradução possível é “porretadas”, das quais já se falou no v. 43; parece mais apropriado esperar
uma nova informação com este termo diferente, em comparação com a primeira metade do versículo (com
WB 1456).
Observações preliminares
1. Contexto. Por motivos práticos tratamos a negação de Pedro nos v. 66-72 como um parágrafo à parte,
apesar de, como sua introdução já mostrou no v. 54, ela estar encaixada intencionalmente no interrogatório do
Senhor (sobre a técnica de encaixe de Marcos, cf. opr 1 a 3.20,21). Deste ponto de vista, o contraste dos v.  53-72 não é entre Jesus e Caifás, mas entre Jesus e Pedro. Aqui nem ficamos sabendo do nome do sumo sacerdote
(somente em Mt 26.3,57), por mais destacada que tenha sido a arte de negociação deste homem e por mais
digno de nota ele tenha sido em sua época. Ao passo que p ex seus 28 antecessores só conseguiam ficar em
média 4 anos no cargo, Caifás se manteve por 19 anos (18-37; Blinzler, p 139). Marcos, porém, não está
interessado neste homem; ele menciona oito vezes simplesmente o cargo (incluindo  15.1). Em contraste, os
nomes “Jesus” e “Pedro” aparecem quatro vezes cada um. Eles são os personagens principais da narrativa, e
isto sob o tema “testemunho” (seis vezes). Este é o contraste: enquanto Jesus, lá em cima no salão, dá um
“belo testemunho”, como “testemunha fiel e verdadeira” (1Tm 6.13 BLH; Ap 3.14), Pedro nega lá embaixo no
pátio. Com o encaixe, os dois procedimentos estão intencionalmente relacionados. Pedro ment e contra o
verdadeiro, e a fidelidade do Senhor está em referência, não por último, com o discípulo infiel.
2. Local. Será que o interrogatório aconteceu no salão das reuniões regulares (como pensa Strobel),
portanto dentro ou na proximidade da área do templo (cf. as notícias antigas em Bill. I, 997ss)? Contudo, a
indicação “casa do sumo sacerdote” em Lc 22.54, que conta com o apoio de todos os evangelhos, aponta antes
para a residência pomposa do riquíssimo Caifás (Pesch II, p 416). A tradição procura o imóvel bem perto da
sala da Ceia, de modo que Jesus voltou amarrado quase pelo mesmo caminho pelo qual tinha vindo. Detalhes
isolados se encaixam bem neste quadro. Ali havia um salão superior espaçoso e onde havia “embaixo” (v.  66),
cercado por um “portão” (Mt 26.71 NVI) e um alpendre (v. 68), um pátio evidentemente grande, em cujo
“meio” (Lc 22.55) os empregados da casa mantinham um fogo.
3. Confirmação. Apesar de se orientar por certa perspectiva espiritual, o relato revela uma visão exata (cf.
opr 2). Ele é singelo e confiável, sem traços lendários. Alguns discípulos podem ser sido testemunhas parciais:
Pedro, que pôde estabelecer contato visual com Jesus de acordo com Lc 22.61, e o “outro discípulo” de Jo
18.15. Além disso, para confirmar a história, pode-se contar com simpatizantes da classe dominante, talvez
Nicodemos (Jo 3.1; 7.50; 19.3) ou José de Arimatéia (15.43), mas também sacerdotes e fariseus não
mencionados pelo nome que, conforme At 6.7; 15.5, pouco tempo depois passaram a crer. Por fim,  a
referência de 15.29 mostra que o público estava informado sobre detalhes importantes do interrogatório.
4. Prescrições legais judaicas. Na literatura encontramos até 27 transgressões supostas ou reais do
procedimento judicial judaico nos relatos dos evangelhos (em Blinzler, p 197ss). Os itens mais mencionados
são: Processos importantes só podiam ser tratados de dia. No dia antes de um sábado ou de uma festa todas as
sessões estavam proibidas. O anúncio de uma pena de morte só podia ser feito um dia depois do processo.
Blasfêmia tinha de incluir a menção expressa do nome de Deus. Para investigar os questionamentos a fundo
falta-nos o espaço, mas em princípio pode-se levantar o seguinte:
a. Tudo o que sabemos sobre estas prescrições provém de registros posteriores a mais ou menos o ano 200.
É verdade que eles certamente contêm tradições bem antigas, que retrocedem bastante no tempo, mas um
ponto ou outro ninguém pode garantir.
b. Todas as prescrições reproduzem posições dos fariseus, que de modo geral favorecem um sistema
judicial mais humano. Na época de Jesus, porém, os saduceus ainda detinham o poder, e eles agiam com mais
dureza e menos escrúpulos. Somente o desaparecimento deles com a destruição de Jerusalém no ano 70
patrocinou aos fariseus a influência suficiente. Estes formaram um Conselho Superior fora de Jerusalém (em
Jâmnia), sem saduceus, templo ou sacerdotes. É difícil imaginar que a profunda reformulação do judaísmo
depois da sua catástrofe em 70 não tenha tido efeitos sobre o sistema judicial. No Conselho Superior dos
fariseus posterior a 70 não estamos diante do Sinédrio dos saduceus do ano 30 em Jerusalém (Blinzler, p
181,207s,216-229).
c. A existência de prescrições não exclui sua transgressão. Especialmente no caso de Jesus reuniu-se um
tribunal atordoado, que já tomara de antemão a decisão de condená-lo (3.6; 11.18; 12.12; 14.1,55) e, portanto,
conduziu um processo simulado. Com isto combina que eles não se permitiram facilmente quebrar as próprias
regras, antes lutaram pelo resultado com gra nde formalismo até o amanhecer. De modo nenhum, porém,
faltou-lhes a coragem para passar por cima de alguma barreira legal, a caminho do alvo que se tinham
proposto. Josefo (Antigüidades XX, 197-203) traz um exemplo de uma sessão irregular do Conselho Superior
no ano 62, contra Tiago. Em relação a Jesus, esta disposição para a ilegalidade já se mostra em  Jo 7.50s.
d. A própria lei judaica previa exceções em casos excepcionais (Bill. II, 821s; Blinzler, p 204; Pesch II, p
416). P ex, para o bem da comunidade, penas de morte podiam ser decididas também em dia de feriado (cf.
14.2). Em relação a Jesus, as autoridades contavam com agitações, de modo que estava em jogo a existência
de todo o seu sistema social. Jo 11.46-53 reflete esta situação. O caso excepcional fora indicado (cf. Pesch, p
416). A própria escolha do local da reunião se alinha com isto (opr 2).
e. Por fim, nosso relato não segue o processo sem deixar lacunas. Quantas acusações mais podem ocultar -se atrás do v. 56! Como a menção das testemunhas de acusação diz pouco sobre a ausência de testemunhas de
defesa! Nada sabemos de exato sobre a natureza da sessão, se era um interrogatório preliminar ou principal. A
narrativa selecionou momentos do processo que servem ao testemunho do Cristo, mas não neces sariamente ao
historiador.
Depois de considerar todas as circunstâncias hesitamos diante da posição dura de Schmithals, p 659, de que
o relato “de modo nenhum pode proceder de um autor familiarizado com a situação judaica”. Certamente as
testemunhas antigas sabiam mais e nós sabemos menos. Pesch (p 442) decide, depois de uma pesquisa do
processo de Jesus: “O valor histórico da tradição antiga […] merece mais confiança do que recebe há muito
tempo na avaliação geral”, e O. Betz (p 41): “Por isso, do ponto de  vista histórico, em princípio não há nada a
objetar à descrição do processo de Jesus nos evangelhos”.
5. O pano de fundo do AT. O. Betz propôs nas p 40-43 de modo convincente que se interprete o
interrogatório de Jesus contra o fundo de  2Sm 7.12-15. As de scobertas em Qumran (especialmente 4Qflor 1.1-13, diferente da literatura rabínica, Bill. III, 677) confirmaram que a profecia de Natã integrava a base em que
radicava a esperança israelita do Messias como filho de Davi (cf.  10.47s; 11.10; 12.35ss; Lc 1.32). Isto
também confere lógica e unidade ao nosso parágrafo. A reivindicação de ser o Messias, edificar o templo e ser
filho de Deus estão essencialmente relacionados, de acordo com  2Sm 7. Outras passagens do  AT ampliam esta
base, que lança luz sobre todo o relato.
53  E levaram Jesus ao sumo sacerdote. O cortejo moveu-se diretamente para a casa do presidente do
tribunal, de onde a ação evidentemente também se originara. Ali tudo estava preparado há dias (v. 1 e
10), de modo que a reunião noturna e a convocação das testemunhas funcionou. Quando a população
acordasse pela manhã, já deveria deparar-se com fatos consumados. Em vez de apresentar-se no
templo como Messias, Jesus deveria encontrar -se desmascarado e desarmado nas mãos do
governador. E reuniram-se todos os principais sacerdotes, os anciãos e os escribas.  A palavra
“todos” não deve ser forçada demais. Talvez Marcos com isto esteja destacando significativamente a
responsabilidade coletiva da liderança judaica (cf. 8.31). Pesch II, p 410, supõe a qui uma indicação
do número mínimo para tomar decisões, que era de 23 membros do colégio de 71. A seqüência
também fornece algumas indicações de que as prescrições estavam sendo obedecidas (opr 4c). Uma
caricatura anti-semita do Conselho Superior teria out ra aparência.
54  Pedro seguira-o de longe até ao interior do pátio do sumo sacerdote, como se o incomodassem
suas palavras grandiosas do v. 29, de que ele certamente se comportaria diferente dos seus
companheiros. No momento da prisão ele já se arriscara perigosamente (v. 47). Ele ainda não queria
admitir sua derrota. Só que seguir a Cristo “de longe”, para não ser descoberto, não é algo autêntico.
A seqüência torna isto evidente. E estava assentado entre os serventuários, aquentando-se ao
fogo. Este “entre”, que com freqüência servia para identificar as pessoas (cf. 3.14), desta vez ligou
Pedro aos perseguidores do seu Senhor.
55,56  Marcos retoma a narrativa do v. 53. E os principais sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam
algum testemunho contra Jesus para o condenar à morte e não achavam. Pois muitos
testemunhavam falsamente contra Jesus, mas os depoimentos não eram coerentes.  A “procura”
de 12.12; 14.1,11 ainda não chegara totalmente ao seu objetivo. Como conseguir a execução, se lhes
faltava a jurisdição sobre a pena capital (opr 4 a 15.1 -5)? A compilação das provas logo os deixou em
apuros. Por um lado era fácil conseguir razões para acusá-lo, que isoladas ou em conjunto mereciam
a morte pela lei judaica: quebra do sábado (2.23-28; 3.1-6), alegação de perdoar pecados (2.7),
quebra do jejum e das prescrições sobre alimentos (2.18; 7.19), feitiçaria (3.22), ataques às leis sobre
o casamento (10.9) etc. Tudo isto, porém, nunca obteria a atenção do governador, que eles
precisavam conseguir. Para ele estas coisas não passariam de querelas internas dos judeus (Jo 18.31;
cf. At 25.19). Era preciso arranjar algo que pudesse ser explorado politicamente. As coisas que iam
aparecendo não resistiam à investigação regulamentar quanto a ano, mês, semana, dia, hora e local.
Como Caifás dirigia o processo com correção (segundo Dt 19.15) e obviamente não trabalhava com
testemunhas preparadas – elas teriam funcionado melhor! – o processo ficou emperrado.
57,58  Entre as acusações fracassadas, Marcos escolhe a que foi o ponto culminante e também estava
relacionada com a condenação à morte que seguiu.  E, levantando-se alguns, testificavam
falsamente, dizendo: Nós o ouvimos declarar: Eu destruirei este santuário edificado por mãos
humanas e, em três dias, construirei outro, não por mãos humanas.  Assim, a grande investida de
Jesus contra o empreendimento do templo em 11.15–12.12 tornou-se o motivo histórico decisivo
para o fim de Jesus, e até a hora da sua morte foi lembrado como tal (15.29-32,38). Naturalmente
uma grande distorção se instalou. O Jesus pacifista (v. 49) supostamente teria planejado uma
conspiração, um atentado militar contra o santuário de Jerusalém: “Eu destruirei!”
Esta acusação era explosiva por um motivo duplo. Em primeiro lugar, na Antigüidade a
profanação de templos era em termos gerais um dos delitos mais monstruosos. Jr 26.8s deixa entrever
um pouco disto. A primeira referência à pena da crucificação na Palestina data de 519 a.C. e está
vinculada significativamente à resistência contra a construção do templo (Ed 6.6-12). Estes critérios
também eram reconhecidos pelos romanos, interessados na paz e na ordem. Edifícios de culto
estavam sob a proteção do estado. Além disso, na palavra de Jesus sobre o templo também havia uma
reivindicação messiânica. Aquele que “constrói uma casa ao Senhor” é, de acordo com 2Sm 7.13, o
filho de Davi prometido. Documentos judaicos (em Pesch II, p 435) também expressam a esperança
de que o rei escatológico erigiria um templo eterno em Jerusalém, sendo que, aliás, se pressupõe que
são inimigos os que derrubam o templo antigo (cf. também Ez 40–44).
O santuário herodiano levou décadas para ficar pronto (Jo 2.20; a inauguração final aconteceu
somente no ano 63, sete anos, portanto, antes de ser destruído! (cf.  Borse, EWNT II, 1125). Jesus,
porém, queria edificar o novo templo no tempo milagroso de “três dias”. Aqui transparece a
confissão da igreja do tempo do fim em Os 6.2 e, especialmente, a mensagem de Jesus quanto à
ressurreição em 8.31; 9.31; 10.34. Nela, o  próprio Jesus era a pedra de construção rejeitada e
despedaçada (12.10), que no terceiro dia se torna, pela poderosa mão de Deus, a pedra angular de
uma nova moradia divina e a serviço de um novo culto a Deus (cf. Mt 16.17s). Os primeiros cristãos
compreenderam esta palavra e a desenvolveram eclesiologicamente (1Pe 2.4-10; Ef 2.19-22; 1Co
3.16; 6.19; 2Co 6.16). Os judeus, naturalmente, entenderam tudo errado e também desenvolveram
errado.
Em todo caso, eles compreenderam a reivindicação espantosa de Jesus de ser o rei messiânico. A
pergunta de Caifás no v. 61 comprova isto. Aqui ele sentiu que tinha material palpável em mãos para
entregar o caso a Pilatos. Também foi por esta razão que ele se concentrou adiante neste ponto, pois
“todo aquele que se faz rei é contra César” (Jo 19.12).
59  Nem assim o testemunho deles era coerente. Lucas deixou fora este infrutífero interrogatório de
testemunhas, mesmo sabendo que ele aconteceu (22.71), pois, de acordo com todos os evangelhos,
Jesus morreu por causa do seu próprio testemunho. Se ele tivesse negado as acusações, teria de ser
libertado. Apesar disso, a coleta de provas que não deu em nada provou a inocência de Jesus. Contra
ele simplesmente não se “achou” nada (v. 55). Os juízes tinham diante de si este r osto inabalado,
silente e, ao mesmo tempo, tão eloqüente: “Quem dentre vós me convence de pecado?” (Jo 8.46).
60  Levantando-se o sumo sacerdote, no meio, perguntou a Jesus: Nada respondes ao que estes
depõem contra ti? Caifás estava sentado emoldurado pelo semicírculo dos membros do Conselho
Superior. Na frente do grupo sentado, no meio, o acusado ficava de pé. Ali também se apresentavam
as testemunhas (Bill. I, 1005). No momento em que o sumo sacerdote se levantou e foi até o meio
onde Jesus estava, de acordo com o cerimonial todos os membros do Conselho se puseram de pé ao
mesmo tempo. Assim começava a “intimidação” prevista no processo judicial (Stauffer, Jesus, p 93),
a tentativa de impressionar o acusado com encenações.
61  Jesus, porém, deixou o dignitário parado com dignidade vazia:  Ele, porém, guardou silêncio e
nada respondeu. Será que Jesus ficou em silêncio, aqui e em 15.5, para não dar nenhum pretexto?
Todavia, de acordo com o v. 62 e 15.2, ele não tinha nenhuma intenção de salvar a sua pele. Ele
estava disposto a “sofrer segundo a vontade de Deus” (1Pe 4.19). Certamente os comentários
lembram com razão de Is 53.7: “Ele não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro; e, como
ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (cf. Sl 39.10; 38.14-16). A
perspectiva que orienta seu silêncio evidentemente é seu “sim” para o sofrimento, assim como de
repente orienta o que ele diz. Quando a pergunta certa é feita, esta boca se abre prontamente
(diferente de Rienecker, Matthäus, p 350).
Tornou a interrogá-lo o sumo sacerdote e lhe disse: És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?
A pergunta nos mostra o que estava em jogo na palavra sobre a destruição e reconstrução do templo:
a reivindicação messiânica, baseada em 2Sm 7.14, ligada à alegação de uma proximidade singular
com Deus. “Bendito” era uma maneira que os judeus freqüentemente usavam para se referir a Deus.
“Filho de Deus” era um dos nomes do Messias (Bill. III, 19ss; Hengel, Sohn Gottes, p 71; Steichele,
p 296ss).
62  Neste momento, Jesus, em meio às testemunhas falsas, se revela como “a testemunha fiel e
verdadeira”: Jesus respondeu: Eu (o) sou. Por esta identificação própria, de certa forma, o livro
todo esperava (cf. qi 8c). Por que Jesus se recusou a dar a  resposta aos homens do Conselho Superior
p ex em 11.27-33, e só a deu agora, quando ela provocaria a sua morte? Esta é a solução do mistério:
exatamente porque agora ela resultaria inapelável e inquestionavelmente na sua morte. Para Jesus
havia neste mundo um lugar bem específico para o título de “rei messiânico” (= Cristo), que é
pregado na cruz (15.26). Ali ele podia ostentar-se de longe, e todos podiam tomar conhecimento dele.
Deste modo, nada seria mal-entendido. Esta morte na cruz, com seu conteúdo profundo, definiu com
exatidão o Messias de Deus.
Os primeiros cristãos entenderam esta lição, e rejeitaram uma euforia geral por Jesus e
anunciaram-no como Messias, “e este crucificado” (1Co 2.2). Neste sentido é que “Cristo” se tornou
o título de majestade mais comum do nosso Senhor, praticamente seu nome próprio. Igualmente o
título de Filho do v. 61 recebeu seu conteúdo pleno exatamente quando Jesus estava pendurado no
madeiro: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!” (15.39).
A cruz, porém, não fica sozinha. Com inspiração profética (cf. 13.11) Jesus continua:  E vereis!
Este começo em si já lembra os leitores da Bíblia de Ap 1.7: “Eis que vem com as nuvens, e todo
olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão  sobre ele.” Assim
seus inimigos são apanhados. Quem não quer ouvir, precisa ver (cf. Ap 11.11).
O que eles verão? O Filho do Homem. Com isso junta-se a Messias e Filho de Deus o terceiro
título central do nosso livro. Os três se unem nesta passagem decisiva e se esclarecem uns aos outros.
Jesus estava falando adiante de si como Messias, pois a referência ao Filho do Homem lembra de Dn
7.13, a passagem sobre o Messias mais forte do AT (cf. opr 4 a 8.31-33). Preste atenção nos tempos
dos verbos: ele é o Messias marcado pelo sofrimento e aparecerá como o Filho do Homem
majestoso. Importante é que a majestade se refere ao humilhado. É que a majestade aqui não é pompa
e futilidade da corte. Antes, ela é devida àquele que se deixou arrastar totalmente pela paixão de
Deus para a humanidade perdida, que o levou à cruz.
Este Filho do Homem eles verão assentado à direita do Todo-Poderoso,  lit. do poder (Bill. I,
1006s). A referência aqui não é ao Sl 110.1, como mostra uma leitura mais atenta, pois lá ainda se
trata do convite para tomar assento. No judaísmo  era freqüente falar da direita de Deus, com o
sentido de reabilitar o mártir (Berger, p 122ss; cf. Mc 10.37-40). Com isso os pensamentos de Jesus
ainda estão na sua morte iminente. Poder-se-ia parafrasear assim as suas palavras: Vocês, que me
vêem neste momento como o candidato à morte abandonado por Deus e condenado, experimentarão
minha justificação por Deus: e vindo com as nuvens do céu. As nuvens são aqui a vestimenta
divina. Elas indicam a comunhão com o Altíssimo (cf. 13.26n).
Esta declaração anunciou aos juízes terrenos sua própria acusação e condenação. Assim Jesus, em
Espírito, predisse uma troca incrível de lugares: o condenado é juiz, os juízes são culpados.
63  Neste instante o sumo sacerdote, que estava de pé na frente de Jesus, agarrou a gola da sua veste e
rasgou o tecido com força, no comprimento de uma mão (Blinzler, p 161, nota 71), deixando uma
parte do peito exposta. Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes e disse: Que mais
necessidade temos de testemunhas? Desta maneira ele demonstrou sua lealdade à lei, pois um
homem religioso não podia ouvir uma blasfêmia sem este gesto de horror (Bill. I, 1007; 2Rs 18.37 –
19.1). Ou ele fez o gesto representando a todos, ou os demais senhores seguiram o seu exemplo.
Unânimes eles declaram o posicionamento de Jesus como blasfêmia. Com isto eles interromperam a
busca por mais testemunhas. O acusado incriminara a si mesmo diante de todos.
64  Ouvistes a blasfêmia. Sobre o conceito de blasfêmia, cf. 2.7. Este não incluía a pretensão
messiânica como tal. No século  I houve vários destes casos (cf. 15.2), sem que houvesse uma reação
como com Jesus. Se Jesus tivesse somente dito “sim” à pergunta do v. 61, como fez a princípio, ele
poderia temer o imperador, mas não a condenação religiosa. Mas como ele continuou e ao mesmo
tempo reivindicou a majestade celestial do Filho do Homem e juiz do universo, ele horrorizou seus
ouvintes: O que este homem sem poder estava tentando fazer? Frivolamente, “sendo tu homem, te
fazes Deus a ti mesmo” (Jo 8.53; 10.33)
Sob esta impressão forte, Caifás pediu os votos de todos: Que vos parece? A sentença é
pronunciada ordenadamente: E todos o julgaram réu de morte. Assim, o processo não produzira
somente o motivo para uma crucificação pelos romanos, mas também para  um apedrejamento pelos
judeus (Lv 24.10ss).
65  Puseram-se alguns a cuspir nele. Os intérpretes têm dito que esta manifestação dos membros do
Conselho, que preservaram a dignidade da Casa durante todo o processo, não é um dado histórico
(Marti, p 328). Será que esta noção não é muito moderna? Talvez eles fizeram um gesto de desprezo,
que estava plenamente no âmbito legal (cf. Dt 25.9). Da pena de morte também fazia parte a
aniquilação moral (cf. 8.31). Igualmente era preciso demonstrar que a sentença era legítima. De
acordo com Is 11.2-4, esperava-se que o Messias tivesse o dom da profecia (Blinzler, p 188). A
cobrir-lhe o rosto, a dar-lhe murros e a dizer-lhe: Profetiza! Jesus, porém, passou no teste à sua
maneira e cumpriu Is 53.6.
Então ele foi empurrado para fora, para que a reunião fosse encerrada sem a sua presença (15.1).
E os guardas o tomaram a bofetadas. Como condenado, Jesus não tinha mais direitos. Quem
quisesse podia descarregar nele suas raivas, e todos quiseram. As cenas de escárnio dur ante a Paixão
foram importantes para a ética dos primeiros cristãos (Rm 12.14; 15.3; 2Co 10.1; 1Ts 1.6; 1Pe 1.19 -24; 4.1).
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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