Pessoas que gostam deste blog

A INTRODUÇÃO HISTÓRICA

Agora se cumprem as palavras de Zacarias. Essa época relevante e especial do reino de Deus é
combinada pelo evangelista Lucas com eventos da história universal e intelectual, não apenas para
fixar a data do acontecimento divino, mas também para que essa visão histórica assinale  toda a
miséria e escuridão daquela época. A palavra de Paulo em Rm 5, já citada no início de Lc 2, “onde
abundou o pecado”, também agora volta a causar impacto em nós.
No v. 1 Lucas escreve: No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio
Pilatos governador da Judéia, Herodes, tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe, tetrarca da
região da Ituréia e Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene, [2] sendo sumos sacerdotes Anás
e Caifás, (aconteceu) veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto.
A expressão César Tibério aqui em Lc 3 e o nome César Augusto em Lc 2 lembram que naquele
tempo a Palestina não era um Estado soberano, mas pertencia ao Império Romano. A força de
ocupação que decidia sobre o povo de Israel era o exército ro mano. Tudo o que é relatado no Novo
Testamento acontece no período desse poderio militar romano, cujo ápice estava nas mãos dos
césares romanos. Em Lc 2 era César Augusto (de 31 a. C. até 14 d. C.). Em Lc 3 é César Tibério (14
d. C. até 37 d. C.). O César Tibério é aquele de quem o Salvador afirmou: “Dai a César o que é de
César.” – Era sua efígie que Jesus constatou na moeda que lhe fora mostrada (Lc 20.24s. Veja o
comentário sobre o texto).
Estamos acostumados a encontrar datas precisas em nossas obras historiográficas. Todas essas
referências de anos partem do ano de nascimento de nosso Salvador. E o cálculo é claro e
inequívoco.
Mas na Antigüidade não era assim, e por isso o cálculo não era simples. Os diversos povos, até
mesmo as cidades, tinham seus métodos próprios. Por essa razão a cronologia dos povos antigos é
bastante complexa, e demanda o maior esforço para estabelecer a relação cronológica correta dos
eventos entre si.
Também os historiadores antigos lamentavam essa dificuldade, buscando por um ponto de
referência seguro que pudessem tomar como fundamento para datar os acontecimentos.
A indicação das datas de Lucas não se guia pelo cálculo dos gregos e romanos. Ele indica
simplesmente o tempo de governo do imperador. – Assim todo mundo entendia e sabia a época, i. é,
o ano em que Jesus e João Batista iniciaram sua atividade pública de ensino. Foi o décimo quinto ano
do governo de César Tibério.
Quando nos deparamos com as dificuldades que o cálculo cronológico acarretava no passado, não
há como superestimar a gratidão por nossa contagem atual de acordo com o nascimento de Cristo.
Devemo-la ao abade Dionísio, que atribuiu a si mesmo, por pura modéstia, o cognome Exíguo, i. é, o
menos importante. Esse Dionísio, falecido no ano de 556 d. C., recebeu do papa da época a
incumbência de calcular as datas da festa da Páscoa para uma série de anos. Ao executar essa tarefa
ele foi o primeiro a utilizar a contagem “após a encarnação do Senhor”. Em virtude de seus cálculos,
Dionísio acreditava que Cristo tinha nascido no ano 754 após a fundação de Roma. Estabeleceu
como começo para sua contagem o dia 1º de janeiro daquele ano.
No entanto, equivocou-se ao marcar o nascimento de Cristo para seis anos mais tarde do que
provavelmente aconteceu. Está historicamente confirmado que Herodes faleceu antes da festa de
Páscoa do ano 4 antes de Cristo. Isso foi, portanto, o ano em que o anjo do Senhor se manifestou a
José, no Egito, a fim de comunicar-lhe que haviam morrido “os que atentavam contra a vida do
menino” (Mt 2.19ss). Naquela época o menino deve ter tido cerca de dois anos de idade (Mt 2.16).
Por isso, provavelmente ele nasceu no ano que designamos como seis antes de Cristo. Isso soa
estranho, mas o erro foi cometido por Dionísio. Cronologicamente este erro de cálcu lo não causa
muitos problemas. O que importa é que tenhamos um ponto fixo de referência.
Empenhando-se para ser preciso (Lc 1.3), Lucas fornece sete dados cronológicos para a atuação
pública do Batista.
Sete nomes são citados por Lucas. Cinco nomes representam a autoridade política. Dois nomes
representam a autoridade espiritual em Israel.
Essa referência detalhada de nomes expressa a grande relevância do momento em que se inaugura
a história da salvação no NT. A relação ampla de nomes começa com a citação de César Tibério em
relação ao Império Romano, a área mais abrangente. A menção dos quatro nomes subseqüentes
restringe a área à terra da Palestina, dividida em quatro regiões. Além do César Tibério são  citados
como líderes políticos os quatro seguintes indivíduos: Pôncio Pilatos, Herodes (Antipas), Filipe, seu
irmão, e finalmente Lisânias. Herodes Antipas tinha o título de tetrarca da Galiléia. O irmão de
Herodes Antipas, isto é, Herodes Filipe, também é chamado de tetrarca, mais precisamente da Ituréia
e da região de Traconitis. Lisânias é tetrarca de Abilene.
Os primeiros dois soberanos citados, Herodes Antipas e Herodes Filipe, eram filhos do rei mais
cruel, Herodes o Grande. As coisas terríveis que haviam presenciado no reinado de seu pai pairavam
como uma maldição sobre eles.
Há uma breve menção acerca da história de vida do cruel Herodes o Grande (de 37 a. C. até 4 d.
C.) no Comentário Esperança sobre Mateus, p. 43, nota 2. Quase tudo o que sabemos acerca dele
devemos ao historiador judaico Flávio Josefo, que por seu turno recolheu dados dos escritos perdidos
de Nicolau de Damasco, um funcionário da corte de Herodes.
Dentre todos os filhos dos dez matrimônios que Herodes o Grande havia contraído, Herodes
Antipas era o que mais se assemelhava a seu pai no que dizia respeito à ganância de poder, luxúria e
imoralidade (Cf. Lc 3.19).
Essa catastrófica situação estatal e política, em que o povo eleito de Deus se encontrava sob o
poderio odioso dos herodianos e à mercê da escravidão do domínio dos romanos, fez com que se
manifestasse, como nunca antes, uma esperança política pelo Messias, um grito de libertação e
redenção da ímpia servidão. Esse clamor por libertação era canalizado em diversos cânticos
messiânicos, colocados na boca do antigo rei Salomão e chamados de salmos de Salomão. O mais
famoso cântico messiânico desse poderoso anseio político que se disseminava era o 17º salmo de
Salomão. É preciso ler esse salmo a fim de compreender a poderosa esperança e paixão messiânicas
que eclodiram no povo. Tomemos apenas um verso desse salmo 17: “Senhor, socorre-nos e desperta
um rei, o filho de Davi – ó Deus, para que governe sobre Israel. Cinge-o com vigor, para que ele
destroce os injustos (i. é, ímpios, malditos) dominadores. Purifica Israel dos cães (gentios) que o
esmagam rudemente… Salva-nos da contaminação com os inimigos impuros (sujos)!…”
Além da realidade política opressora e ameaçadora, Lucas marca a deprimente situação religiosa
em Israel por meio dos nomes Anás e Caifás (Caiafás). Quando o evangelista cita dois sumo
sacerdotes, isso também assinala o desgaste do governo religioso, pois, de acordo com a lei, somente
um sumo sacerdote podia exercer o mandato.
A sucessão legítima no sumo sacerdócio já hacia cessado sob o regime de Herodes o Grande e
ainda mais sob o domínio dos romanos. O precursor de Pilatos, Valério Grato, havia deposto o sumo
sacerdote Anás no ano de 15 d. C., para em seguida eleger e expulsar vários novos sumo sacerdotes
ao longo de alguns anos, até que finalmente encontrasse em Caifás (Caiafás, genro de Anás) um
instrumento suficientemente solícito. Ele exerceu o cargo nos anos 18 a 36 d. C. Apesar de tudo, para
o povo e em virtude da lei Anás continuou sendo o verdadeiro sumo sacerdote. – Essa coexistência
de dois sumo sacerdotes foi o começo da dissolução deste cargo tão importante e relevante no AT.  –
A decadência de Israel havia, pois, avançado da realidade política até o coração do povo eleito de
Israel.
Nas trevas do afastamento de Deus e da decadência moral, do desconsolo e da desesperança,
precisamente nos aspectos políticos e religiosos, aparece o personagem do Batista João.
Anunciado maravilhosamente no templo ao sacerdote Zacarias e sua esposa Isabel, concebido em
idade provecta e concedido como um milagre quando humanamente não havia mais nada a esperar e
aguardar, praticamente um notório fruto das orações do casal, João havia crescido naquele grupo de
humildes do qual faziam parte Maria e José, ao qual pertenciam os pastores de Belém, no meio do
qual estavam pessoas como Simeão e Ana.
Provavelmente pouco tempo depois, talvez depois do falecimento de seus idosos pais, João (cujo
nome significa “Deus se compadeceu”) foi impelido ao isolamento e ao deserto. Naquela terra
quente, as cavernas do deserto da Judéia eram refúgios refrescantes, eram sua “habitação”. Seu
alimento consistia de gafanhotos e mel das abelhas silvestres. Ainda hoje às vezes comem-se
gafanhotos. Eles são secados (como também João deve ter feito) e moídos. Como esse pó de
gafanhotos tinha gosto amargo, as pessoas o comiam com mel, particularmente mel dos enxames de
abelhas silvestres. O manto de crina de camelo era para João saia, camisa e cama.
Assim ele vivia de fato em pobreza exterior, mas interiormente rico – das promessas de Deus no
AT – em simplicidade, solidão e completa independência das pessoas. Parecia-se com aquele Elias
do AT, que se tornou homem de Deus porque simplesmente não conseguia ver a miséria de sua
época e tinha de desincumbir-se a qualquer custo da tarefa de Deus para seu povo que sentia dentro
de si. João e Elias eram homens integralmente imbuídos de seu povo e seu tempo, mas que
justamente por amor de seu povo haviam se afastado dele.
Esses mensageiros de Deus totalmente ativos, vivazes, não conseguem presenciar o demonismo da
decadência e da insurreição e manter-se à distância e resignar-se; antes sentem-se interiormente
pressionados e impelidos a comparecer à luta contra os poderes e energias do mal, para contestá -los e
vencê-los. Para isso precisam (e esses mensageiros de Deus sabem disso) da firme e definida vocação
do alto, bem como da força extraordinária do Espírito Santo. Por essa razão também o Espírito é
sempre enfatizado quando se fala de João e Elias. João antecederá a Jesus no  espírito e na força de
Elias (Lc 1.17).

Fonte: Lucas - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por nos visitar! Volte sempre!