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98 A negação de Pedro, Mc 14.66-72

A negação de Pedro, Mc 14.66-72
(Mt 26.69-75; Lc 22.56-62; Jo 18.25-27)

66-72 Estando Pedro embaixo no pátio, veio uma das criadas do sumo sacerdote e, vendo a Pedro, que se aquentava, fixou-o e disse: Tu também estavas com Jesus, o Nazareno. Mas ele o negou, dizendo: Não o conheço, nem compreendo o que dizes. E saiu para o alpendre. [E o galo cantou.] E a criada, vendo-o, tornou a dizer aos circunstantes: Este é um deles. Mas ele outra vez o negou. E, pouco depois, os que ali estavam disseram a Pedro: Verdadeiramente, és um deles, porque também tu és galileuEle, porém, começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem de quem falais! E logo cantou o galo pela segunda vez. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes. E, caindo em sidesatou a chorar.

Em relação à tradução
a
aule aqui não se refere a todo o palácio como no v. 54, mas somente ao pátio interno deste, que é
diferente do pátio externo do v. 68.
b
paidiska, na verdade “menina”, mas usado na Bíblia sempre para mulheres da classe servil, muitas
vezes para escravas.
c
Cf Schenk, EWNT I, 373; 8.34n.
d
Com os manuscritos que temos é difícil determinar se esta pequena frase é original ou um acréscimo
posterior. Em termos de conteúdo, ela sublinha como Pedro estava surdo. Somente o galo cantando pela
segunda vez o acorda. Isto não favorece a idéia do acréscimo, pois, em uma época em que Pedro era muito
respeitado como apóstolo de destaque, não se deve esperar que houvesse interesse em incriminá -lo ainda
mais. Detalhes da época sobre o cantar do galo, cf. 14.30n.
e
De acordo com Mt 26.73, foi seu dialeto que o traiu. Também segundo o Talmude os galileus falavam
um aramaico que chamava a atenção (com influência assíria e não babilônia como os moradores da Judéia).
Bill. I, 156s traz exemplos humorísticos de confusões causadas pelos sons guturais dos galileus.
f
anathematizein, amaldiçoar, aqui está sendo objeto, o que levanta a pergunta se Pedro está
amaldiçoando a si mesmo ou a Jesus. A maioria opta pela primeira alternativa (novamente também Pesch II,
p 450). Todavia, como a LXX nunca usa a palavra no sentido de amaldiçoar a si mesmo (Behm, ThWNT I,
357,34) e “não conheço este homem” foi comprovado como maldição em uso entre os judeus (Bill. I, 469;
Mt 7.23; 25.12), Pedro deve ter amaldiçoado o seu Senhor, para provar sua correção. O contraste com  8.29 é
total.
g
Enquanto nos v. 68,70 está arneisthai, encontramos aqui a forma intensiva  abarneisthai, além da
aplicação a Jesus.
h
Lit. “e, lançando-se em cima (epiballein), chorou”. Já os antigos copistas, tradutores e intérpretes
tinham dificuldades com esta expressão estranha. O significado mais provável é “começou (a chorar)”, ou
com sentido semita (Loh, p 332), ou latino (Pesch II, p 451). Outras interpretações, que partem do sentido
transitivo “lançar algo sobre”, precisam completar com algum objeto: Pedro cobriu o rosto com as mãos,
cobriu-se com seu manto, ou voltou seus pensamentos para a predição de Jesus (cf. Balz, EWNT II,  58).
Mateus e Lucas deixaram a expressão fora. Veja também a nota seguinte.
i
O tempo imperfeito descreve a duração ou, pelo menos, o início e a intensidade do choro: bem de
repente uma convulsão de choro tomou conta dele, de modo que Mateus e Lucas dizem que ele chorou
“amargamente”.
Observações preliminares
1. Contexto. O entrelaçamento estreito da tragédia de Pedro com a Paixão de Jesus, que começou já em
8.32 e se agravou em 14.27ss,37,47,54, chega aqui ao seu ponto culminante (cf.  opr 1 a 14.53-65). Ele está a
serviço de uma interpretação especialmente profunda do sofrimento de  Jesus. Jesus morreu pelo grupo dos
doze representado por Pedro, ou seja, pela igreja. Paulo também pode dizer: “Cristo morreu por nós (!)
ímpios” (Rm 5.6), por aqueles que negaram com mais insistência serem ímpios. Pedro tentou com todos os
meios distanciar-se da comunidade dos ímpios (cf. v. 29), até que seus esforços fracassam aqui. No cap. 15
Jesus, então, morre totalmente só – Pedro não morreu com ele – por todos. O estar-com-ele dos discípulos não
vale neste capítulo singular. Durante 54 versículos os discípulos não são mencionados (de 14.72 até 16.7). O
que daí triunfa é o estar-por-nós de Jesus.
2. O Getsêmani como paralelo. A forte ênfase no número três nesta história recorda a forma da história do
Getsêmani (opr 1 a 14.32-42). Agora é Pedro que passa por seu Getsêmani, só que não é aprovado nele porque
“dorme”, isto é, não ora, mas é forte em si mesmo. Por isso a sua história também tem outro desfecho. O
Getsêmani de Jesus começou com pavor e fraqueza e terminou na paz forte de Deus. Pedro começa audacioso
correndo riscos em sua auto-afirmação, e termina na miséria lamentável.
66-68  Estando Pedro embaixo no pátio. Marcos retoma o v. 54, que preparou este momento. Lá
Pedro se arriscara até o pátio interior, de onde evidentemente podia acompanhar a situação. Segundo
Mt 26.58 ele queria “ver o fim”, ou seja, o resultado do processo. Ele ainda não perdera as
esperanças. Será que este, que derrotara professores da lei e saduceus em todos os debates, não
subsistiria também a este embate? Realmente, o interrogatório de testemunhas fracassou, a libertação
parecia em vista. Pedro estava extremamente agitado. Aí a sentença de morte veio assim mesmo, e
Jesus foi trazido para fora, muito maltratado. Conforme Lc 24.20s, foi neste ponto que a fé dos
discípulos desmoronou, e a de Pedro também. Apesar de Jesus ter acabado de liberar a confissão do
Messias no v. 62 com sua declaração pública (diferente de 8.30), este que fora o primeiro a
reconhecê-lo não conseguiu mantê-la nestas circunstâncias. Na verdade, ele negou expressamente,
quando foi solicitado pela empregada ingênua.
Pedro se misturara com os empregados em volta da fogueira, por causa da noite fria de primavera
– o que não deixava de ser perigoso. A luz do fogo, mencionada expressamente no v. 54, permitiu
que seus traços fossem reconhecidos. Veio uma das criadas do sumo sacerdote e, vendo a Pedro,
que se aquentava, fixou-o e disse: Tu também estavas com Jesus, o Nazareno. Reconhecendo-o,
de repente ela lembra de ter visto este homem como um dos seguidores de Jesus. Mas aquilo que para
ela talvez só fosse interessante, para Pedro pareceu perigoso. Mas ele o negou, dizendo: Não o
conheço, nem compreendo o que dizes. Pedro fez uso do recurso de subtrair-se a uma pergunta
indesejada declarando -se ignorante demais para ter de responder. Entretanto, por que não ficou
sentado, já que ela nem o tocou? E saiu, para longe do alcance da luz da fogueira, para fora, para o
alpendre, talvez para o pórtico escuro, que separava o pátio interno da rua. [E o galo cantou.] Esta
meia retirada já foi uma traição inteira. A empregada e o leitor e até a criatura irracional parecia sabê-lo; só Pedro ainda não.
69,70  E a criada, vendo-o, tornou a dizer aos circunstantes: Este é um deles. As mulheres não
gostam de serem feitas de bobas. Ela olhou zangada atrás dele. Não o deixaria escapar tão facilmente.
Mas era vez dos homens tomarem conta da situação. Ela conseguiu envolvê-los. Mas ele outra vez o
negou. Com isto, seu dialeto chamou a atenção. E, pouco depois, os que ali estavam disseram a
Pedro: Verdadeiramente, és um deles, porque também tu és galileu. O movimento de Jesus
estava em casa na Galiléia e tinha muitos adeptos entre os peregrinos galileus que tinham vindo à
festa (10.46; 11.9). Os galileus eram suspeitos de simpatizarem com Jesus e  – de serem predispostos
para se rebelarem (cf. 1.14). Agora Pedro realmente corria perigo.
71  Ele, porém, começou a praguejar e a jurar. Quando, nos anos 111-113, os cristãos foram
arrastados para a frente dos altares do imperador e obrigados a adorá-lo, seus perseguidores
esperavam deles ao mesmo tempo a negação em relação a Jesus: “Maldito seja Jesus!” Esta era uma
das coisas “que não se consegue obrigar os cristãos verdadeiros a fazer”, escreveu o governador
Plínio na época ao imperador Trajano (cf. 1Co 12.3). Também Bar Cochba, o líder da última revolta
judaica em 132-136, ameaçou os cristãos de morte “se não negassem e blasfemassem  Jesus Cristo”
(em Hengel, Zeloten, p 306). Estes paralelos mostram que Pedro fez direitinho tudo o que o
identificasse como alguém que não é discípulo. Para tanto ele pronunciou a fórmula de negação (veja
nota à tradução): Não conheço esse homem de quem falais! Ele evita visivelmente pronunciar
qualquer nome ou título de Jesus, e fala só de leve ou até com desprezo “desse homem”. Isso
esclarece sua situação, e eles o deixam ir embora.
72  E logo cantou o galo pela segunda vez. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe
dissera: Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes. E, caindo em si, desatou a
chorar. O homem se arrepende na mesma hora. Seu arrependimento também inclui o amor por Jesus
(Jo 21.15-17), pois é este que faz a culpa ser tão insuportável. Como mostram as histórias da Páscoa,
este que negou continua reunido aos discípulos e é novamente levantado parte por parte pelo
ressuscitado. É verdade que aqui ainda predomina o sentimento de condenação. Pela recordação da
predição de Jesus no v. 30 ele se via como que atingido pela guilhotina. Aquilo que ele rejeitara tão
enfaticamente acontecera. Ele buscara o reinado de Deus, mas não do modo como ela agora o
encontrara. Deus é santo, Pedro era carne. Carne e sangue não podem herdar o reinado de Deus (1Co
15.50). Mas isto precisa ser aprendido na prática. Temos de beber este cálice até o fundo, precisamos
“compreender e ver como é mau e amargo abandonar a Deus” (Jr 2.19,  BJ). Pode demorar até
entendermos que não somos capazes de estar com Deus. Mas sem esta percepção não há salvação.
Quando nós chegamos ao fim têm início os começos de Deus, dos quais carecemos.
Para testemunhar esta história de negação, só o próprio Pedro pode ser considerado. Como Paulo
(1Tm 1.13; Fp 3.6), Pedro também confessou na igreja, e não foi só uma vez: eu blasfemei contra
Jesus, mas o Senhor é assim e assim! Este testemunho também faz parte do empenho em fazer Jesus
ser grande na igreja.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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