Pessoas que gostam deste blog

A pregação de João sobre o batismo de arrependimento – Lc 3.3-6

3 – Ele percorreu toda a circunvizinhança do Jordão, pregando batismo de arrependimento 
para remissão de pecados;
4 – conforme está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: Voz do que clama no 
deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.
5 – Todo vale será aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros; os caminhos tortuosos 
serão retificados, e os escabrosos, aplanados.
6 – E toda carne verá a salvação de Deus.
Depois que “veio uma palavra de Deus” a João, como expusemos acima, ele dirigiu-se a toda a
região do Jordão, a fim de pregar um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados. O
batismo de João caracteriza-se por uma dupla definição.
1) É um batismo de arrependimento (conversão).
2) É um batismo pelo perdão dos pecados.
Ao que foi exposto sobre o batismo de arrependimento nos comentários sobre Mateus (p. 55-58) e
Marcos (p. 49s), acrescentemos ainda o seguinte:
No templo acontecia um culto ricamente organizado e que atendesse todas as necessidades da
consciência. Agora, porém, descortina-se no deserto, bem longe do templo sagrado e da cidade santa,
um lugar no qual se exerce de modo contundente uma ação sobre as consciências, não apenas para
assustá-las, p. ex., mas para fazer com que surja nelas algo novo. Isso aconteceu através do ato do
batismo integral que, da forma como João o exigia e praticava, era completamente desconhecido para
os judeus, não tendo sido prescrito ou anunciado em lugar algum, mas que ainda assim tornou -se a
única passagem para o perdão dos pecados. Enquanto a pregação de arrependimento dos profetas do
AT (em hebraico shub = arrependimento) em geral seguia o seguinte esquema: dêem meia-volta, do
contrário Jerusalém será destruída; dêem meia-volta, do contrário o sacrifício de vocês não serve para
nada; arrependam-se, do contrário o Deus de vocês os rejeitará, a exigência de arrependimento por
parte de João é demandada com outra justificativa:  “O reino de Deus, o senhorio de Deus se
aproximou, o Messias está chegando, o rei está aí!”
O termo “deserto” ou “estepe” (en te éremo) possui um significado especial para Israel. Israel era
sempre lembrado de sua peregrinação de 40 anos pelo deserto, em  duplo sentido.
1) O deserto (estepe) é marcado pela desobediência de Israel (Hb 3.8s; At 7.41ss).
2) O deserto é marcado pela fidelidade e clemência de Deus, pelo fato de que Deus realizou para
seu povo sinais e milagres especiais (At 7.36; 13.18) (maná =  água) e falou de maneira particular (At
7.38 e 44).
A partir dessa recordação surgiu no judaísmo a tendência de atribuir ao deserto (estepe) coisas
especiais (Cf. St.-B., vol. IV, p. 954 e Comentário Esperança, Mateus, p. 57s).
a) O deserto é o local do terror e do pavor, dos juízos de Deus, da morada do diabo. Conforme Lv
16.7-10, no dia da reconciliação enxotava-se um carneiro para o deserto (estepe), a fim de ser
destinado para Azazel [v. 10]. Esse gesto visava demonstrar que o pecado chegara ao local do  terror e
do juízo.
b) O deserto (estepe), no entanto, também é o lugar em que Deus preparou seus profetas, p. ex.,
Moisés, Elias, João Batista, Paulo, etc.
c) No tempo antes da vinda de Cristo, a permanência no deserto (ou o próprio deserto) apontava
para um tempo escatológico messiânico. Formou-se a crença de que o Messias apareceria no deserto.
Essa crença teve conseqüências práticas, por exemplo, o surgimento de movimentos messiânicos
terrenos que gostavam de migrar para o deserto (At 21.38).
“Por isso houve muitos pregadores de cunho messiânico falso antes e depois de João. Mas todos
esses falsos profetas do Messias enveredaram por outros caminhos. Declararam de modo geral os
filhos de Abraão como o primeiro povo da terra. E, para lhes conquistar a onip otência política,
lançavam mão de armas. Diversos deles anunciavam-se como reis. Outros ainda asseveravam que
eram capazes de realizar milagres, ou pelo menos criavam a expectativa nesse sentido. Nenhum
deles, porém, pensava no aprimoramento ético de seus seguidores” (Riciotti).
Em contrapartida, João Batista era totalmente diferente! Soava incomparavelmente dura a sua
pregação de juízo e arrependimento, que, com veemência, remetia nítida e inequivocamente para a
mudança da mentalidade e do coração e para a renovação da vida! Filhos de Abraão também podem
ser talhados em pedra (quanto à seriedade da pregação de João Batista, veja detalhes no Comentário
Esperança, Mateus, p. 55s; Mt 3.1-12; e Marcos 1.1-8).
Sintetizando: o fato, pois, de que João Batista reunia o povo em torno de si no deserto está
relacionado com aquela concepção judaica generalizada daquela época. Contudo, a sua tentativa de
preparar o povo de forma poderosa e insistente para a chegada iminente do Messias era algo novo e
extraordinário. E mais: ele, filho de um sacerdote, não se dirigiu ao templo de Jerusalém, e tampouco
(como mais tarde fizeram Jesus e também Paulo) se apresentou nas sinagogas das comunidades
israelitas. Pelo contrário, João chama-os para longe do templo e para fora de Jerusalém, rumo ao
deserto. Chama-os para si, porque é preciso que comece algo radicalmente novo.
No entanto, não somente o local de proclamação, o deserto (ao contrário do templo e da sinagoga),
nem tampouco a atuação proclamadora de João Batista (o batismo de imersão total em contraposição
a sacrifícios e celebrações do templo), mas igualmente o personagem do pregador e a palavra
pregada representam uma série de características não-sacerdotais  neste filho de sacerdote.
Porém sobre todos esses aspectos “não-sacerdotais” de João e todos os fatos sérios e duros que
aconteciam lá fora no deserto, longe de Jerusalém (era preciso caminhar 40 km por regiões rochosas,
calor e poeira, sob ameaça de assaltantes), não deixava de brilhar, das profundezas do ermo e do
deserto, a glória da salvação, o perdão, i. é, a anulação dos pecados, a alegre notícia de que toda
carne verá a salvação de Deus, de que “Deus se compadeceu”, assim como deve ser interpretado o
próprio nome “João” (Cf. o exposto acima).
Pelo fato de que tudo isso irrompeu com tamanho ímpeto e poder elementar, o filho do sacerdote,
João Batista, é mais que um sacerdote do templo. O filho do sacerdote é “o profeta”! O NT, a nova
aliança, não começa com Jesus de Nazaré, mas com a mensagem do profeta João. Esse é o
testemunho unânime de todos os quatro evangelhos e também de todas as sínteses da mensagem
sobre o testemunho do Cristo que encontramos nas pregações de Atos dos Apóstolos (por favor,
confira ali). A palavra de Jesus em Mt 11.9, onde se diz que ele é mais que um profeta, evidencia,
porém, clara e relevantemente o quanto Jesus situa e honra a João Batista acima dos profetas do AT.
Sim, Jesus até mesmo o chama de maior entre aqueles nascidos de mulher (cf.  Comentário
Esperança, Mt 11.11, p. 189s).
Dessa maneira ficaram manifestas, para ambos os lados, a santidade de Deus e a bondade de Deus,
o juízo de Deus e a clemência de Deus, a majestade de Deus e o favor de Deus, superando o pecado
do povo e dos indivíduos. Deus não dá nada de graça – tudo precisa ser manifesto, vir à luz diante
de sua face. Deus dá tudo de graça. Ele não quer mais saber a respeito daquilo que foi reconhecido e
confessado, trazido à luz, exteriorizado - tudo isso ele deixou atrás de si,  mergulhando-o nas
profundezas do mar. Até aqui nossa síntese.
Os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João constatam que no surgimento de João Batista
cumpriram-se as palavras dos profetas Isaías e Malaquias. Ele precede o Senhor, para lhe preparar
caminho.
O caminho do Senhor fez passar pelo deserto, quando no passado libertou seu povo da escravidão
do Egito.
Pelo fato de que também agora o Senhor deseja chegar a seu povo através do deserto, é preciso
tomar providências para que nada impeça a rapidez daque le que vem e nada turbe a clemência do rei.

Fonte: Lucas - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Online