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A bênção da comunhão - Lc 1.39-45

O anjo do Senhor desapareceu. Maria está parada, intimamente comovida, rica, plena, abrigando
no coração, ou melhor, no ventre materno, o mistério dos mistérios, maior do que tudo o que o
mundo jamais ouviu e viu.
Na grandiosa hora da visitação Maria se rendera e confiara ao agir de Deus. Desde então ela tinha
certeza, pela fé, de que seria mãe. Pela transbordante emoção do coração ela anseia por outro ser
humano ao qual possa contar e comunicar tudo. Maria anseia por comunhão. Verdadeira vida em
Deus busca comunhão. O “eu” busca um “tu” confiável. Quanto mais ela derrama o coração perante
o Senhor, tanto mais repleto ele fica. Ela precisa de alguém ao qual consiga revelar tudo. Em casa, no
entanto, ela está sozinha. As pessoas em seu redor não conseguem entendê-la! Ela não teria nada
além de mal-entendidos e equívocos, e talvez até mesmo escárnio e gozação. Ela não fora acometida
de mudez, como Zacarias, mas na verdade sua situação não era muito melhor! O delicado sentimento
da virgem percebia a ameaça da perspectiva de imprevisível incompreensão e vergonha. Nessa
situação não é bom estar sozinha. A solidão poderia até mesmo se tornar um perigo para ela, tão logo
viessem tempos de tribulação. A comunhão de almas crentes com freqüência é o único remédio para
pessoas atribuladas. Já a solidão muitas vezes é um solo fértil para diversas plantas venenosas da
dúvida e do desânimo.
Contudo, para onde iria, afinal? – Acaso haveria um lugar melhor do que junto de Isabel, à qual o
anjo a remetera com tanta clareza? Pois ela não é apenas sua parenta, não apenas uma mulher de
idade e experiente nos caminhos de Deus, uma amiga maternal de Maria, que talvez não tivesse mais
mãe – mas ela é também alguém que experimentou uma graça similar. Como lhe foi preciosa a dica
do anjo! Ansiosamente volta-se, agora, às montanhas de Judá. Lá ela avista o compartilhar da fé, o
diálogo sobre a fé, o fortalecimento na fé. – Será que ela pressente que existe uma ligação entre
ambas?
Sim, a comunhão dos santos é indescritivelmente preciosa, a maior e mais bela obra dentre todas
as obras que o Espírito Santo realiza na terra, é a coroa de tudo.
39 – Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma 
cidade de Judá.
Circunstâncias extraordinárias demandam caminhos e pressa extraordinários. Não importava que a
viagem até o alvo durasse cinco dias ou mais, não importava se era decoroso ou não, pelos costumes
daquele tempo, que uma moça realizasse uma viagem tão longa a pé: o intenso ímpeto do coração
acelerou apressadamente os passos de Maria e supera todas as dúvidas.
É comovente acompanhar um pouco os pensamentos da virgem durante a viagem. Quem é como
essa eleita? Quem a conhece, quem imagina o que lhe aconteceu? Como sua alma está agitada, cheia
de devoção, cheia de santa reflexão repleta de gratidão e louvor!
Lutero diz: “Teria sido justo que se encomendasse para ela uma carruagem dourada,
acompanhando-a com 4.000 cavalos e alardeando diante da carruagem: aqui viaja a mulher de todas
as mulheres! No entanto, houve somente silêncio acerca de tudo isso. A pobre mocinha vai a pé por
um caminho longo, de mais de trinta quilômetros e não obstante é a mãe de Deus. Não seria de
admirar se todas as montanhas tivessem saltado e dançado de alegr ia.”
A saudação de Maria
40 – Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.
As formulações “entrou” e “saudou” destacam o aspecto solene da hora. Maria entra na casa com
a saudação habitual em Israel: “Paz seja contigo!”, que nos é tão familiar também dos lá bios do
Ressuscitado. O calor e a cordialidade de uma saudação assim é mais do que saudar. Ela é uma
bênção distribuída (Mt 10.12s). Reveste-se de capacidade restauradora, de algo do poder do Príncipe
vitorioso ressuscitado.
Como eram distintas as duas que se saúdam: Maria, a jovem virgem, pouco considerada, da
desprezada Nazaré, enquanto Isabel era a idosa esposa do sacerdote!
Porém, que importa! A unidade no espírito vai além das diferenças da condição social e da idade.
Conseqüentemente, é preciso que também entre aqueles que amam a Deus tais barreiras de separação
caiam por terra. “O irmão, porém, de condição humilde glorie-se na sua dignidade, e o rico, na sua
insignificância” (Tg 1.9s).
41 – Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então, Isabel 
ficou possuída do Espírito Santo.
Nesse instante da saudação de Maria, Isabel ficou “possuída do Espírito Santo”. A santidade do 
Espírito, em que Maria vive, passa para Isabel. Isabel sente de forma nítida e clara: o que está 
acontecendo aqui não é algo natural, mas algo maravilhoso.
A saudação de Isabel
42 – E (Isabel) exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do 
teu ventre!
43 – E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor?
44 – Pois, logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de 
alegria dentro de mim.
45 – Bem-aventurada a que creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas 
da parte do Senhor.
Muito antes de Maria relatar qualquer coisa acerca da revelação maravilhosa que obtivera e do
motivo de sua viagem, Isabel reconhece, pelo Espírito, não apenas que Maria recebeu uma revelação,
mas também que aquilo que lhe fora anunciado já começara a concretizar-se em e com Maria.
Isabel sabe que o fruto de seu corpo também será grande perante o Senhor, porém ela reconhece
com alegria que o fruto do ventre de Maria precisa ser exaltado acima de todas as pessoas
abençoadas. Por essa razão, ela cumprimenta a mui ditosa mãe, Maria, como a mais ditosa, isto é, a
mais abençoada dentre todos os humanos. Isabel, a venerável e idosa peregrina, curva-se
humildemente diante de seu Senhor. Não apenas diante de seu Senhor, mas igualmente diante da mãe
dele, essa serva juvenil e humilde! Depreendemos isso das palavras: “E de onde me provém que me
venha visitar a mãe do meu Senhor?” Com que ausência de inveja ela que, afinal, também é
abençoada consegue alegrar-se com aquela que foi abençoada com graça maior! Cheia de bendita
submissão, ela concede a honra a Maria, como se a mãe de um rei tivesse chegado a um de seus mais
ínfimos súditos.
No reino de Deus é regra que sempre o maior vai ao menor. O Senhor do céu vem ao grão de pó e
habita com ele.
“E serás bem-aventurada, tu que creste”, continua Isabel. Essa é a primeira bem-aventurança
do NT, raiz e soma de todas as subseqüentes. Ao que parece, Isabel pensa com dor na incredulidade
de seu marido, e como o Senhor o puniu por isso. Com que diferença Zacarias havia entrado em casa
naquela ocasião! Em contrapartida, que saudação jovial Maria traz ao chegar agora até ela, como
uma criança feliz. Sim, bem-aventurado aquele que crê! Essa é a norma, a constituição da nova
aliança: “Quem crer será bem-aventurado.”
Essa bem-aventurança da fé vinda de lábios experientes – que fortalecimento da fé ela contém!
Que confirmação e fomento recebe aqui a fé de Maria! Em primeiro lugar há essa maravilhosa
coincidência entre a saudação de Isabel e do anjo. Não parece que Isabel fala como se ela mesma
tivesse estado presente na saudação do anjo? Essa surpreendente semelhança das palavras  – acaso
não estão assinalando que ambos sorvem da mesma fonte, a saber, do Espírito Santo, que
proporciona aos anjos e profetas luz e verdade? E na seqüência – Isabel sabe de tudo, antes que
Maria lhe diga qualquer palavra. O anjo havia falado a Maria acerca de um rei, de algo santo, e até
mesmo do Filho de Deus. Agora Isabel a saúda como mãe de seu Senhor. Que convergência precisa!
5. O louvor de Maria - Lc 1.46-56
O cântico de louvor de Maria, essa “coroação de todos os salmos da velha aliança e
simultaneamente glorioso começo de todo louvor na nova aliança”, é particularmente maravilhoso.
Como o frêmito da tempestade, o Espírito Santo percorre a história das nações e as eras, chamando
ao arrependimento, à fé e ao discipulado. Nascidas da avassaladora experiência da presença de Deus,
as palavras de Maria pairam como um “sim e amém” sobre toda a história precedente do reino de
Deus e iluminam o futuro como uma grande profecia até os tempos mais remotos. Com elas começa
gloriosamente o grande aleluia da nova aliança.
O louvor de Maria dá início aos cânticos de exaltação do NT. – Em Lc 1 e 2 há quatro deles: 1. o
Magnificat (Lc 1.46-55, o cântico de Maria); 2. o Benedictus (Lc 1.68-79, o cântico de Zacarias); 3. o
Gloria in excelsis (Lc 2.14, o cântico dos anjos); 4. o Nunc dimittis (Lc 2.29-32, o cântico de louvor
de Simeão). Na seqüência, o NT ainda traz outros, tanto nos evangelhos quanto nas cartas e no
Apocalipse de João.
Os mensageiros de Deus constantemente empenham-se pela exaltação e adoração a Deus. Dessa
forma já antecipam uma parcela do glorioso alvo da consumação eterna. Porque na eternidade, afinal,
a adoração de Deus Pai, Filho e Espírito Santo (cf. Ap 5) será e prevalecerá incessantemente como
atividade central.
Acrescentemos ainda o seguinte: o Magnificat de Maria é um cântico típico para o fim dos
tempos. Por essa razão, é digno de nota justamente que a maioria das formas esteja   no aoristo, i. é, na
forma verbal do pretérito, embora se trate primordialmente de eventos cujo cumprimento ainda
estava por vir. Isso é característico para a adoração. Porque, como já dissemos, a adoração vê tudo a
partir do desfecho. Paulo também o fez em seus hinos de adoração. Leia-se Rm 8.30, onde consta:
“Aos que justificou, a esses também glorificou!” Apesar de todos os sofrimentos atuais Paulo já vê a
igreja em sua glorificação! E João memorizou a palavra de Jesus: Jesus diz: “Quem crê em mim tem
a vida eterna” [Jo 6.47] desde já, não apenas no passado ou mais tarde!
46 – Então, disse Maria.
No todo, apenas umas poucas palavras de Maria foram conservadas para nós. Além desse louvor e
dos v. 34 e 38 há apenas mais duas palavras, a saber, Lc 2.48 e Jo  2.3,5. Maria parece ter sido uma
daquelas pessoas caladas, discretas, que chamam pouca atenção. Aqui, porém, ela abre bem os
lábios. Quando a graça de Deus leva o coração a transbordar, até mesmo os  calados  falam. O que
Maria expressa é seu mais íntimo patrimônio e santuário. Enche seu coração, impulsiona e move-lhe
a alma. Afinal, a saudação de Isabel não lhe propiciara um tema grandioso?
O salmo de Maria expressa de forma maravilhosa o quanto Maria convivia com a Escritura. A
vida dos fiéis em todos os tempos não era apenas espiritual, mas também bíblica. A Bíblia é a fonte
de sua força, seu amor, seu louvor e gratidão, sua oração e luta (veja Jesus como exemplo). Enfim, é
inquestionável que nas palavras da Bíblia o Espírito Santo tenha encontrado a melho r forma de
expressão de todos os tempos. – Nas palavras da Bíblia o Espírito Santo consegue expressar seus
pensamentos mais profundos da maneira mais fidedigna, verdadeira e precisa. Conseqüentemente, o
cântico de Maria percorre muitas palavras da Bíblia.  O que anteriormente foi entoado por Míriam e
Débora, Ana e Davi, agora repercute em sua alma e converge súbita e involuntariamente em um todo
admirável, no grande aleluia da nova aliança. Maria não teve a intenção de compor salmos, mas tão somente se restaurou e fortaleceu com salmos! E eis que seu próprio íntimo passou a ser um salmo!
Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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