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99 A entrega de Jesus a Pilatos e sua confissão diante do governador, Mc 15.1-5

A entrega de Jesus a Pilatos e sua confissão diante do governador, Mc 15.1-5
(Mt 27.1,2,11-14; Lc 23.1-5; Jo 18.28-38; cf. Lc 23.9,10,13,14; Jo 19.8-15)

1-5 Logo pela manhã, entraram em conselho os principais sacerdotes com os anciãos, os escribas e todo o Sinédrio; e, amarrando a Jesus, levaram-no e o entregaram a Pilatos. Pilatos o interrogou: És tu o rei dos judeus? Respondeu Jesus: Tu o dizesEntão, os principais sacerdotes o acusavam de muitas cousasTornou Pilatos a interrogá-lo: Nada respondes? Vê quantas acusações te fazem!
Jesus, porém, não respondeu palavra, a ponto de Pilatos muito se admirar.

Em relação à tradução
a
proi, uma indicação de tempo que em 1.35 tem o sentido de “alta madrugada”, portanto antes do
nascer do sol, mas em 16.2 a hora do nascer do sol em si (cf. 16.9; 11.20). De acordo com 13.35 ela abrange
o quarto turno da guarda, das 3 às 6 horas.
b
As variantes levam a traduções diferentes. A versão do NT grego preparada por Metzger traz
symboulion poiesantes como texto predominante e com provas mais antigas. A expressão pode referir-se ao
órgão decisório ou ao resultado da sessão. No primeiro caso (“reuniram-se para discutir”, BV), teríamos aqui
uma nova sessão do Conselho Superior, pela manhã. Os membros do Conselho teriam se espalhado depois
da sessão noturna de 14.53ss e voltado de manhã bem cedo. Olhando com atenção, porém, constatamos que
não se fala disso (contra Schniewind e outros). De acordo com 14.65, eles deixaram Jesus por conta dos
seguranças do pátio interno e ficaram sozinhos. Disto resu lta o sentido “chegaram a uma decisão” (NVI). Este
sentido foi esclarecido ainda mais por copistas antigos, que escreveram  symboulion hetoimasantes: “depois
de terem preparado uma resolução”, para Pilatos, no caso. Esta variante é considerada original por  p ex
Gnilka e Pesch.
c
Pesch entende a resposta de Jesus como uma pergunta (cf. Jo 18.34): “O que dizes?” O resultado seria
que não teríamos nenhuma confissão de Jesus, apesar de também Pesch (p 459) falar de uma confissão
exemplar de Jesus. Portanto, Jo 18.37 provavelmente serve de paralelo aqui.
d
polla pode ser traduzido como adjetivo, como aqui, mas Marcos gosta de usar este termo como
advérbio (cf. 1.45n): “acusavam-no com veemência”.
e
Cf 3.34n; ide é mais forte em Marcos do que idou.
f
posos pode indicar a quantidade de acusações, mas provavelmente aqui quer destacar o peso dos itens
(cf. v. 3).
Observações preliminares
1. Contexto. Este trecho recorda a história do interrogatório em 14.53-65. Assim como lá se menciona oito
vezes o sumo sacerdote, aqui oito vezes é Pilatos. Os dois juízes estavam preconcebidos, mesmo que com
sinal trocado: Caifás considerava Jesus culpado de antemão e somente buscou um pretexto; Pilatos considerou
Jesus inocente e buscou uma saída. Nos dois casos Jesus foi “entregue”, silenciou diante das acusações,
confirmou como “testemunha fiel”, recebeu a sentença de morte e foi cuspido e escarnecido (aqui no v.  19).
Este paralelo faz com que seja improvável a interpretação de Schweizer (p194), que acha que o trecho até o v.
15 “na verdade só está interessado no silêncio indefeso de Jesus”. O silêncio somente sublinhou sua confissão
do v. 2. O peso deste versículo é que “rei dos judeus” dali em diante é a expressão dominante
(15.9,12,18,26,32).
2. Não é duplicação. Speidel (p 81) conclui do paralelo com o interrogatório por Caifás que originalmente
houve um único interrogatório, diante de Pilatos, que foi duplicado após reflexão dos devotos. Os dois relatos,
porém, têm cada um a sua realidade, da qual dependem os respectivos fatos. Passagens importantes do NT, p
ex Rm 9–11, de outra forma não teriam sentido. Primeiro Israel separou -se do seu Messias, na pessoa dos seus
líderes e também da multidão (15.11-14). Isto não foi inventado, mas era um fato que deu o que pensa r aos
primeiros cristãos. Israel entregou Jesus com todas as letras nas mãos dos pagãos (9.31). De acordo com Hb
13.12, Jesus sofreu “fora da porta”. Isto é mais que uma indicação de lugar, pois indica a expulsão para o
mundo pagão. Os que estavam lá fora, contudo, também o rejeitaram. Caifás entregou Jesus à morte com base
em sua confissão, Pilatos o entregou à morte na cruz. Desta maneira Deus colocou juntos judeus e gentios e os
pôs a todos atrás das grades, para compadecer-se de todos por meio do evangelho (Rm 11.32).
3. Anti-semitismo? Alega-se que já neste relato mais antigo da Paixão predomina uma tendência
apologética. Toda a culpa estaria sendo colocada nos judeus, e Pilatos inocentado. Ele é apresentado quase
simpático, bondoso, mesmo que inseguro. Dormeyer (p 65) é capaz de escrever sobre o v. 5: “O adversário
tornou-se um ajudador”. Com esta apresentação, os primeiros cristãos pretenderiam causar boa impressão às
suas autoridades romanas. Em conseqüência, Pilatos foi, p ex, elevado a santo na igreja etíope (Schmithals, p
670; Grundmann, p 419). Na verdade, porém, Pilatos é responsabilizado duplamente. Apesar de reconhecer a
inocência de Jesus e perceber o jogo dos judeus, ele deixou que Jesus fosse torturado e, no fim, também
crucificado: “Sofreu sob Pôncio Pilatos!” Só quem fez uma leitura superficial pode dizer que este homem
queria defender Jesus. Ele defendeu, isto sim, a sua posição que começara a balançar, até acabar por perdê-la.
O imperador o convocara para este posto difícil na Judéia inquieta porque era um anti-semita inveterado. Logo
depois de assumir o posto, ele mostrou os punhos e, durante os dez anos do seu governo (26-36), alinhou uma
série de chicanas e provocações. Mas ele esticou o arco demais. Como lhe faltavam capacidade de avaliação e
flexibilidade, e sua vontade de destruir e rebaixar o dominou, a ira dos judeus foi aumentando. Queixas sobre
o insuportável em Roma levaram à sua demissão. É no meio desta tensão crescente entre o Conselho Superior
e Pilatos que o processo contra o Senhor precisa ser encaixado. O empenho de Pilatos pela libertação de Jesus
não deve ser creditado à sua simpatia ou humanidade, mas derivou da sua necessidade de corrigir os judeus e
dobrar seu orgulho messiânico. “Ele não tinha a mínima disposição de fazer algo que agradasse a seus súditos
judeus”, escreve Josefo (em Blinzler, p 269). Neste caso ele estava duplamente irritado, porque percebeu que
queriam usá-lo como instrumento para eliminar uma pessoa que não lhes agradava (v.  15; cf. Jo 18.29-31).
4. Condenação à morte. Será que os judeus não podiam executar ninguém, como diz Jo 18.31, ou será que
podiam, conforme Jo 8.1-11 e exemplos do livro dos Atos? A administração inteligente dos romanos deixava
que as províncias subjugadas, entre as quais estava a Judéia da época de Jesus, tivessem suas próprias leis e
sistema judicial. Todavia, é claro que não se podia falar em liberdade total. Em casos de penas de morte, via
de regra a força de ocupação tinha de ser acionada. Os judeus tinham o privilégio de mata r como sacrílego
todo pagão que ultrapassasse a mureta do templo, mas em casos de tentativas de linchamentos os romanos
interferiam (At 22.24; 23.10,23s), sem, contudo, conseguir impedir todos os casos (At 7.54-59). Quando o
Conselho Superior queria obter uma execução, ele primeiro tinha de conduzir um processo dentro das suas
próprias leis, até para respeitar seu conceito próprio, mas também tinha de considerar como o governador
haveria de ser convencido da necessidade da execução. O acusado precisava ser  encaminhado com as provas
correspondentes. Também no caso de Jesus os judeus estavam obrigados à cooperação, e isto resultou na
sucessão de dois interrogatórios diante de instâncias diferentes (Blinzler, p 229 -244; Lohse, ThWNT VII,
866s; Jeremias, Abba, p 139-144; Bill. I, 1026s; II, 571s).
1  Logo pela manhã. Era preciso ter pressa. Os romanos costumavam iniciar as discussões judiciais
logo após o nascer do sol. Nesta hora os membros do Conselho já queriam estar a postos com o
prisioneiro. Uma vez que Jesus estivesse nas mãos do poder secular, não seria mais fácil libertá-lo.
Ao mesmo tempo, tratava-se de um “logo” de Deus (cf. 1.10n). O céu interveio. Sua vontade
cumpriu-se de modo irresistível. Deus se retirou mais um passo do seu Filho: “O entregarão aos
gentios” (Mc 10.33).
A obrigação de ter de entregar Jesus aos romanos para ser executado (opr 4) talvez não lhes tenha
sido tão inconveniente desta vez, pois assim a destruição foi total: o “Filho de Deus” no madeiro da
maldição – excluído da comunidade de Deus! Isto tinha de impressionar os simpatizantes entr e o
povo.
Entretanto, para Pilatos o caso tinha de ser enfeitado politicamente. Uma acusação por blasfêmia
conforme 14.64 não tinha peso com ele, já que os romanos cediam o maior terreno possível em
questões religiosas (Jo 18.31; At 18.15; 23.29; 25.18-20). Por isso Jesus tinha de ser apresentado
como rebelde político (cf. opr 3 a 12.13-17). É claro que uma acusação como esta contra o Senhor
era oca sob qualquer perspectiva (11.1-10; 12.13-17; 14.47-50). Jesus era diferenciado dos zelotes já
pelos inimigos diferentes. Ele não viveu e morreu contra Roma, mas contra o pecado em judeus e
pagãos, e realmente as afirmações judaicas imediatamente despertaram o ceticismo do governador (v.
2,10). Mas ele não podia desprezá-las. Primeiro importava investigá-las. Em seguida, os judeus
tinham outros meios à sua disposição. Tudo isto, até a formulação bem pensada de um texto de
acusação, os membros do conselho tinham de decidir: entraram em conselho (veja nota à tradução).
A liderança inteira era responsável por esta entrega aos pagãos. Marcos relaciona especialmente
nesta altura: os principais sacerdotes com os anciãos, os escribas, para dizer mais uma vez
expressamente: e todo o Sinédrio. Eles se posicionaram coletivamente para fazer a acusação (cf.
8.31). Além disso, todas as informações confirmam que os judeus gostavam de aparecer diante das
autoridades romanas no maior número possível (Stauffer, Jesus, p 97).  E, amarrando a Jesus,
levaram-no e o entregaram a Pilatos. Sobre a pessoa de Pilatos, cf. opr 3, sobre o significado da
sua presença em Jerusalém, cf. opr 2 a 14.1,2. O nome de Pilatos ficou ligado ao cristianismo, como
mostram 1Tm 6.13 e o credo Apostólico. Ele garante que, no evangelho, Deus não nos serviu uma
ideologia para nos deixar sozinhos com ela, mas se v inculou com a história.
2  Diferente do direito judaico, o juiz romano não trabalhava somente com declarações de testemunhas,
mas principalmente com o interrogatório do acusado (Kognitionsverfahren, Pesch II, p 42d; cf. At
25.16). Neste ponto Marcos retoma a história, e só então ficamos sabendo da acusação.  Pilatos o
interrogou. Bornhäuser entende, junto com Schlatter, que Pilatos podia falar grego com Jesus, pois a
Palestina era bilingüe (Leidensgeschichte, p 100). Portanto, o NT grego traz aqui sons originais, não
uma tradução do aramaico, como normalmente. És tu o rei dos judeus? Assim se expressavam os
pagãos (v. 9,12,18,26). Os judeus falavam em “rei de Israel” (v. 32). Nos dois casos “rei” eqüivale a
“Messias” (cf. Lc 23.2). Quanto ao sentido, Pilatos, portanto, perguntou a mesma coisa que Caifás
em 14.61 (com Schweizer, p 194). É claro que a força de ocupação ouve de modo diferente. Ela não
está interessada em blasfêmia, mas na questão da revolta e traição contra Roma. Caso houvesse um
rei judaico, ele teria de ser empossado pelos romanos e ficar dependente deles, como p ex Herodes o
Grande. Senão ele seria um rei contra o imperador, um anti-César.
Hengel (Zeloten, p 297-307) conta naquelas décadas o surgimento de seis ou sete messias
zelóticos. Há comprovação de que alguns se auto-intitulavam “rei dos judeus” (Dormeyer, p 66).
Como reis e destacando sua origem davídica, estes pretendentes ao trono subiam para Jerusalém à
frente de um exército rebelde, vestidos com trajes reais e seguidos por uma  guarda pessoal que lhes
obedecia incondicionalmente. Cabia a Pilatos agora acrescentar o novo caso a este série de rebeliões
que Roma esmagara cada vez brutalmente. Porém o fato de Jesus, desde que fora preso, não dispunha
de nenhum seguidor, tornava esta acusação absurda. Os judeus ofereceram com atrevimento uma
versão a Pilatos que eles mesmos não levavam a sério. Nem por um instante ele acreditou neles, e
estava disposto a estragar o plano deles imediatamente. Irônico, ele se voltou para Jesus? “Você?
Você?”
Para sua surpresa, ele não recebeu em resposta uma torrente oriental de palavras de defesa e
juramento. Respondeu Jesus: Tu o dizes. Do mesmo modo como diante de Caifás, Jesus não negou
diante de Pilatos. Tem sido dito que Jesus não se confessou “rei dos Judeus” com um “sim” direto
(Cullmann, Christologie, p 119,121s; Zahn, Matthäus, p 694). A confirmação parece ainda mais
distante que eo 14.64. Jesus sentiu-se mais empurrado em direção a esta expressão do que se ele a
tivesse escolhido. Mesmo assim, ele deixou que o título fosse aplicado a ele com certa razão, já que
era o próprio Deus, como senhor da situação, que o desafiava para a confissão, através de Pilatos.
Uma confissão não é uma ladainha de verdades à toa, pelas quais ninguém perguntou. É uma
resposta correta a uma pergunta judicial diante do tribunal público, que não está tão interessado em
formulações ideais. Não é sua formulação que tira todas as dúvidas, mas sua situação e a seriedade
das conseqüências. A morte subseqüente era previsível. Isto esclarecia tudo. Seja o que for que “rei
dos judeus” tenha significado para Jesus, pelo menos não era derramar o sangue de outros, mas o seu
próprio pelos outros (10.45; 14.24).
Devemos observar que o Senhor não espiritualizou seu reino apressadamente ou o transferiu para
o além. Ele trouxe o reinado de Deus verdadeiramente para a terra. Ele também não o interiorizou
nos corações, não limitou a mudança do mundo à mudança de atitude. Tudo isto não seria confissão,
mas negação de Deus, a quem pertencem céu e terra e que não renuncia a nenhum palmo da sua
criação. Uma única limitação este rei reconhece: ele não governa como os reis deste mundo,
subjugando e explorando (10.42), mas servindo. Seu trono é a cruz, seu cetro as marcas dos pregos,
seu poder o perdão (2.10).
Portanto, em que consistiu para Pilatos o resultado do interrogatório do acusado? Que este homem
não era um zelote, ele já sabia antes. A impressão a mais consistiu no enigmático, que ainda nos v. 4s
ele não entendera: este acusado não se defendia, mas, com sua atitude, corria diretamente para a
morte. Parecia que ele queria se tornar um “rei dos judeus” crucificado (v. 26).
Os judeus, porém, não desistiam. Eles queriam que Pilatos fizesse o jogo deles. Informações
adicionais tinham de auxilia-lo a ajudar-los a eliminar esta pessoa.  Então, os principais sacerdotes
o acusavam de muitas cousas. Eles o entulharam de acusações de que ele colocava a ordem e a
segurança em perigo. Ele liderara a partir do norte galileu uma onde de revolta contra Jerus além (cf.
Lc 23.2,5,14). Que súditos “fiéis” e “preocupados” com o reino!
4,5  Tornou Pilatos a interrogá-lo: Nada respondes? Vê quantas acusações te fazem! Jesus,
porém, não respondeu palavra, “nem uma palavra”, reforça Mt 27.14. Sem dificuldades ele poderia
ter entrado em detalhes e arrancado a máscara do rosto deles. Debates anteriores trazem exemplos da
sua superioridade. Como, porém, ele não se deixou convencer a dar nenhuma outra declaração, sua
confissão do v. 2 ficou no ar com mais força ainda. Ele é o Servo de Deus de Is 42.1-4, que sofre em
silêncio e aceita o sofrimento pelo mundo (cf. Mt 12.18-21; Sl 38.21; 109.4; Is 53.7 e o que foi dito
sobre o silêncio em 14.61). Ele é o sal da terra, que não faz alarde, a luz do mundo, que ilumina sem
palavras mas com poder. Quem quer morrer deste jeito não ameaça a vida de ninguém.
O que Pilatos entendeu de tudo isso? Em todo caso, só agora ele começou a se interessar pelo
prisioneiro. Desfazer-se deste silêncio dando de ombros, como sendo burrice e fraqueza, isto ele não
podia. Era óbvio que aqui havia uma desistência positiva da defesa própria. Um sopro de algo
totalmente diferente alcançou o romano e o fez estremecer de superstição (Bertram, ThWNT III, 38),
a ponto de Pilatos muito se admirar.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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