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A segunda parábola: Os maus arrendatários da vinha, 21.33-46

A segunda parábola: Os maus arrendatários da vinha, Mt 21.33-46 
(Mc 12.1-12; Lc 20.9-19)

33-46 Atentai noutra parábola. Havia um homem, dono de casa, que plantou uma vinha. Cercou-a 
de uma sebe, construiu nela um lagar, edificou-lhe uma torre, e arrendou-a a uns lavradores. Depois se ausentou do paísAo tempo da colheita, enviou os seus servos aos lavradores para receber os frutos que lhe tocavam. E os lavradores, agarrando os servos, espancaram a um, mataram outro, e a outro apedrejaramEnviou ainda outros servos em maior número; e trataram-nos da mesma sorte. E por último enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: A meu filho respeitarão. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; ora vamos, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança. E agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram. Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? Responderam-lhe: Fará perecer horrivelmente a estes malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhes remetam os frutos nos seus devidos tempos. Perguntou-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor, e é maravilhoso e aos nossos olhos? Portanto vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair, ficará reduzido a pó. Os principais sacerdotes e os fariseus ouvindo estas parábolas, entenderam que era a respeito deles que Jesus falava; e, conquanto buscassem prendê-lo, temeram as multidões, porque estas o consideravam como profeta.

Em relação à tradução
     a
     Na Palestina havia três modalidades de arrendamento: Ou se fixava uma determinada parte da colheita,
ou uma quantia fixa de produtos independente da respectiva colheita, ou uma quantia em dinheiro. A
parábola deixa claro que os arrendatários são pessoas que contrataram a vinha pelo pagamento de um
determinado percentual da colheita. Esses contratos de arrendamento às vezes eram firmados por períodos
muito longos, até como contrato de arrendamento hereditário. A parábola tem em mente um caso desses,
pois assim compreendemos que podia surgir entre os arrendatários a esperança de que a vinha viesse a ser
transferida à propriedade deles. Às vezes ocorriam dificuldades de relacionamento de proprietários e
arrendatários, sobretudo quando o valor do pagamento perfazia uma parte da colheita, porque um mau
manejo da área também revertia em prejuízo para o proprietário. Desde Is 5 a relação entre proprietário e
arrendatário foi usado em Israel como parábola para a relação de Deus com o seu povo.
     b
     A atitude para com o arrendatário ocorre em parábolas judaicas, mais precisamente quando se fala de
um rei que manda recolher tributos numa província rebelde. No conteúdo, essas parábolas são iguais à nossa.
Também elas identificam os mensageiros com os profetas, e o proprietário com Deus. Por usar imagens
comuns da época, o significado da nossa parábola era singularmente plausível para os ouvintes.
     c
     Naquele tempo a citação costumava ser atribuída a Abraão ou a Davi. No entanto, posteriormente a
atribuição a Davi ensejava uma interpretação messiânica, que encontramos no tempo de Jesus.
A compreensão dessa parábola é facilitada pelo fato de Jesus utilizar figuras que ocorrem sempre
de novo. Essas figuras constantes são a vinha – o povo de Deus Israel; os servos de Deus – seus
profetas; o Filho de Deus – o Messias; e a colheita – tempo final, juízo. A riqueza dessas figuras
constantes e sua interpretação nos poderiam induzir a entender essa parábola, ao contrário das demais
parábolas de Jesus, como alegoria, i. é, como uma história que pode ser aplicada traço por traço a
uma realidade diferente. Além das imagens constantes citadas, ainda encontramos outros traços que
sugerem essa aplicação, p. ex., a morte dos servos, que reaparece um pouco mais tarde com o
lamento sobre Jerusalém (Mt 23.37) e, acima de tudo, o assassinato do filho, que, sem sombra de
dúvida, deve ser entendido como profecia de sua própria morte. Porém, se quisermos continuar a
interpretar alegoricamente e entender a morte do filho fora da vinha como profecia de que Jesus
morreria diante dos portões de Jerusalém, teremos de nos perguntar se ainda estamos correspondendo
à intenção de Jesus. Em Marcos, o filho é assassinado e depois lançado para fora, sendo essa forma
de mostrar o ultraje extremo que os arrendatários cometem contra ele. Isso seguramente se alinha
com o que Jesus quer dizer, a saber, que o povo ao qual foi enviado lhe inflige o máximo de desonra.
Com a pequena alteração, Mateus talvez faça alusão à forma da morte de Jesus, contudo uma
interpretação alegórica tão específica seguramente não estava na intenção de Jesus. Outros aspectos
fogem totalmente da leitura alegórica, como, p. ex., a descrição da vinha, a viagem do Senhor para
longe, e as ponderações dos viticultores. Por isso, ao interpretarmos a parábola, temos de permanecer
naquilo que também se evidenciou nas demais parábolas de Jesus: há um pensamento essencial na
parábola que deve ser gravado nos ouvintes. Nesse caso a idéia é a relação do povo de Israel (na
pessoa de seus líderes proeminentes) com Jesus e sua reivindicação, que agora aparece com mais
clareza que antes. O que Jesus quer dizer com essa parábola é tão nítido que até os sumo sacerdotes e
fariseus o reconhecem.
Mt 23.37ss afirma em linguagem direta o que aqui se diz por parábola: O povo de Israel, que se
rebelou sempre de novo contra os mensageiros de Deus, justamente através de seus representantes
distintos, está prestes a assassinar aquele que Deus lhe enviou como seu último emissário, o seu filho
amado. A conseqüência é a condenação de Israel e a escolha de um novo povo da aliança. Esse
pensamento já fora proferido diversas vezes por Jesus como advertência ao povo judeu. Mas jamais
Jesus havia identificado com tanta clareza a si próprio como o Filho de Deus (Marcos usa a
designação “Filho amado”, como na história da transfiguração). Novamente podemos entender a
agudeza extrema com que está sendo formulada a declaração de Jesus apenas a partir da situação em
que Jesus profere a parábola. A situação é de decisão, pouco antes dele ser preso. Agora não é mais
possível esquivar-se, mas somente admitir essa reivindicação dele. Ou se dá a meia volta na última
hora, ou se rejeita radicalmente a Jesus, com o que se cumprirá a profecia contida na parábola.
A história que Jesus narra nessa parábola contém um aspecto que ultrapassa toda vileza humana.
Nenhum viticultor se portará dessa maneira, ainda que as dificuldades com o proprietário da vinha
escalassem para um contraste desses. A história não foi tirada da vida real. É que na vida diária isso
não ocorre. A história está antes determinada e configurada a partir daquilo que Jesus quer dizer.
Justamente o seu caráter de impossibilidade aponta para o absurdo do comportamento dos fariseus e
sumo sacerdotes. Diante da interpelação que Deus lhes dirige pelo envio de seu Filho eles se portam
no seu agir de tal modo como jamais procederiam na vida normal e como nenhuma pessoa normal
procede. Mostrando-lhes assim a irracionalidade de sua atitude, Jesus documenta a incredulidade
como tolice, como já fez o Sl 14.1 e como Paulo expressou claramente em 1Co 1.18ss; 3.19. A
incredulidade não é apenas desobediência, pecado, mas constitui ao mesmo tempo uma tolice
tamanha que uma pessoa na vida diária jamais cometeria.
De forma idêntica, é incompreensível para conceitos humanos a atitude de Deus, que, com
bondade infinita, vai em busca de nós, seres humanos. Deus age como nenhum proprietário agiria em
relação a seus arrendatários. Busca a pessoa com uma longanimidade que não existe na face da terra.
Não obstante, também essa paciência tem um limite, também diante dela existe um “tarde demais”.
Portanto, essa parábola constitui uma última oferta de Jesus, ligada à advertência de que é realmente
a última, depois da qual segue a punição implacável, caso for rejeitada.
A parábola encerra com duas palavras. A primeira é uma citação da Escritura, que expõe mais
uma vez o sentido da parábola. A segunda contém uma afirmação em que Jesus confessa a sua
dignidade. Pois o Sl 118.22 (do qual já fora retirado o hosana com o qual Jesus foi saudado quando
entrou em Jerusalém) já recebia interpretação messiânica em Jerusalém. Eu sou essa pedra angular
que sustenta a construção do templo, diz Jesus ao atribuir-se essa palavra. A pedra angular
provavelmente não é a pedra fundamental, mas sim a pedra final no arco da porta, que dá coesão à
construção toda. Essa imagem foi usada pelos apóstolos e aparece com freqüência (cf. 1Pe 2.6-8. A
partir do texto original, a palavra “pedra angular” pode ser traduzida tanto como pedra fundamental,
quanto como pedra angular ou pedra final. Veja comentário específico).
A segunda palavra não foi transmitida incólume em nosso texto. O mesmo grupo de manuscritos
em que já constatamos diversas variantes (o Códice D, as traduções velha latina e siríaca) a omitem.
Contudo, está claramente registrada em Lucas e fornece uma explicação do termo “escândalo”. Os
fariseus se escandalizam com Jesus porque ele não corresponde ao ideal do Messias que eles
construíram para si. Esse escandalizar-se, porém, acarretará para eles a terrível circunstância de que,
por causa disso, perecerão.
Os fariseus se dão conta de que não somente essa parábola, mas também a anterior (talvez até se
pense em mais), apontam para eles, que são os interpelados. Com isso foi dado um grande passo para
frente, p. ex., em comparação com Mt 13.10ss. Quando a pessoa descobre que está sendo endereçada,
na verdade reconheceu que Deus está falando com ela. Nesse momento está aberto o caminho para
uma decisão. Sempre é obra de Deus que isso possa acontecer, assim como está sendo nesta parábola
a intenção proposital de Jesus. Entretanto, como é diferente a reação dos fariseus da de Davi, p. ex.,
quando lhe foi dito: “Tu és o homem” (2Sm 12.7)! Diante da palavra de Deus, porém, há somente
essas duas possibilidades: a submissão humilde, a meia volta, ou a revolta, que leva a crucificar o
Senhor.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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