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A primeira pregação de Jesus em Nazaré – Lc 4.16-30

16 – Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu 
costume, e levantou-se para ler.
17 – Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava 
escrito:
18 – O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres 
(indigentes); enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, 
para pôr em liberdade os oprimidos,
19 – e apregoar o ano aceitável do Senhor.
20 – Tendo fechado (enrolado) o livro, devolveu -o ao assistente e sentou-se; e todos na 
sinagoga tinham os olhos fitos nele.
21 – Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir.
22 – Todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que lhe saíam 
dos lábios, e perguntavam: Não é este o filho de José?
23 – Disse-lhes Jesus: Sem dúvida, citar-me-eis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; 
tudo o que ouvimos ter-se dado em Cafarnaum, faze-o também aqui na tua terra.
24 – E prosseguiu: De fato (Amém), vos afirmo que nenhum profeta é bem recebido na sua 
própria terra.
25 – Na verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu 
se fechou por três anos e seis meses, reinando grande fome em toda a terra;
26 – e a nenhuma delas foi Elias enviado, senão a uma viúva de Sarepta de Sidom.
27 – Havia também muitos leprosos em Israel nos dias do profeta Eliseu, e nenhum deles foi 
purificado, senão Naamã, o siro. 
Conforme Lucas, Jesus começa sua aparição pública em sua aldeia natal, Nazaré. A intenção do
evangelista não é dizer dessa maneira que ali Jesus teria realizado sua primeira pregação, porque do
texto se depreende que o Senhor já atuara antes em Cafarnaum e outras localida des (cf. acima, e Jo
1.43 e Jo 4.1s, e principalmente Lc 4.23. O Senhor já havia feito milagres em Cafarnaum.). Antes, a
cena em Nazaré narrada por Lucas visa mostrar, por meio de um exemplo do início da atuação
pública de Jesus, que essa atividade provocou uma divisão de espíritos em aceitação e rejeição, sim e
não. Desse modo, a cena em Nazaré forma, pelo conteúdo e pela disposição das pessoas, uma espécie
de prólogo e abertura para a atuação do Senhor na Galiléia. A cena está nitidamente subdividida em
dois blocos:
a) Aceitação entusiasmada.
b) Rejeição cheia de ódio.
a) A aceitação entusiasmada
Como é estranha essa história lá em Nazaré! No começo límpida e radiante – no final terrível e
obscura. No começo paz celestial –  no final desenfreamento infernal. No começo ardente admiração
pelo grande conterrâneo – no final tentam matá-lo.
O estranho dessa guinada, porém, é que ninguém senão o próprio Jesus a provocou.
Significativo, no entanto, é que aqui não nos deparamos apenas com um processo isolado, e sim
que essa história praticamente se reveste de uma característica programática. Aquilo que se desenrola
aqui em Nazaré no prazo de poucas horas, repete-se em toda a vida profissional do Senhor: no
começo aprovação – as massas querem transformá-lo em rei; depois, porém, afastamento, e até
mesmo ódio e assassinato, e no final a cruz! E repetidamente vemos que o próprio Jesus provoca essa
guinada! (Hilbert)
A razão de agir assim não é mostrada apenas por meio dessa história, mas também por todas as
demais narrat ivas de sua vida.
Jesus somente veio pregar em Nazaré quando já tinha alcançado determinada fama nas sinagogas
da redondeza (v. 14s).
A expressão segundo o seu costume evidentemente deve ser relacionada com toda a infância e
adolescência de Jesus, anteriores ao seu batismo. Por isso também é dito: “…onde fora criado”. As
crianças tinham acesso ao culto na sinagoga a partir do quinto e sexto ano de idade. Esse culto foi um
instrumento extremamente importante para o desenvolvimento intelectual e religioso de  Jesus. As
leituras do AT, que ele podia ouvir regularmente, diversas vezes por semana, com certeza deram sua
contribuição para que obtivesse aquele conhecimento preciso das Sagradas Escrituras de que toda a
sua pregação dava testemunho.
Quando Jesus, depois da leitura prescrita do trecho do AT, se levantou de seu lugar, indicando
com isso que estava disposto a proferir a leitura de um trecho profético, o servidor da sinagoga
entregou-lhe o livro do profeta Isaías, i. é, um rolo de couro que continha tão somente esse livro.
Várias leituras tinham sido feitas desse rolo nos sábados precedentes. Na seqüência Jesus permitiu
que o Pai celestial lhe mostrasse uma passagem apropriada para a sua finalidade. Deparou-se com as
palavras de Isaías, cap. 61.1s, que leu em voz alta. A citação é textualmente a seguinte: “O Espírito
do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para trazer alegre notícia aos pobres; porque ele me
enviou para anunciar libertação a prisioneiros de guerra, e aos amarrados, esperança, para proclamar
um ano de graça do Senhor.”
Combinava com a natureza do divino Filho do Homem que logo no começo de sua atuação ele
trouxesse o “evangelho” também à sua terra natal. A providência de Deus permitiu que ele
desvelasse sua natureza da forma mais bela, pelo fato de que teve de anunciar aqui, na desprezada
Nazaré, o evangelho do AT a respeito do Cristo (ou seja, do Ungido de Deus, do Messias), que prega
o evangelho aos pobres, que tinha de proclamar o ano da graça do Senhor.  Ao interpretar essa
Escritura, ele abriu seu coração. O testemunho daquele Ungido de Deus, o Cristo da Escritura,
tornou-se um testemunho a respeito dele mesmo, e a pregação do anúncio do ano de jubileu se tornou
a pregação do próprio jubileu.
Após a solene leitura pública daquelas palavras do AT, que ele não apenas lia a partir do rolo, mas
que ele proferia do mais íntimo de sua vida, ele enrolou o livro, entregou-o ao servidor e sentou-se.
“Os olhares de todos os que estavam na sinagoga ficaram fitos nele.” Encara-os a todos, seus amados
e conhecidos companheiros de adolescência. Talvez cada um deles seja uma parte da história de sua
vida, de seu amor, sua fé e sua esperança. – E agora ele gostaria de anunciar-lhes a grande “boa
notícia” do reino de Deus.
21  Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir.  Jesus
reconhece que a declaração do profeta Isaías “o Espírito do Senhor está sobre mim”, que inicialmente
se referia ao próprio profeta, a prefiguração determinante de sua própria pessoa e incumbência. A
obra “do Cristo”, do Messias, paira nítida em sua alma, particularmente desde os dias de seu batismo.
A pregação do Senhor na sinagoga de Nazaré contém sete elementos.
1) O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu.
O Redentor tem consciência de estar contínua e ininterruptamente sob o controle do Espírito
Santo, que no batismo sobreveio ao Senhor de modo ímpar, imensurável e pleno. Também aqui
vemos mais uma vez como estão imensamente próximos o Senhor e o Espírito,  e como ambos
formam até mesmo uma unidade (cf. a esse respeito o que já foi dito acima, no v. 14, acerca da união
do Espírito e do Senhor). O que significa o fato de que aqui o texto fala em  Espírito do Senhor, e não
de Espírito Santo? Resposta: com certeza a intenção aqui é expressar a Trindade divina. O Espírito
(Espírito Santo), o Senhor, ou seja, Deus Pai (no AT Deus Pai sempre de novo é chamado de
Senhor), depois Jesus, o Filho de Deus, sobre o qual pousa o Espírito, são três pessoas e, não
obstante, uma só! A pessoa específica de Jesus está tão cheia do Espírito e de Deus que a expressão:
“o Espírito do Senhor repousa sobre mim” constitui a unidade essencial da Trindade divina. Um
mistério digno de adoração!
Ele me ungiu. Jesus de Nazaré é “o Cristo”, i. é, o Ungido propriamente dito. Como o Cristo, i. é,
o Ungido, ele é o verdadeiro e único sumo sacerdote, o verdadeiro e único profeta, o verdadeiro e
único rei. Todos os três eram ungidos no AT para exercer sua função. De modo cabal e perfeito,
Jesus abrange todos os três ministérios em sua pessoa.
Ao contrário das concepções sobre o senhorio do Ungido, do Messias, como um domínio
universal a ser estabelecido com recursos mundanos, ele sabe e ensina, por meio da leitura do texto
do AT, que é pela palavra do Pai e pelo Espírito de Deus que Jesus deve e há de erigir a eterna
soberania de Deus.
2) Por isso, a segunda coisa que Jesus diz para caracterizar a proclamação que lhe fora confiada é
que ela precisa ser levada aos pobres, aos pedintes e mendicantes, i. é, aos que se encontram fracos e
com o coração deprimido, prostrando-se por isso em súplica perante Deus, uma boa mensagem que
alegra justamente a estes. – Por isso, lemos no v. 18:
Ele me enviou para evangelizar aos indigentes.
A expressão “indigente” refere-se aos materialmente pobres e que se tornaram também
interiormente pobres pelo Espírito Santo (cf. Comentário Esperança, Mateus, o exposto sobre Mt 5.3,
p. 76s). Aqueles que têm consciência dessa sua miséria (cf. a primeira bem-aventurança do Sermão
da Montanha) são receptivos para a boa nova da graça. “Jesus não se considera enviado aos que
acreditam que não precisam de ajuda nem de quem os auxilie, mas àqueles que sofrem com a própria
situação e com a situação do mundo, esperando por socorro. É para estes que a mensagem de Jesus é
notícia alegre”, diz um comentarista. O fato de que as ilustrações são retiradas da esfera social,
anunciando primeiro aos indigentes e desprezados na vida a salvação e alegria, não constitui apenas
uma predileção de Lucas, mas está profundamente embasado em toda a revelação de Deus com tal,
porque representava a vinda de Deus aos humanos. Não obstante Lucas não perde nenhuma
oportunidade para dar destaque especial a esse aspecto. Afinal, não há melhor forma de retratar a
graça do que pela condescendência com o que não é nada.
3) As palavras curar os quebrantados de coração (Is 61.1) faltam nos manuscritos alexandrinos
e em vários documentos da Ítala. Na verdade poderíamos supor que tenham sido inseridas aqui
posteriormente, de acordo com o texto hebraico e a Septuaginta. Não obstante, considerando que
constituem uma base quase imprescindível para as palavras de Jesus no v. 23, é recomendável mantê las.
4) Para proclamar libertação aos cativos. O cativeiro exterior na Babilônia, com o subseqüente
retorno à liberdade, foi apenas um pequeno sinal para esse grande acontecimento mental, a libertação
do cativeiro interior do ser humano causado pelo pecado e pelo diabo. Aqui está o verdadeiro exílio e
aqui acontece a verdadeira libertação. Cristo é o maior libertador da humanidade. Por isso a liberdade
é uma das verdades centrais, dos elementos mais essenciais da mensagem cristã. Quando não
sentimos o sopro dessa liberdade, quando tudo é sufocado por legalismo , receio e temor, deformou-se
a substância dessa alegre mensagem.
5) Para proclamar a restauração da vista aos cegos. A imagem dos cegos, aos quais é restituída
a visão, na verdade não combina nem com a idéia do ano do jubileu nem com o retorno do exílio.
Literalmente, o texto hebraico diz: “para os cativos a abertura”. Essa expressão parece ter sido
aplicada pelos tradutores da Septuaginta à privação e restituição da “visão”. Lucas acompanha -os,
talvez relacionando, porém, a palavra “cegos” aos presos que  saem da escuridão da masmorra para a
intensa luz do dia. Em sentido figurado igualar a noite da cegueira à noite do distanciamento de
Deus. O Cristo é a luz do mundo. Cf. Jo 8.12 e Jo 9.5; bem como Mt 5.14-16 (Comentário
Esperança, Mateus, p. 81s, e Jo 8.12).
6) As palavras: pôr em liberdade os maltratados, ou como Lutero traduz: “aos destroçados, para
que sejam livres e soltos”, são retiradas de outra passagem de Isaías (Is 58.6). Talvez tenha sido
originalmente um paralelo anotado à margem pelo copista, que posteriormente passou a fazer parte
do texto.
O Cristo está do lado dos fracos, dos desprivilegiados, dos violentados. Sua mensagem possui um
caráter social. Mas, além disso, está em jogo algo muito mais profundo. Trata-se da opressão e
ameaça interior pelo poder do satânico e demoníaco. O ser humano foi colocado sob pressão, motivo
pelo qual vive uma existência oprimida. Satanás é o príncipe deste mundo, razão pela qual o
evangelho é uma revolução interior, porque ele destrona o falso potentado, o usurp ador do trono,
para em seu lugar erigir novamente o senhorio de Deus. Esse senhorio não oprime, mas liberta e
torna feliz.
7) Para apregoar um ano aceitável do Senhor. A expressão eniautous kyrío dektos significa: o
ano bem-vindo do Senhor, a saber, o ano que o Senhor escolheu para propiciar às pessoas a graça
totalmente extraordinária da obra de salvação. Ela corresponde a uma formulação hebraica que
significa o ano em que Javé executa sua resolução de graça e salvação.
Ezequiel chama o ano de jubileu de ano do perdão (Ez 46.17). Essa expressão é uma designação
baseada em Lv 25.
O profeta Isaías entendeu a restauração periódica, determinada pela lei, no chamado ano do
jubileu, como modelo da renovação messiânica. Ele coloca sua profecia nos lábios do próprio
Messias (Cristo), como faz em outras passagens, p. ex., Is 49.
Se Jesus tivesse procurado pessoalmente essa passagem, o texto simplesmente diria: “Ele leu”. O
termo grego heure, porém, implica que ele leu uma passagem que se abriu por si mesma.  – É
plausível que Jesus não poderia ter recebido da mão do Pai nenhum texto que se ajustasse melhor à
situação do momento.
Anunciar um período de graça divina, proclamar anistia a todos os endividados, alforria aos
prisioneiros e restituição da propriedade herdada, trazendo assim uma boa nova aos oprimidos e
quebrantados, mas também aos que se curvam diante de Deus - isso é o que o profeta Isaías define
como a incumbência vocacional para a qual Deus ungiu o Messias, o Cristo, com o Espírito.
Quando Jesus, após ler esse texto diante da atenta observação de todos os presentes, começa seu
discurso com as palavras Hoje se cumpriu essa Escritura diante de vossos ouvidos, ele não
somente declara que essa pregação seria o essencial de sua vocação, mas que ele agora estava p restes
a exercer essa vocação através da proclamação da palavra de Deus do AT. Irrompeu o tempo da
graça. Seu anúncio não é mais profecia de algo futuro, mas caracterização da atualidade, é
cumprimento da profecia. Essas palavras do Senhor contêm o programa abrangente de sua atuação
e de sua incumbência de Messias, i. é, do Cristo. É um programa que Jesus estabeleceu não por
iniciativa própria, mas que ele depreendeu das Sagradas Escrituras, como a vontade de Deus que
viera cumprir.
Em seu conhecido manual bíblico, Dächsel chama atenção para o seguinte: as palavras de Lucas
4.19 e 21 para proclamar o ano aceitável (o ano do jubileu e da alforria) do Senhor, e hoje se
cumpriu essa Escritura diante de vossos ouvidos de fato também deve ser entendido de forma
literal. Dächsel afirma: O ano daquela atividade inicial do Senhor Jesus deve ter sido um ano de
jubileu e alforria, porque somente assim sua palavra em Lucas 4.21 (cf. o v. 19 com Lv 25.10) obtém
a base correta nas circunstâncias históricas daquele tempo.  De acordo com Daniel 9.25-27, pode-se
calcular com precisão o ano do início da atuação de Jesus coincidindo justamente com um ano do
jubileu.
Conseqüentemente, é máxima relevância o fato de que ao iniciar sua atuação pública, a pregação e
o conteúdo do Senhor Jesus coincidissem com exatidão. No entanto, o ano aceitável do Senhor, que
Cristo realmente trouxera a seu povo, possui uma abrangência ainda muito maior que a do ano do
calendário, pois o tempo da graça de Deus perdura até hoje! Até aqui as idéias de Dächsel.
Retornamos ao texto em análise.
Sem dúvida, a descrição dramática até das ações aparentemente mais insignificantes de Jesus e a
descrição exata da atenção da comunidade originam-se do relato de uma testemunha ocular. Quando
ainda vivia em Nazaré, talvez o modesto carpinteiro tenha sido para eles um jovem amável mas
insignificante. Por isso provavelmente admiravam-se algumas vezes com o fato de que lá fora se
desse tanta importância a esse Jesus. Entrementes, porém, obtendo ele cada vez mais notoriedade,
eles desfrutavam da sua fama, da qual se julgavam “co -proprietários”.
Encontravam-se, pois, na sinagoga, aos sábados, preparados para uma sublime fruição intelectual
e decididos a admirá-lo.
A reação às palavras de Jesus na sinagoga de Nazaré foi espantosa.
A mesma impressão registrou-se nos ouvintes do profeta Ezequiel. O Espírito de Deus julga-os
assim: “Tu és para eles como quem canta canções de amor, que tem voz suave e tange bem; porque
ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra” (Ez 33.32). Eles apenas desfrutam do som da
palavra de Deus.
Os ouvintes de Jesus devotavam-lhe pleno reconhecimento. Mas louvor e aplauso não constituem
um clima agradável a Deus, no qual o Eterno possa atuar. A palavra de Deus é um martelo que
esfacela os corações, um fogo que arde nas almas. Quem experimenta a palavra de Deus dessa
maneira não se esbalda em suntuosas louvações, porém se curva em silêncio. Jesus desmascara seus
ouvintes. Não se deixa ofuscar pelo aplauso. Jesus não se sente enlevado, mas oprimido  por esse
efeito de sua fala. Uma audiência entusiasmada, laudatória, não significa nada quando falta o fruto, a
saber, a “conversão a Deus e a fé no Senhor Jesus”. A circunstância de que os ouvintes deliram
entusiasmadamente representa uma clara demonstração de que a espada da palavra de Deus não
perpassou seus corações. Jesus reconhece o sentido superficial de seus ouvintes, que se prendem à
exterioridade.
Não queriam ficar atrás da cidade de Cafarnaum (v. 23). Eles pretendiam ser particularmente
honrados por meio dos sinais e milagres que ele haveria de realizar também em Nazaré, e até
acreditam ter um direito especial a isso. Em suma, estão dispostos a devotar reconhecimento a Jesus
– porém apenas se ele ceder à vontade deles. Desejam curvar-se diante dele –  mas só se ele se curvar
diante deles primeiro. Desejam aderir a ele – porém apenas se ele reconhecer a prerrogativa deles
diante de todos os demais!
Presenciamos, portanto, o que preenche sua alma, não obstante toda a admiração pela arrebatadora
fala de Jesus: arvoram-se em seus privilégios e prerrogativas. Sua intenção primordial é que eles
mesmos sejam honrados, que se faça a sua própria vontade. Sua alma está repleta de si mesmos, e
não de Deus. Adoram a si mesmos – e não a Deus. Endeusam a si mesmos, privando Deus da honra
divina!
Será que essa tendência está extinta nos corações humanos? Porventura não a redescobrimos em
nossos próprios corações?
Concordamos alegremente com Deus enquanto ele nos conduz da forma como nos apraz. Quando,
porém, vêm dias que não nos agradam, muitas vezes nossa fé, em geral tão alegre, desaparece. Tudo
isso mostra que no fundo nosso empenho não é em favor de Deus, mas em favor de nós mesmos!
Perguntamos: será que Jesus pode aceitar esse tipo de devoção, será que Jesus é capaz de entregar se e comunicar-se a esses corações? Porventura Deus consegue libertar e fortalecer tais pessoas por
meio de seu Espírito? Jamais!
Se quisermos ter a Deus, nossa alma não deverá estar cheia deste mundo, de seu prazer ou seu
fardo, nem repleta de nós mesmos.  Se quisermos ter a Deus, teremos de soltar todo o resto e almejar
tão somente uma coisa – a Deus!
Onde Deus está, todas as outras vontades acabam. Deus é o Senhor incondicional. Unicamente ele
tem poder, e seu intuito é exercer o poder sozinho; porque ele é Deus e continuará sendo Deus. Por
essa razão, se pretendermos ter a Deus, teremos de admitir seu senhorio incondicional sobre toda a
nossa alma. Se quisermos ter a Deus, teremos de estar decididos a prestar-lhe irrestrita obediência.
Sendo assim, repentinamente compreendemos Jesus. Sua intenção é conquistar as pessoas para
Deus. Elas, porém, apenas ouvem seu discurso, cheias de admiração, desejando ser seus próprios
senhores. Seu coração deseja, sobretudo, que se faça sua própria vontade. Como Deus pode
manifestar-se a almas assim?
Se Jesus de fato pretende levar-nos ao Pai, ele precisa revelar-nos e convencer-nos do quanto os
seres humanos se encontram ensimesmados, de como esse pecado está profundamente arraigado em
toda a nossa natureza! Portanto, Jesus provoca contradição em seus conterrâneos. Desperta neles algo
que estava profundamente adormecido. Traz à tona o orgulho secreto, toda a sua petulante
arrogância. Revela que esse orgulho devoto não passa de idolatria (Hilbert).
O povo de Nazaré considera natural que Jesus construa uma grande fama, pois dessa maneira
também eles são honrados. Então a cidade de Nazaré, tão desprezada pelos orgulhosos moradores de
Jerusalém (“de Nazaré pode sair alguma coisa boa?”  – Jo 1.46), alcançaria elevada honra por meio
desse seu filho, Jesus. Os irmãos do Senhor (enquanto ainda eram incrédulos) também pensavam
assim. Por isso, incentivaram-no (cf. Jo 7.3-5) a dirigir-se ao grande palco público em Jerusalém. Ele
não deveria realizar sua obra de maneira tão oculta. Se o objetivo dele for alcançar importância e
reconhecimento geral como o Messias de seu povo, oriundo d e Nazaré, ele precisa mostrar-se diante
do grande público, i. é, atuar em Jerusalém, a capital do país.
Jesus, porém, veio para prestar ajuda à verdadeira e mais profunda miséria, a saber, para que as
pessoas reconheçam a maldição do pecado.
O Redentor foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, aos fracassados, aos oprimidos, aos
enfermos que precisam de médico. Ali em Nazaré, porém, os ouvintes não se sentiam carentes de
ajuda. Seus corações estavam saciados. Não se consideravam pecadores perdidos.  Olhavam com
desprezo para os gentios impuros. “Nós somos o povo de Deus, um povo de justos”, pensavam eles.
Descansavam sobre o privilégio da eleição divina e insistiam em sua prerrogativa. Não se lembravam
de que Deus escolhera Israel sem qualquer mérito, por pura graça (Dt 6.10s). Não lhes ocorria que
privilégios trazem consigo grandes responsabilidades, e que são um estímulo para incluir nas bênçãos
aqueles que ainda estão em desvantagem.
O resultado será o mesmo dos últimos tempos de Elias e Eliseu. Israel é preterido em favor dos
gentios. Estes agarram ansiosamente a salvação que Israel despreza. A viúva de Sarepta foi salva da
morte por inanição graças ao profeta Elias, e um gentio, Naamã da Síria, que tinha uma doença
incurável, foi curado por Eliseu, tornando-se um reverenciador de Javé em meio ao contexto gentio.
É isso que também acontecerá agora. A grande salvação que chegou com Jesus será avidamente
agarrada pelos gentios. Israel, porém, ficará de fora. Os judeus não queriam um Salvador de pecado s.
Esperavam por um Messias (Cristo) que os livrasse exteriormente do penoso jugo romano. Seu
Messias deveria realizar grandes prodígios e milagres, restaurar o reino em Israel, posicionar seu
povo à frente de todas as nações, tornando-o dominador do mundo. Por isso ficaram tão enfurecidos
quando Jesus aludiu ao fato de que a salvação passaria aos gentios. Jesus havia tocado no ponto mais
sensível. Que pensamento insuportável: os gentios seriam preferidos a eles!
b) A rejeição furiosa do ódio
28 – Todos na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira.
29 – E, levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até ao cimo do monte sobre o 
qual estava edificada, para, de lá, o precipitarem abaixo.
30 – Jesus, porém, passando por entre eles, retirou-se.
Empurram-no até um abismo, a fim de precipitá-lo para baixo, como um blasfemo.  – Os galileus
eram um povo inflamado, de rápida ação. Chegando, porém, ao precipício, ele deu meia -volta e
passou pelo meio deles.
Não há motivo para supor um milagre na maneira pela qual Jesus se livrou. A majestade de sua
personalidade e a firmeza de seu olhar impuseram respeito a essa multidão irada. “Tinham, pois,
enfim um milagre”, só que era diferente do que haviam imaginado.
Um temor análogo acometeu os guardas que o prenderam no Getsêmani, quando ele disse, com
firmeza e tranqüilidade, “Sou eu” [Jo 18.5]. Aqui em Nazaré ninguém teve a coragem de atacá -lo. Os
inimigos não podiam agarrá-lo nenhum minuto antes do momento que o Pai havia determinado.
Esses acontecimentos em Nazaré apontam para toda a evolução posterior dos acontecimentos. Os
pensamentos de Deus e os pensamentos dos judeus colidiam frontalmente. Deus enviou um Salvador
que, em silêncio e secretamente, visa salvar pecadores, erguer uma cana quebrada e reavivar a
pequena chama que está se apagando. Os judeus, no entanto, queriam ver grandes feitos, cuja
conseqüência deveria ser uma nova e esplendorosa realidade. Não queriam, porém, ouvir apenas
palavras que desvelassem as máculas interiores, trazendo cura. Jesus não  correspondia a seus desejos.
Ele não se orientava segundo as tendências do ser humano. Prosseguiu ininterruptamente em sua
trajetória, fiel ao envio do Pai, ainda que não fosse compreendido e por fim fosse rejeitado.
Essa foi a saída de sua terra natal. Desterrado e apátrida, é assim que o Filho do Homem parte, a
fim de salvar e abençoar os humanos. É assim que termina a abertura do ano da graça – bastante
arrasadora: com uma situação idêntica à que havia sido relatada anteriormente na história da
tentação. Satanás pretendia precipitar o Cristo, o Ungido, para se livrar dele. Aqui foram os seus
próprios conterrâneos que tentaram derrubar o Cristo, para livrar-se daquele que desejava tornar-se o
Cristo deles. Rejeitaram a oferta da salvação. O Salvador oferece incansavelmente a si mesmo, i. é, a
graça, até mesmo quando as pessoas dizem não. A resposta é sempre uma recusa, e até mesmo a
negativa.
Dessa forma cumpre-se o que foi dito na profecia do velho Simeão: “resiste-se ao sinal” que Deus
estabelece em seu Filho, e a alma da mãe é perpassada desde já pela espada. A separação de sua terra
pátria, que lhe é imposta por causa de sua incumbência, traz consigo também a separação de seus
conterrâneos.

Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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