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As testemunhas não admitidas ao tribunal terreno são definidas por Deus como suas primeiras testemunhas. - Lc 2.15-20

Para que o louvor a Deus cantado pelos anjos a fim de ser ouvido na terra tornasse a subir da terra
com grande alegria, era preciso que os pastores se convencessem com seus próprios olhos da verdade
da palavra anunciada. A fé não pode prescindir da experiência. A própria palavra de Deus impele
sempre para a experiência. O anjo havia mostrado expressamente aos pastores o caminho:
encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura [v. 12]. É em busca desse sinal
que eles devem sair, como anteriormente Maria (Lc 1.36), porque o crer deve levar ao ver. Somente
assim ele de fato possui um poder ditoso. Mesmo a mais gloriosa palavra divina de vida continua
sendo letra morta sem valor se não passar para a experiência. Cristo nasceu. Seu nascimento foi
anunciado por línguas de anjos e seres humanos. Agora é preciso de fato “experimentar” a realidade
do nascimento e entrar em um relacionamento mais estreito com ele!
15 – E, ausentando-se deles os anjos para o céu, diziam os pastores uns aos outros: Vamos 
até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer.
Curiosa é agora a guinada: “vejamos a palavra que aconteceu”. – Uma palavra, afinal, não pode
ser vista, somente ouvida! Por que isso, então? Porque a palavra, anunciada pela boca de anjos, é um
acontecimento. Por essa razão a palavra não era apenas “discurso”, mas de fato algo que podia ser
visto, experimentado, vivenciado e tocado (cf. 1Jo 1.1), ou seja, percebido com todos os sentidos
humanos. É por isso que a seqüência diz “a palavra que aconteceu”.
Essa palavra ouvida e vista, a palavra que aconteceu, “foi o Senhor que deu a conhecer”,
disseram os pastores.
Se Deus, o Senhor, falou pela palavra, cumpre não descansar antes de ter visto a Cristo de forma
renovada, com fé viva e experimentando novamente o “acontecimento”!
16a – Foram apressadamente.
Algo inacreditável é dito aos pastores, algo inacreditável se espera deles. Uma criança recém nascida deve ser o Senhor do mundo, o Salvador, o Messias?
Que fazem os pastores? Não esperam que raie o dia. Quando se trata de ver o evento de Cristo,
vale a pena: é necessário apressar-se, é necessário tomar uma decisão rápida, uma ação célere.
16b – E acharam Maria e José e a criança deitada na manjedoura.
O que pode ser visto aqui? Uma estrebaria escura e suja, uma criancinha indefesa, recém-nascida,
tão precariamente acomodada que nem sequer tinha um berço, mas jazia em um cocho de alimentos
das vacas e ovelhas.
Em verdade, a fé que se demandava dos pastores era muito grande! Um inaudito contraste havia
entre a palavra do anjo, com o louvor das milícias celestiais, e o episódio na escura estrebaria! Era
demasiadamente óbvio o contraste entre a palavra exterior e o evento interior, entre a alegre
proclamação e a rude realidade, entre a luz sobre os campos e as trevas na estrebaria, entre a
felicidade experimentada junto aos rebanhos  – e a miséria na estrebaria.
O sinal dado aos pastores – a estrebaria e manjedoura – era para eles um teste de fé tão
extraordinário que temos a impressão de que o recém-nascido Cristo exclama aos seus primeiros
visitantes aquilo que mais tarde manda dizer solenemente a João Batista: Bem-aventurado é aquele
que não achar em mim motivo de tropeço!
17 – E, vendo-o, divulgaram o que lhes tinha sido dito a respeito deste menino.
Olhar com fé para o Cristo, seja na manjedoura, seja em sua vida e atuação, experimentar
vivamente a amabilidade e bem-aventurança de Deus, nosso Salvador, é a única coisa que gera
testemunhas corretas, propicia ndo também poder sobre os corações dos ouvintes participantes.
Quando existe uma experiência interior madura e pura, todas as discussões acabam, porque então
os discípulos de Jesus não expressam pareceres, doutrinas e opiniões, mas testemunhos de fatos (Jo
15.27), motivo pelo qual se apresentam com uma firmeza que surpreende o mundo, muito de acordo
com o exemplo do Senhor. “Nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto” [Jo 3.11].
Testemunhar não é algum tipo de prerrogativa, mas um ato ditoso de corações sacerdotais e dever
geral dos cristãos. Um testemunho desses nunca deve silenciar na igreja em que Cristo está vivo e
deve continuar a sê-lo.
18 – Todos os que ouviram (inclusive Maria) se admiraram das coisas referidas pelos 
pastores.
De forma alguma relata-se aqui algo semelhante a Lc 1.65. A glória do menino de Belém não se
espalhava para além dos limites da estrebaria. Não acontece nada que pudesse provocar comoção
entre o povo. Na verdade seria muito estranho se a manjedoura agora se trans formasse em alvo de
peregrinação. Isto nem mesmo combinaria com a imagem daquele a respeito do qual se diz: “Não
clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça” (Is 42.2). Em muitos resta apenas uma
admiração indeterminada.
19 – Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração.
Esta é a única coisa que lemos sobre Maria em toda a narrativa do nascimento. Não foi a ela que o
anjo se manifestou na glória de Deus. Ela não ouviu o louvor das multidões de anjos, mas está
rodeada tão somente de humildade. Maria não obtém mais revelações, exceto por meio da palavra
dos pastores e da palavra profética de Simeão e Ana, bem como por meio da posterior visita dos
“magos do oriente”.
Ouvimos unicamente uma frase acerca de Maria, e essa frase nos propicia uma visão de seu
íntimo. Não era apenas admiração, como nos demais, mas um “guardar” e “elaborar” no coração.
O evangelho não demanda apenas um coração efusivo, mas igualmente uma memória confiável, a
fim de reter, refletir e meditar sobre um  grande conteúdo eterno. Somente assim o evangelho se
tornará patrimônio firme e inalienável da pessoa. Os pensamentos de salvação de nosso de Deus são
tão grandes, profundos e ricos que um ser humano não consegue captar e absorvê -los de uma só vez.
Eles precisam ser elaborados. Como diz Lutero: “Deus quer que sua palavra seja impressa em nosso
coração e permaneça como uma marca que ninguém consegue lavar, como se fosse inata e natural.”
A fidelidade com que Maria guardou e absorveu tudo pode ser vista pelo relato preciso que ela
provavelmente fez de todas essas experiências, particularmente ao médico Lucas, e que através dele e
dos apóstolos chegou a nós. Depois que Cristo havia sido poderosamente confirmado como Filho de
Deus por meio de sua ressurreição, tendo-se transfigurado por meio do Espírito Santo em sua igreja,
Maria abriu o tesouro de seu coração, pois já não era mais única proprietária dele.
20 – Voltaram, então, os pastores glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham 
ouvido e visto, como lhes fora anunciado (por parte dos anjos).
Os pastores, no entanto, retornaram novamente à noite, ao frio, ao perigo, ao duro cotidiano de seu
rebanho. Encontraram ali tudo como havia sido antes. Seu rebanho novamente precisa do cuidado e
da vigilância diários, e no extenso deserto eles têm de procurar pelos lugares em que cresce o
alimento para os animais. Porventura não havia tudo ficado na mesma? Não! Os pastores receberam
algo novo, e com isso tudo em sua vida havia se tornado novo, um novo olhar para o  céu, um novo
olhar para a terra, para o cotidiano.
Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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