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Em Nazaré - Lc 2.39-52

39 – Cumpridas todas as ordenanças segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galiléia,
para a sua cidade de Nazaré.
40 – Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava
sobre ele.
Jesus era e continuou sendo nazareno até atingir mais de trinta anos de idade. A maior parte de sua
vida, portanto, ele permaneceu no anonimato. Mas uma história perpassa toda a reclusão desses 30
anos e a faz reluzir intensamente.
A história do menino Jesus aos doze anos representa todo o seu desenvolvimento. A criança Jesus
cresceu, não como um menino-prodígio, mas como um ser humano igual a nós, exceto no que se
refere ao pecado.
Jesus nasceu de maneira sobrenatural, e formou-se e cresceu de maneira natural. Sua encarnação
não foi aparência e nem encenação, mas seriedade total.
A história da adolescência do menino de doze anos que temos diante de nós lança luzes sobre o
passado e o futuro. Seu brilho repercute a partir de seu nascimento sagrado, e é um esplendor que
antecipa seu ministério futuro como Redentor.
41 – Ora, anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a festa da Páscoa.
De acordo com a lei de Moisés (Êx 23.14-17; 34.23ss; Dt 16.16s), todos os israelitas masculinos
(exceto os menores de idade, anciãos, enfermos e escravos) tinham a obrigação de comparecer ao
templo três vezes ao ano, a saber, nas festas da Páscoa, do Pentecostes e dos Tabernáculos, a fim de
participar da celebração festiva. No entanto, nem todos os judeus podiam cumprir este mandamento
literalmente em todas as três festas, em vista das distâncias às veze s grandes até Jerusalém. Nossa
passagem comprova que as pessoas limitavam-se a participar de uma dessas festas. Filo de
Alexandria comprova que nessas ocasiões muitos judeus que viviam na vasta diáspora também
peregrinavam até o templo, que era o centro religioso do judaísmo (De Monarch. II,1).
42 – Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa.
Quanto o menino Jesus deve ter ansiado por essa festa da Páscoa! Como seu coração deve ter se
dilatado em santa alegria ao obter permissão de subir com a caravana festiva, em júbilo e cantando
salmos, até Jerusalém! O que será que ele sentiu quando entrou pela primeira vez na gloriosa cidade
e viu estender-se diante de si o alto templo? Essa é, portanto, a cidade santa, onde Deus re úne seu
povo em redor de si. Esse é, pois, o santo monte, do qual a salvação deveria espalhar -se para todas as
partes da terra! Sim, existe somente um Deus, e somente “uma única lei divina” prevalece. Os
Salmos 84 e 120-134, assim como os demais salmos enaltecem os gloriosos cultos a Deus no templo
de Jerusalém. Como tudo isso deve tê-lo comovido profundamente! Em nenhum lugar seu íntimo era
tão favorecido como aqui. Não é de admirar que ele não conseguiu se separar do lugar sagrado,
permanecendo mais tempo no templo.
43 – Terminados os dias (da festa), ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em
Jerusalém, sem que seus pais o soubessem.
44 – Pensando, porém, estar ele entre os companheiros de viagem, foram caminho de um dia
(a jornada de um dia para famílias era de cerca de 20 a 30 km) e, então, passaram a procurá-lo
entre os parentes e os conhecidos.
45 – e, não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém à sua procura.
46 – Três dias depois, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e
interrogando-os.
47 – E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas.
Aqui no templo o menino Jesus sentia-se em casa. Os mestres que admiravam suas respostas e
perguntas eram os professores da lei. Era possível expor ensinamentos públicos aos peregrinos da
festa, de maneira informal, com perguntas e respostas. Aqui, portanto, estava uma oportunidade de
buscar resposta para todas as perguntas que moviam o coração e a mente. (Os rabinos aceitavam
crianças a partir dos 6 anos de idade em suas escolas. Uma palavra rabínica dizia: “A partir do sexto
ano de vida aceitamos a criança e a cevamos com a lei como um bezerro”.  – Nessa atividade eles
dedicavam atenção maior a alunos despertos, até mesmo estabelecendo com eles diálogos como se
fossem um deles).
As indagações do menino de doze anos causaram admiração aos grisalhos pensadores. Quantos
rios de vida devem ter fluído da boca do homem adulto!
48 – Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados (24); e sua mãe lhe disse: Filho, por
que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura!
49 – Ele lhes respondeu: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa
de meu Pai?
50 – Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera.
A resposta do menino Jesus soa muito estranha e maravilhosa em reação às palavras doloridas da
mãe. Não há desculpa, nem admissão de erro. Uma certa soberania divina soa nas palavras do
adolescente Jesus, a certeza de que ele, afinal, precisava estar o tempo todo  naquilo que pertencia a
seu Pai, i. é, ambientado no pensar, sentir e querer do Pai.
Essa primeira palavra “não sabíeis que me cumpria estar naquilo que é de meu Pai?” nos
lábios de nosso Redentor constitui o lema de todas as palavras e feitos posteriores do S enhor e a
chave de todas as suas expressões de vida. Pela primeira vez ele chama a Deus de Pai, evidentemente
em contraste com o “pai” mencionado pela mãe.
Ele não diz “naquilo que é de nosso Pai”, mas “naquilo que é de meu Pai”. Pela primeira vez ele
se sente e reconhece como Filho de Deus. Emerge a percepção de seu relacionamento ímpar com
Deus. Ele sente o grande contraste entre o pai terreno e o Pai celestial.
Ele designa seu Deus de Pai. No Antigo Testamento Deus é chamado de Pai, seja em relação à
“criação” ou em relação a Israel,  o filho primogênito (Êx 4.22), designando, portanto, a posição de
Deus perante seu povo. Mas em lugar algum Deus é chamado de Pai da forma como hoje o indivíduo
filho de Deus o trata como Pai. Nenhum dos homens da velha alian ça, por mais forte que fosse sua
fé, por mais fervorosa que fosse sua devoção a Deus, ousou chamar esse Deus de seu Pai pessoal. O
israelita tinha um conceito sublime demais de Deus. Tinha consciência clara demais da grande
distância entre Criador e criatura, Eterno e nascido do pó, Santo e pecador, para que tivesse
intimidade suficiente para designá-lo de “Pai”. Pelo contrário, isso é destacado expressamente como
alta prerrogativa do Messias vindouro (Sl 89.27; 2Sm 7.14).
De onde, afinal, o menino Jesus tem a consciência de ter o privilégio de ser o único entre todas as
pessoas que pode chamar Deus seu Pai nesse sentido elevado e exclusivo?
Maria talvez tenha sido suficientemente sábia para não contar ao menino acerca do mistério de sua
concepção milagrosa por meio do Espírito Santo, assim como no passado silenciara diante de José,
esperando até que o próprio Deus lhe revelasse o mistério da concepção pelo Espírito Santo. Agora
ela se dá conta, repentinamente, de que o grande mistério de seu coração também estava claro para
aquele menino de doze anos. De onde ele obtivera essa certeza? O Espírito Santo, o mestre do Senhor
Jesus, certamente lho revelara a partir da Escritura Sagrada. “Eis que a virgem conceberá e dará à luz
um filho…” (Is 7.14). Era por isso que ele se sentia tão em casa no templo.
Despertada sua consciência humana a respeito de si mesmo, também tinha de despertar em Jesus,
por meio do Espírito Santo, uma serena intuição de que ele era de modo inigualável e único o Filho
de Deus (Sl 2.7; 89.27s; 2Sm 7.14; Pv 30.4). Essa consciência cresceu ainda mais dentro dele quando
peregrinou para a festa em Jerusalém. Lá no templo, no diálogo com os professores e mestres em
Israel, ela desabrocha com tanta nitidez e força em sua consciência que ele também o  expressa por
palavras.
Por isso, dentre todas as perguntas que ele apresentara aos mestres em Israel e dentre todas as
respostas que eles ouviram de sua boca, nenhuma era tão grande e tão significativa como a resposta à
sua mãe: “não me cumpria estar naquilo que é de meu Pai?”
O Filho do Pai nunca pode deixar de estar naquilo “que é de seu Pai”. Ele está interiormente
condicionado, de milhares de formas, a estar naquilo que é do Pai. Essa é a medida da suprema
liberdade do Filho, que nem mesmo admite a idé ia de não estar no que é de seu Pai.
Naquele instante, “naquilo que é de meu Pai” representava para o menino de doze anos o templo,
o lugar que Deus havia escolhido para habitar entre seu povo, até que o véu se rasgasse de alto a
baixo.
Posteriormente Jesus diz a mesma coisa: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele
que me enviou a realizar a sua obra” [Jo 4.34]. Cumprir a vontade do Pai, poder ser encontrado a
qualquer momento na palavra e obra do Pai, deixar-se conduzir exclusivamente pela mão e pelo
coração do Pai - cumpria-lhe viver sempre nestas condições, em que ele também desejava viver com
plena dedicação. Era essa sua alegria. Esse contexto era a sua casa. Era esse o pão do qual se nutria
sua alma. O Pai é o centro de sua vida e aquele do  qual brotam todos os seus pensamentos,
sentimentos, palavras, obras, irresistível, ininterrupta e incessantemente. “Estar naquilo que é do Pai”
constitui a marca de toda a sua vida. Entre esse primeiro “Pai”, proferido no templo aos doze anos de
idade, e o último “Pai”, dito na cruz, ao entregar sua alma nas mãos do Pai aos trinta e três anos, cada
palavra, cada milagre, cada agradecimento, cada ação e até a suprema ação de morrer, respiram,
ardem e pulsam em Jesus com o desejo de estar naquilo que é de seu Pai. Ele nunca fez algo diferente
daquilo que havia visto e ouvido do Pai (Jo 5.19; 8.38).
Quem segue o Senhor aprende a estar, serena, profunda e radicalmente, em todas as coisas, em
todo o agir e falar, cada vez mais “naquilo que é do Pai”. O Pai no cé u é para ele o primeiro
pensamento pela manhã. O Pai no céu é para ele o último pensamento à noite. Para ele, a vontade do
Pai é determinante em todas as coisas, é seu alimento de manhã, ao meio -dia, e à noite (Jo 4).
51a – E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes (aos pais) submisso.
Jesus poderia ter pensado que agora sua vocação seria permanecer no templo como Samuel e
crescer rumo a seu grande alvo, livre de todas as preocupações com o cotidiano. Contudo isso nem
lhe passa pela cabeça! A santa serenidade de seu coração o prendia à obediência. A casa paterna em
Nazaré passou a ser para o rapaz de doze anos “aquilo que é do Pai”. Despojando-se de si mesmo, ele
começa sua trajetória de renúncias e agruras, humilde e desconhecido, que poderia tornar o tempo
“demorado” até mesmo para a mais despretensiosa pessoa. Ele deveria esperar pelo chamado do Pai
e permanecer calado durante dezoito anos, paciente e incógnito.
O amor ao Pai celestial não aniquila o amor aos pais terrenos, mas o transfigura e santifica, de
sorte que a mesma necessidade interior de “estar no que é do Pai celestial” também se reflete na
necessidade de viver a jornada diária e a vontade dos pais terrenos. Isso constitui a verdadeira
liberdade para a juventude; tudo o mais é desregramento. Também a profissão terrena está situada
“naquilo que é do Pai”.
Lutero diz o seguinte sobre a presente passagem bíblica (“era-lhes submisso”): “Portanto, também
deve ter realizado todas as tarefas caseiras de que era incumbido, recolhendo cavacos, buscando
água, pão, carne, varrendo a sala, e não se exasperando com nada, ainda que fossem trabalhos
insignificantes, pequenos e pouco vistosos. Por meio da obediência aos  pais, do amor que serve, da
fidelidade à palavra de Deus, do zelo com que se busca a honra de Deus, todas essas pequenas coisas
se tornam grandes exercícios de obediência. Pode parecer -nos curiosa a idéia de que Jesus, que
obtivera a consciência e o ministério supremos, mais verdadeiros e indubitáveis que um ser humano
jamais teve, situe esse ministério na obediência imediata às menores e menos importantes coisas. Ele,
chamado para executar uma construção cuja largura, comprimento, altura e profundidade ninguém
dimensiona, carrega com paciência e serenidade a ferramenta de marcenaria do padrasto, ajudando a
construir cabanas para gente pobre.”
No vínculo com o Pai no céu consolida-se o vínculo com as pessoas na terra, o vínculo com a
vocação terrena.
51b – Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração.
Maria não sai do templo em completa alegria por ter reencontrado o filho, mas “meditando”. A
palavra “meu Pai” tornou a tirar-lhe o filho, que julgava recém-reencontrado. Ainda que seus pés
agora deixem para trás o templo e caminhem para a terra natal, ela sente que o coração de seu filho
continua no alto junto do Pai, no qual sua mente está inabalavelmente concentrada. Isso, no entanto,
de forma alguma impede que ele permaneça sendo um filho verdadeiro e exemplar em amor e
obediência para seus pais.
Maria guardava todas essas palavras. Não esquecia que, de acordo com a palavra do anjo, ela tinha
de cuidar do Filho do Altíssimo, que somente lhe fora “emprestado” e que somente possuiria
eternamente se o devolvesse com toda auto-renúncia ao Altíssimo.
Voltamos à leitura do v. 40: “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça
de Deus estava sobre ele.”
E na seqüência lemos o v. 52.
52 – E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens. [1Sm 2.26;
Pv 3.4]
O menino Jesus cresceu como todas as pessoas, e não apenas no aspecto físico, mas também no
entendimento. O texto diz: “Ele ficou cheio de sabedoria” e não : “Ele era cheio de conhecimento.”
Mesmo criança, seu agir, proceder e falar eram sempre sábios, bem-refletidos, apropriados, sempre
acertando no que é correto, como não se encontra em nenhuma outra criança. Por esse motivo está
escrito, com razão, que a criança ficou cheia de sabedoria, i. é, que não devemos buscar na criança a
sabedoria do adulto. Jesus não era uma criança prematura em termos não -naturais; certamente tinha
excelentes dons, porém era cheio de sabedoria infantil. Com o aumento da idade veio  também o
aumento da sabedoria. Essa sabedoria é adquirida na escola da vida e na experiência, e os
conhecimentos que se tornam necessários para ela são conseguidos com suor e trabalho. Nisso Jesus
foi um ser humano igual a nós.
Jesus não havia se agarrado às suas características divinas, a saber, onipotência, onisciência,
onipresença, mas de fato havia se despojado delas, i. é, constantemente renunciava a elas de forma
consciente, para que se tornasse igual a seus irmãos em todas as coisas, exceto apenas p elo pecado.
Por isto, é errado atribuir a a ele, nos dias de sua humilhação, a onisciência, onipotência e
onipresença. Da mesma forma como não conseguimos em absoluto imaginar essas qualidades no
menino Jesus, tampouco devemos supô-las no Jesus adulto. Apesar disso continuou sendo sempre,
em essência, o Filho de Deus.
A fé é a mão com que captamos o divino, por meio da qual pensamos e agimos de forma divina.
Até que caia a cortina de nossa carne, olhamos para o mundo invisível por intermédio da fé e
ouvimos a voz de Deus por meio da fé, mantendo a comunhão com Deus pela fé. Jesus teve essa fé
em seu mais pleno vigor, pureza e clareza. Sua vida é uma vida de fé na acepção mais abrangente da
palavra. Ele aprendeu a obediência, da mesma maneira como Adão também a teria aprendido se não
se tivesse deixado seduzir para a incredulidade por meio do engodo do diabo. Jesus aprendeu a
obediência na luta contra o diabo e a morte, demonstrando cada vez vitória de fé. Que consolo para
nós! Ele foi tentado como nós, ele sabe como nos sentimos em todas as situações, em todas as
aflições.
Ele cresceu em idade. Algumas traduções trazem “estatura corporal”. O termo grego  helikia (cf.
Lc 19.3) pode significar ambas as coisas, idade e estatura corporal. O termo refere-se ao crescimento
exterior, físico. O Filho de Deus certamente também poderia ter entrado na vida humana como o
primeiro Adão, já adulto. Mas para que adquirisse a nossa natureza, Jesus percorreu todas as faixas
etárias. Conseqüentemente, temos de imaginar Jesus como  aprendiz de seu pai, como oficial artesão e
talvez até mesmo como mestre e arrimo de família, após a provável morte precoce de José.
Como a família era numerosa (cf. Mateus 13.55s), pois eram quatro irmãos e várias irmãs, a dura
busca pelo pão diário para os seus depois da morte do provedor não permaneceu desconhecida para
ele. Antes aprendeu pessoalmente o significado do “preocupar-se” de Mt 6, para então ter condições
de ensiná-la com tanta propriedade a nós. Passou por tudo: a vida profissional com seus   milhares de
tribulações, carências e dificuldades. Assim Jesus cresceu em idade e tamanho físico, mas também na
vida terrena e seus fardos. Tudo transcorreu de forma tão silenciosa e oculta que nem mesmo
Natanael, da cidade de Caná, há apenas duas horas de distância, o conhece, embora certamente o
ofício do Senhor Jesus o tenha levado diversas vezes para além das fronteiras de Nazaré. Até mesmo
os moradores de Nazaré afirmam, ao ouvi-lo mais tarde na sinagoga: de onde lhe vêm essas coisas?
Isso é autêntica  humildade, que permanece oculta em silêncio e que aparece somente quando a
incumbência de Deus chama do silêncio e da ocultação para a atuação. Ser forte pela “quietude” foi a
escola de Jesus, sendo também para nós o caminho pelo qual nos tornamos mais se melhantes a ele.
Anos de silêncio não são anos perdidos, da mesma forma que horas de silêncio não são horas
perdidas. Jesus estava no mundo, e o mundo não o conhecia, e apesar disso ele prestou a esse mundo
o serviço mais importante para agora e para a eternidade.
Ele cresceu em sabedoria. A mãe, a natureza, a Escritura Sagrada, a vida e a oração
representaram os ricos recursos que haviam sido proporcionados ao menino Jesus para amadurecer
em direção de um saber claro e saudável.
Há algo admiravelmente grandioso em uma vida conduzida com sabedoria, na qual tudo é
aquilatado e praticado à luz da eternidade, onde se aprende a incluir a totalidade da vida terrena  -com suas preocupações, sofrimentos e alegrias, suas necessidades e demandas diárias, seus
constrangimentos e tentações - de forma cada vez mais completa no grande acorde básico do “Uma
coisa só importa” [hino de J. H. Schröder, † 1699, HPD, nº 171, cf. Lc 10.42], perguntando em todas
as situações: Como o Senhor no céu pensa a esse respeito, e como você pensará a respeito disso um
dia, quando a terra estiver a seus pés e você se escontrar na luz da eternidade? Isso é sabedoria.
Posicionar-se dessa maneira aqui na terra a partir do mirante da eternidade  - isso é sabedoria.
Adquirir nela cada vez mais treino, experiência e agilidade -  isso significa “crescer em sabedoria”.
Até onde posso ir em cada situação? Até que ponto devo falar ou silenciar no convívio com
outros? Quando devemos dizer ao próximo que pecou contra nós, em particular? Quando e por
quanto tempo temos de suportá-lo calados? E onde precisamos ceder, onde insistir em nossos
direitos? Até que ponto devemos consolar ou primeiramente exortar um sofredor? Quanto descanso
podemos requerer para nós? Quando e de que maneira temos de ajudar o empregado que falta ao
trabalho? Até que ponto podemos ser “tudo para todos”? Como devemos posicionar -nos diante dos
partidos na igreja e no Estado? Essas perguntas não são respondidas abrindo a Bíblia e selecionando
mecanicamente um versículo qualquer, mas relacionando corretamente o conhecimento de Deus e do
mundo obtido pela palavra de Deus, e quando levamos em consideração, mediante sábia apreciação,
a situação e as pessoas envolvidas naquela ocasião.
Ele cresceu em graça diante de Deus e das pessoas. Aqui temos de pensar em um crescimento
da graça da aprovação divina e da benignidade paterna sobre esse menino Jesus. Desde o começo ele
foi objeto da graça, porém quanto mais ele crescia e o poder de Deus se disseminava nele, quanto
mais ele superava todas as tentações com fé e sabedoria, aprendendo a obediência, tanto mais
também se avolumava a graça de Deus sobre ele. Novamente deparamo -nos aqui com uma parte de
sua humilhação, que é inegavelmente a maior e mais misteriosa. Ele despojou -se até mesmo de seu
relacionamento original com o Pai. O Criador se rebaixou até sua criatura, que cresce e amadurece
interiormente por meio da obediência.
No entanto, Jesus também cresceu em graça diante das pessoas. Afinal, de agora em diante o rapaz
de doze anos mantinha cada vez mais contato com as pessoas. Em breve, pois, sua natureza amável,
obediente, solícita, afetuosa e correta conquistou os corações das pessoas, de sorte que o tratavam
com amizade e favor. Apesar de sua profunda condição pecaminosa, o mundo sempre respeit a
secretamente a grandeza de uma mentalidade inatacável, das obras e virtudes da bem-aventurança.
Foi isso que também aconteceu com o Senhor. É uma maravilhosa dádiva de Deus quando alguém
encontra graça também diante dos seres humanos. Essa amabilidade repleta e santificada da mente de
Cristo, em atitude e caráter, que atrai e conquista involuntariamente as pessoas, é algo sumamente
belo.
Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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