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A pregação de João sobre o juízo do arrependimento – Lc 3.7-9

7 – Dizia ele, pois, às multidões que saíam para serem batizadas: Raça de víboras, quem vos 
induziu a fugir da ira vindoura?
8 – Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento e não comeceis a dizer entre vós mesmos: 
Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a 
Abraão.
9 – E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz 
bom fruto é cortada e lançada ao fogo.
O relato de Lucas coincide quase textualmente com Mt 3.7-10 (Cf. Comentário Esperança,
Mateus, p. 60ss). Mas, ao contrário de Mateus, Lucas nada diz sobre o grande afluxo de pessoas,
particularmente da parte dos fariseus e saduceus, ao batismo de João. Lucas também não diz nada
sobre o batismo em si, nem tampouco sobre o alimento e a vestimenta do Batista (cf. Mc 1.5s; Mt
3.7). Mateus dirige as palavras de arrependimento acima citadas também aos fariseus e saduceus. De
acordo com Lucas, essas palavras de arrependimento, no entanto, são dirigidas ao povo. Marcos
aponta mais para aqueles que vinham de Jerusalém. – Ainda que em Lucas as camadas dirigentes, a
saber, os fariseus e saduceus, não sejam citados, o espírito predominante da época em todo o povo
não deixa de ser criticado com palavras duras.
Ao que foi dito no Comentário Esperança a Mateus, p. 60ss, sobre raça de víboras e ninho de
serpentes, acrescentemos ainda o seguinte.
É elucidativo e relevante que o texto original use para “cobra” não a palavra grega “ophis”, mais
comum, mas o termo “echidna”. A palavra “echidna” visa salientar especialmente o veneno da cobra.
Temos ojeriza a esse tipo de cobra venenosa, que traz a perdição, e por isso combatemo -la
radicalmente e a matamos (Kittel, Theologisches Wörterbuch, vol. II).
Quando João Batista desmascarou o espírito da época de todo o povo, inclusive dos fariseus e
saduceus (e em Mateus particularmente o modo nocivo de ser dos fariseus), com a expressão “raça de
víboras”, isso incidiu com impacto e agudeza incríveis no âmago da hipocrisia e do fingimento
farisaicos (leia no Comentário Esperança, Mateus, o expo sto sobre Mt 5.17 e Mt 23).
João confrontou a massa do povo com a pergunta: quem lhes havia concedido ensinamento para
fugir da ira iminente? Ele faz uma clara alusão à profecia de Malaquias acerca do grande e terrível
dia do Senhor (Ml 4.1-5). Nisso ele concorda com todos os profetas da velha aliança que
profetizaram a respeito do dia do Senhor (cf. Is 2.12; 13.6,9,13; 34.8-10; Ez 7.7-10; Jl 1.15; 2.1-3;
3.19; Am 5.18; Sf 1.14-16,18; 2.2). Esse dia de juízo prenunciado pelos profetas é, por um lado, o
juízo vindouro no fim dos tempos sobre todos aqueles que têm uma disposição hostil a Deus e seu
povo. Por outro lado, porém, é também um juízo que cai desde já sobre Israel, por meio do
surgimento do Messias, no qual são separados, sem acepção de pessoas, aqueles que crêem em Cristo
e aqueles que não crêem nele. Os contemporâneos de João Batista acreditavam todos, como
expusemos no início com base nos salmos de Salomão, que o Messias julgaria única e
exclusivamente e de modo terrível aos gentios, os gojim, trazendo gloriosa justiça para Israel.
Para precaver-se contra a ira vindoura do Messias, João Batista demanda um verdadeiro e sincero
arrependimento. Devem ser trazidos frutos que demonstrem a autenticidade do arrependimento.
Frutos bons ou dignos comprovam que ocorreu um verdadeiro arrependimento (cf. a esse respeito, o
que foi detalhadamente exposto no Comentário Esperança, Mateus, p. 60-63). Embora os fariseus e
saduceus defendessem opiniões fundamentalmente distintas sobre as coisas divinas, sobre eternida de
e juízo, ambos os partidos eram unânimes em uma questão, a de que tinham orgulho de ser
descendentes do patriarca Abraão. Uma idéia muito disseminada entre esses líderes dos judeus era
que a justiça e o mérito dos pais, particularmente de Abraão, formavam um tesouro do qual os
devotos da nação israelita obtinham a complementação de sua justiça talvez ainda insuficiente, bem
como a expiação de seus pecados. João não considerava as pessoas com esse tipo de opinião como
filhos de Abraão, mas como excrescênc ia de víboras. Sua apelação à descendência física é uma
ilusão carnal e um absurdo. Da mesma forma como João Batista, Jesus também disse aos judeus que
insistiam em sua origem genealógica de Abraão, que seu pai não era Abraão, mas o diabo (Jo 8.44).
Também aquilo que Paulo escreve em Rm 9-11 é igualmente uma nítida refutação desta alegação:
“Temos por pai Abraão.”
João dirige-se com implacável gravidade às “massas populares”. Elas tinham a presunção de que
Deus não sobreviveria sem elas. De certo modo Deus teria obrigações em relação a elas,
assegurando-lhes a beatitude, pois ele o havia prometido por juramento a Abraão e seus
descendentes. Apontando com as mãos para as pedras espalhadas no chão, João assevera que Deus
também é capaz de suscitar dessas pedras do deserto filhos para Abraão (em um antigo hino latino
sobre João, do diácono Paulo, os corações dos gentios são chamados de “pedras duras”. Sob essa
perspectiva a palavra bíblica das pedras do deserto significaria que em lugar dos orgulhosos filhos de
Abraão, que se consideram sumamente superiores sobre os gentios, Deus fará dos gentios ―filhos de
Abraão‖). Paulo desenvolveu plenamente essa passagem bíblica das pedras. No lugar do Israel
segundo a carne foi colocado o Israel segundo o Espírito (Gl 3.15ss; Rm 2.28s; Fp 3.3), do qual
também fazem parte os gentios, em número muito maior.
Está iminente o juízo, no qual serão destruídos os filhos de Abraão que se apóiam única e
exclusivamente em sua origem física de Abraão. O machado com o qual a árvore será  cortada já está
colocado na raiz.
João não é o único a usar essa metáfora da árvore que aparece aqui. Jesus igualmente emprega
essa ilustração em Mt 7.16ss; 15.13. Sendo boa a árvore, ela traz bons frutos. Uma autêntica
conversão ou arrependimento se mostra nos frutos da nova vida.
Diferentemente de Lucas, Mateus (Mt 3.8) fala do fruto com que ele enfatiza a unidade da nova
vida. Mas Lucas fala (Lc 3.8) dos frutos do arrependimento, a fim de expressar a multiformidade da
nova vida. É de múltiplas formas que a nova vida deve se mostrar e manifestar.
Da comparação que fizemos entre as impiedosas metáforas do Batista sobre a pedra, o machado, o
fogo e o juízo, e as palavras de Jesus e de Paulo, depreendemos que João Batista não é uma pessoa
exótica e marginalizada, mas que também Jesus e os apóstolos falaram com a mesma seriedade do
juízo de Deus.

Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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