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A terceira parábola: Os talentos dados em custódia, Mt 25.14-30

A terceira parábola: Os talentos dados em custódia, Mt 25.14-30
(Lc 19.12-27; Mc 13.34)

14-30 Pois será como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes confiou   
os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada um segundo a sua própria 
capacidade; e então partiu. O que recebera cinco talentos saiu imediatamente a negociar com eles e ganhou outros cinco. Do mesmo modo o que recebera dois, ganhou outros dois. Mas o que recebera um, saindo, abriu uma cova e escondeu o dinheiro do seu senhor. Depois de muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles. Então, aproximando-se o que recebera cinco talentos, entregou outros cinco, dizendo: Senhor, confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que ganhei. Disse-lhe o senhor: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei: Entra no gozo do teu senhor. E, aproximando-se também o que recebera dois talentos, disse: Senhor, dois talentos me confiaste. Aqui tens outros dois que ganhei.
Disse-lhe o senhor: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei: Entra no gozo do teu senhor. Chegando, por fim, o que recebera um talento, disse: Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste, e ajuntas onde não espalhaste, receoso, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondeu-lhe, porém, o senhor: Servo mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros, e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu. Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez. Porque a todo o que tem, se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. E o servo inútil lançai-o para fora, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes.

Enquanto o Senhor geralmente usou, nas suas parábolas, imagens da vida do campo, dos artesãos
e da família, na presente parábola ele tomou acontecimentos do sistema financeiro e bancário.
Naquele tempo, o sistema monetário e bancário era um assunto da cidade. Mesmo que os ouvintes do
Senhor não possuíssem pessoalmente tamanhas somas em dinheiro, eles tinham conhecimento do
sistema bancário. Sabiam também que, tendo muito dinheiro, pode-se rapidamente ganhar muito
mais dinheiro através de hábeis especulações. Na Antigüidade os juros eram elevados. Talvez os
servos eficientes tenham agido eles próprios como banqueiros, emprestando o dinheiro a altos juros e
realizando grandes negócios com ele.
Pelo que se constata, é indiferente para o Senhor selecionar uma vez sua ilustração de um co ntexto
de que no geral lhe permanecia distante, como faz nessa parábola dos talentos dados em custódia.
Dediquemo-nos à interpretação da parábola. Novamente é uma parábola muito séria. É a terceira
na série de seus discursos de despedida aos discípulos no evangelho de Mateus. Essa terceira
parábola mostra uma vez mais aos discípulos quem a volta de Cristo exalta e quem ela expulsa!  – A
mais elevada promessa está lado a lado com o mais sério julgamento. Por amor ao mais sublime e
glorioso futuro, em direção do qual o cristão renascido pode caminhar, ou seja, em direção da volta
do Senhor, cabe-lhe não tratar levianamente o presente em que se encontra. Diante da expectativa
pelo Senhor que retorna, o cristão não deve esquecer-se de permanecer fiel nas coisas pequenas e
cotidianas! O sentido dessa parábola do Senhor é dizê-lo de forma nova e iluminá-lo com seriedade.
Na parábola, o homem que viaja para longe confia seus bens a três servos: ao primeiro cinco
talentos, ao segundo dois e ao terceiro um talento. Um talento é uma unidade de peso de
aproximadamente 35 kg, em moedas ou barras de ouro ou prata. O  senhor da parábola fica ausente
por longo tempo. Faz com que esperem por ele. Não sabem quando ele retornará. Com ênfase
especial é dito: Depois de muito tempo o senhor voltou (v. 19). Então o senhor julga o trabalho de
seus servos. O primeiro servo duplicou os seus talentos, o segundo da mesma forma. O terceiro servo
nada perdeu, mas tampouco conquistou algo. Logo, não trabalhou. Para os dois servos que
trabalharam, a sentença do senhor é a mesma. Eles entram  para a alegria do senhor. A sentença do
senhor sobre o terceiro servo é arrasadora. Assim transcorre, em breves traços, a parábola.
Aplicação em poucas palavras: Não é suficiente esperar pela volta do Senhor e pelo juízo. Pelo
contrário, o cristão precisa aproveitar o tempo da vida na terra para trabalhar e agir com as dádivas
que lhe foram presenteadas. O Senhor espera fidelidade de cada um de nós, até que ele venha.
“Negociai até a minha volta!” (Lc 19.13).
Em síntese, é esse o pensamento fundamental da interpretação. Agora o detalhamento: O número
diferente dos talentos aponta para as diferentes disposições, capacidades e dons dos servos. Não os
dons como tais são importantes, e sim como o os servos valorizaram e aproveitaram esses dons.
O Senhor não exige o mesmo de todos. A um confiou mais, a outro menos! Não seria isso injusto
por parte do doador? Não! Porque nesta parábola não se destacam propriamente os  dons como
primordiais e essenciais, mas o uso e a valorização destes dons. Nisto o Senhor é justo, totalmente
justo! O Senhor não confia mais na mão de alguém do que ele pode realizar. Não é a diferença
existente entre os dois primeiros servos que importa, e sim o contraste em que o terceiro se enco ntra
frente aos dois primeiros.
Portanto, não pode haver uma injustiça por parte do Senhor e Deus que dá e presenteia! Pois no
centro do relato não está a dádiva como tal, e sim a fidelidade com que as dádivas são administradas
e, precisamente, utilizadas em sua honra.
A que se referem os talentos e dons que recebemos de Deus? Acreditamos que eles se referem a
tudo o que recebemos de Deus como dádivas naturais e sobrenaturais. Como dádivas naturais
consideramos: a dádiva de um corpo saudável e das forças e capacidades com ele relacionadas, de
podermos pensar, sentir e querer (cf. o primeiro artigo do Credo). Além disso é preciso mencionar as
bênçãos de uma boa educação, uma escola adequada, uma vida profissional que nos sustenta, um
sistema de estado de direito, enfim, tudo o que foi listado por Lutero na explicação da quarta petição
do Pai Nosso. Isso é boa dádiva presenteada por Deus, por cuja administração fiel somos
responsáveis perante o supremo Senhor e Juiz! Todas estas dádivas não possuem valor próprio e não
servem a um fim em si mesmas, mas são meios para comprovar e demonstrar a vida de fé por meio
da fidelidade nas menores coisas!
A princípio seja dito com clareza: O compromisso do fiel perante as dádivas e condições naturais
deve comprovar-se no cotidiano.
Abordamos agora os dons sobrenaturais! Pois quem crê não apenas está situado nas contingências
de vida terrenas, não apenas se relaciona com as dádivas e condições naturais, mas também com as
dádivas e condições do Espírito de Deus. A que se referem essas últimas?
É a dádiva do próprio Espírito Santo, que foi presenteada ao crente na hora do renascimento; em
seguida a palavra de nosso Deus e as descobertas que ela traz consigo; depois a oração; todas as
valiosas bênçãos de Deus com bens celestiais, a graciosa direção diária e disciplina por parte do Pai,
sofrimentos e tribulações – tudo, tudo é dádiva sobrenatural que nos impôs um  compromisso. Tudo,
porém, não deve ser visto como dado aos discípulos para uso particular, e sim considerado em
combinação com o sagrado compromisso de servir. Jesus adverte que um discípulo de modo algum
pode se limitar a preservar e mover no seu coração os bens da salvação eterna (por mais importante
que isso possa ser enquanto primeira prioridade). Antes, ele deve passar adiante a medida de
conhecimento que lhe foi dada, multiplicá-la e trabalhar com ela, até que o Senhor venha. Quem
segura para si próprio os bens de salvação que recebeu, usando -os tão somente para a sua edificação
e satisfação, não procede de acordo com a vontade do Senhor.  – Não foi para esse fim que o Senhor
lhe concedeu estes bens de salvação, as bênçãos, fortalecimentos e refrigérios  do alto, para que neles
obtivesse suficiência para sua pessoa (para isso foram dados, a princípio, também), mas a fé e o
consolo visam ativar-se no amor (Gl 5.6). Um discípulo que pensa somente em si não apenas
prejudica a obra do Senhor, prejudica também a si próprio. Ao servo inútil o “talento”, que ele
cuidadosamente guardou somente para si, é tomado apesar disso.
“Dessa maneira, a fé, o amor e a esperança derretem, quando o discípulo quer admitir como única
tarefa o cultivo egoísta de sua vida espiritual.
“Constitui um engano terrível, em que vivem todas as pessoas individualistas, pensar que estariam
seguras contra quaisquer danos quando se afastam dos outros. A partir de dentro, sua vida espiritual
sucumbe. Inversamente, doar-se a si mesmo aos outros com amor e serviço não desgasta os próprios
bens espirituais, mas justamente os aumenta. Quem vive para os outros afasta de si a doença do
egoísmo piedoso. Cumpre-se, pois, a regra da vida espiritual, resumida na frase:  A todo homem que
tem será dado, mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado [v. 29]. Um seguidor
de Jesus somente tem quando dá, pois nada tem recebido para si pessoalmente. „Quem não dá nada,
dele também será tirado o que possui, porque não dá.‟
“Por mais enfaticamente que nessa parábola seja interpelado o discípulo individualmente, é com a
mesma força que ela se volta contra todo individualismo. O seguidor de Jesus não pode ficar para si.
Ele está destinado à comunhão. Por isso esta parábola trata da comunidade e do seu serviço  ao
mundo” (cf. Michaelis, Es ging ein Säemann, p. 208).
O Senhor diz aos servos fiéis: “Eu os constituirei sobre muito. Venham alegrar-te com seu
Senhor!” “A recompensa dos fiéis é dupla: Muito é confiado em suas mãos, e são convidados para a
alegria do seu Senhor. Continuam sendo seus servos, que ele prosseguirá empregando no que convier
a ele. Para isso, recebem forças mais ricas, uma esfera de poder maior. Cristo não conhece vida
ociosa, nem no reino dos céus. Porque os seus devem participar ativamente do seu governo. No
entanto, não lhes reservou somente a tarefa maior, mas também partilha com eles a sua própria
alegria. Dessa maneira Jesus descreve aos discípulos o que lhes trará o serviço a ele.
“Jesus informa sobre o servo infiel que ele se justifica por ter enterrado o talento na terra com a
alegação de que falhou no serviço por medo do Senhor. No entanto, assim fala somente quem não
tem amor. Quem ama seria capaz de dizer que não quer fazer nada pelo Senhor? Quem ama seria
capaz de criticar o Senhor, dizendo que ele exige demais e seu mandamento é um tormento? Como
haveríamos de ganhar a vida e a glória no retorno de Jesus, se nosso coração está brigando com ele?
O medo que o servo alega não é medo, e sim desprezo descarado do Senhor! Pois constitui uma
mentira desculpar-se com o fardo e o peso do mandamento de fidelidade! O Senhor nunca exige
demais dos seus seguidores!” (Schlatter, Erläuterungen, p. 372).
O Senhor reiterou o que já dissera em Mt 13.12. Lá Jesus declarou por que ele oculta o reino dos
céus para Israel. – Aqui ele diz por que tira o reino do discípulo indisposto para o serviço. O Senhor
sempre procede de acordo com a mesma justiça. Para o seguidor de Cristo vale a mesma justiça que
para o judaísmo. Ela paira com a mesma neutralidade sobre o discípulo como sobre quem não é
cristão. O Senhor não concederá novas dádivas ao que não usa o que recebeu, i. é, que não o
administra fielmente e não trabalha com ele (lembremo -nos do povo de Israel, que não apenas não
usou as dádivas de Deus, mas até abusou delas; a lei – os fariseus). Aquilo que o Senhor
incessantemente concedeu em bens e tesouros celestiais à sua comunidade e ainda continua dando,
isso compromete a comunidade à fidelidade máxima, para o mais sério empenho total sem cessar.
“Caso contrário, venho a ti e, se não te arrependeres, tirarei o teu candeeiro de seu lugar!” (Ap
2.5).
Uma última afirmação seja feita: A parábola dirige-se a cada discípulo, e ainda hoje a cada um
bem pessoalmente. Cada cristão renascido recebeu para si pessoalmente uma tarefa suprema e última.
É a tarefa de deixar-se santificar, de deixar-se transformar passo a passo na imagem do Filho de
Deus! Tornar-se semelhante a ele, esse é o sentido e o alvo de genuinamente seguir a Cristo!
“Por isso o trabalho da vida de cada cristão é aprender a pensar e julgar cada vez mais como
Cristo pensou e julgou. É adquirir cada vez mais a concepção de vida de Cristo em lugar da
egocêntrica que está na nossa natureza. Cabe-nos sentir e querer mais e mais como Cristo sentiu e
quis, para que brilhe cada vez mais clara e pura a imagem de Cristo em nossa vida e nós „cresçamos
em tudo para dentro dele‟ (Ef 4.15). Tudo o que Deus nos deu e nos envia, nossas aptidões e
dificuldades, tudo o que temos de fazer e de sofrer, deve servir a esse alvo, de que cada alma a seu
modo se desenvolva em uma imagem especial de Cristo. Porque a própria santidade de Cristo é tão
grande e abrangente que ela não pode ser retratada integralmente em nenhuma alma humana. Mas
cada pessoa é chamada a configurar em sua vida, segundo a sua característica, um traço singular dele.
Nisto consiste nossa verdadeira tarefa pessoal na vida. E será tão maravilhoso quando, no „lado de
lá‟, todos os que seriamente se deixaram santificar glorificarão, como imagens de Cristo, aq uele de
quem se tornaram semelhantes sem o terem alcançado, ele, o Cristo pleno” (cf. Lauck, p. 86).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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