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História da tentação em si! - Lc 4.1-13

Essa controvérsia está entre as mais impressionantes de toda a literatura universal. Com respiração
tensa acompanhamos o Senhor Jesus, assim como acomp anhamos com o olhar uma pessoa que anda
por um estreito e trepidante tronco que passa por cima de uma turbulenta correnteza. Apenas um
passo em falso e tudo estará perdido.
A mais extraordinária decisão jamais tomada materializou-se naquelas horas da história da
tentação, descrita pelo presente evangelho.  Aqui decidiu-se um futuro temporal e eterno para o
próprio Jesus e também para nós. Se o último Adão tivesse sucumbido ao teste como o primeiro, não
haveria Getsêmani, nem Calvário, nem Páscoa, nem Pentecostes. Nosso destino seria o inferno
eterno.
Debrucemo-nos sobre o texto:
1 – Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi guiado (para lá e para cá) pelo 
mesmo Espírito (Santo), no deserto,
2 – durante quarenta dias, sendo tentado pelo diabo. Nada comeu naqueles dias, ao fim dos 
quais teve fome.
Com as palavras “cheio do Espírito Santo” e “do Jordão” Lucas liga essa história com a
narrativa do batismo. Enquanto outros batizados retornavam para casa após a cerimônia do batismo,
a fim de retomar sua antiga profissão com um novo Espírito, descortina-se para Jesus um modo de
vida completamente desconhecido, que transcorre de maneira bem diferente da vida anterior. A
princípio ele dirigiu-se ao deserto, ao isolamento!
Jesus não foi ao deserto por vontade própria. O Espírito Santo que habitava nele com toda a
plenitude impelia-o com força irresistível, não apenas rumo ao deserto, mas para lá e para cá no
deserto, com uma finalidade bem determinada.
A intenção de Deus é que Jesus fosse tentado pelo diabo. Portanto, o próprio Deus está por trás
desse episódio da tentação no deserto (Cf. Lc 22.31s; 1Co 10.13). E, com base no AT, a pessoa
“tentada” sempre é o devoto e justo, e não o ímpio. Cf., por exemplo, Abraão (Gn 22), José, Jó, etc.
O objetivo da tentação é a aprovação e o aprofundamento da fé, e não pôr em risco ou até mesmo
destruir a fé. (cf. José na casa de Potifar – [Gn 39]). Por essa razão também Tiago escreve:
“Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e
ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1.13). – E, já que é assim e não pode ser de outra forma, o cristão
sempre precisa alegrar-se quando é conduzido para diversas tentações (cf. Tg 1.2).  – Por isso a prece
por tais provações também é encontrada diversas  vezes no saltério. Leia Sl 26.2; 139.23s; Jr 20.12
(veja também a brochura do mesmo autor “Warum all das Leid e Übel in der Welt?” [Por que todo
esse sofrimento e maldade no mundo?]).
Por isso a prece a Deus na oração do Pai Nosso: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos
do mal” [Mt 6.13], só pode ser interpretada da seguinte forma: “Protege-me do mal, para que ele me
não engane –  mas, ó Deus, concede-me a vitória quando o inimigo me aflige, me tortura ou me
amedronta.”
Satanás entra pessoalmente no campo de batalha, de uma forma como jamais se manifestara
anteriormente. Durante estes quarenta dias, o príncipe das trevas deve ter investido com toda a sua
milícia contra o Senhor Jesus. Satanás sabia o que estava em jogo (cf. Comentário Esperança,
Mateus, p. 66, e Marcos, p. 60).
Se alguém perguntasse: “Será que encontrar-se realmente com o diabo já é um fato condenável e
pecaminoso?”, caberia responder-lhe duas coisas:
A história da tentação do Senhor Jesus pode ser chamada de arrasadora revelação da existência do
poder e das leis do reino das trevas. A existência do reino daquele que é pessoalmente mau não é
revelada pelo santo Deus. Ele revela-se em fatos como a tentação de Jesus. A história da tentação
mostra que o diabo é um espírito maligno, um inimigo de Deus. O diabo conhece a Jesus e por isso o
odeia. O diabo conhece a Escritura e por isso a odeia. Ele a odeia e distorce. Distorcer e seduzir é seu
contexto, mentir é seu ofício.
É estranho como longos períodos de desenvolvimento do reino de Deus são repetidamente
acompanhados de uma reação mais intensa do reino das trevas. – No começo da história da
humanidade o pai da mentira se mostra em forma de serpente. Quando Israel está par a tornar-se o
povo eleito de Deus, ele imita os milagres de Moisés por intermédio de mágicos egípcios. Quando o
Filho de Deus aparece na carne, ele multiplica o número dos possessos e tenta fazê-lo tropeçar
pessoalmente. E quando percebe a aproximação da última etapa do reino de Deus, age com fúria, por
“pouco tempo” (Ap 20.3).
As tentações que o Senhor Jesus teve de superar aqui no deserto eram muito mais graves que as
dos primeiros seres humanos. Eles encontravam-se no esplêndido paraíso, eram visitados por Deus e
não sabiam nada a respeito das terríveis tribulações e dos assédios de Satanás. Jesus estava no
inóspito deserto, onde havia apenas areia e pedras. Foi ininterruptamente perseguido pelo diabo
durante quarenta dias e noites. Era imensa a tensão em seu íntimo, de modo que ele se esqueceu de
beber e comer por quarenta dias.
Provavelmente, após o decurso destes quarenta dias, Jesus tenha ficado mortalmente debilitado, e
foi esse momento que o tentador aproveitou para a última e decisiva investida.
A PRIMEIRA TENTAÇÃO – LC 4.3S
3 – Disse-lhe, então, o diabo: Se és o Filho de Deus, manda que esta pedra se transforme em 
pão!
4 – Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem! (As palavras
―mas de toda palavra de Deus‖ constam apenas nos manuscritos koiné e D).
Agora Satanás recomeça, visando realizar um último ataque. Provavelmente ele se mostra a Jesus
na figura de um anjo da luz (2Co 11.14), de forma intencionalmente hipócrita e ofuscante.
Aproxima-se como alguém que (por motivos não imediatamente evidentes) se interessa por Jesus e
tem pena dele, e cujo verdadeiro caráter e natureza somente são percebidos  aos poucos. O Senhor
Jesus o reconhece apenas a partir de suas palavras.
Os v. 3 e 4 descrevem uma tentação concebida de forma particularmente sutil. Com comovente
empatia, aquele desconhecido deve ter-se aproximado do Jesus completamente exausto pela fome,
sugerindo-lhe que transformasse a pedra em pão, por força de sua filiação divina (“Como ele sabe
disso?”, certamente pergunta-se Jesus).
O singular “manda que essa pedra” em Lucas é mais palpável que o plural “manda que essas
pedras” em Mateus. Talvez Satanás até mesmo tenha lhe estendido uma pedra cujo formato evocava
o pão e despertava o desejo por comida. – Ou seja, o assassino de almas sempre utiliza o momento
propício, o lugar apropriado e as circunstâncias oportunas. Ele está a postos quando estamos sós,
quando uma aflição nos tortura e dores nos oprimem, ou quando retornamos de um estudo bíblico.
Como na primeira tentação, no paraíso (Gn 3.1), as palavras “Se és Filho de Deus” são precisas ao
expressar uma dúvida. Seu sentido é: “Se de fato és Filho  de Deus, então nem sequer precisas passar
fome, não tens nenhuma necessidade de permanecer em uma situação de tamanho esgotamento. Isso
está aquém da tua dignidade.” Assim Satanás alude à interpelação de Deus no batismo, que dizia:
“Tu és meu Filho amado”. Seu intuito é confundir Jesus quanto a essa filiação e ao testemunho do
Pai celestial, estimulando-o a adequar sua condição exterior de penúria à sua posição de Filho de
Deus.
Jesus percebe seu esgotamento total. A sensação de fome é avassaladora. Portanto, seria injusto
trabalhar com os dons concedidos por Deus? Afinal, os dons foram concedidos para que trabalhemos
com eles, aumentemos seus benefícios, etc.!
Os dons e poderes que Deus nos confiou, porém, não nos foram dados com finalidade egoísta, mas
como meio para um fim. Satanás queria induzir Jesus a aplicar seus poderes milagrosos, concedidos
para edificar o reino de Deus, com um fim egoísta, e não como meios para essa edificação. Ao fazer
isso, Jesus teria anulado arbitrariamente as condições da vid a humana às quais havia se submetido
voluntariamente. Teria abandonado sua humilhação, sua encarnação, voltando a apoderar -se de sua
filiação divina (i. é, a onipotência e onisciência) e anulando assim, por meio de grandiosos feitos
milagrosos, toda a miséria terrena, sem que o pecado (a real e verdadeira causa de toda a miséria)
tivesse sido eliminado. Com isso teria inviabilizado o programa de sua vocação.
Contudo, Jesus não tinha a intenção de apegar-se à filiação divina, pois havia se despojado dela, i.
é, renunciado a ela. Era vontade de Deus que ele deixasse sua provisão e proteção físicas inteira e
exclusivamente nas mãos do Pai celestial. “Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas
estas coisas (as necessidades temporais) vos serão acrescentadas” [Mt 6.33]. Essa palavra haveria de
confirmar-se primordialmente nele mesmo. Quem se dedica integralmente à causa de Deus e aos
seus sagrados objetivos não precisa nem deve, quando Deus assim o determinar e conduzir, debaterse com preocupações pelo alimento. Quando as forças naturais (nesse caso o pão) não bastam, Deus
faz um milagre. É o que afirma a palavra a que recorre o Redentor diante do tentador: “Não só de
pão viverá o homem.” Desse modo Jesus insere-se integralmente no contexto das pessoas, não
querendo assumir uma posição privilegiada como Filho de Deus. Não se interessa por nenhuma
outra filiação divina que não aquela que engloba a sua humanidade. Se socorresse a si mesmo como
Filho de Deus, ele não seria mais um exemplo para os humanos.
A expressão o homem nos lábios de Jesus lembra Satanás de que Jesus, embora seja o Filho de
Deus, está decidido a cumprir integralmente as condições da existência humana. Como todos os
seres humanos, ele deseja rogar diariamente ao Pai pelo pão, esperand o-o da mão dele. Está
determinado a suportar fadiga e fome sem se refugiar em algum recurso arbitrário de atenuação. Ele
declara que a ciência de sua dignidade como Filho de Deus e verdadeiro Deus jamais o levaria a
renegar por um instante sequer sua humilde existência como ser humano. Em tudo ele pretende
confiar integral e irrestritamente em seu Pai celestial. Ele, o Pai celestial, procederá bem em tudo.
Um terceiro aspecto evidencia o quanto o Senhor leva a sério sua condição humana: ao responder
aos ataques de Satanás, Jesus não se reporta à voz celestial que se aproximara dele quando fora
batizado no Jordão (Lc 3), mas à palavra de Deus, que está escrita  na Escritura de Moisés. As
palavras com as quais derrota o diabo não são palavras novas, definidas por ele mesmo, mas palavras
de Deus há muito ditas e tiradas da Escritura já anotada. Como israelita devoto, ele recorre, com
confiança filial, ao consolo e arrimo de sua existência humana existentes nas palavras da Escritura,
palavras de seu Deus para a dura situação atual na hora da tentação. Não apenas: “Eu e o pai somos
um” [Jo 10.30], mas também: Eu e a humanidade somos um!
A palavra da Escritura em Dt 3.3 não significa que Jesus e nós não precisemos de alimentos para o
sustento da vida. Deus fez o pão para nutrir o ser humano. Contudo Deus pode, se quiser, cuidar de
pessoas e sustentá-las também de outro modo (Dt 29.5). Por essa razão Deus permitiu que o povo
sofresse fome no deserto, saciando -o depois com o maná, para deixar claro que o ser humano vive
sobretudo daquilo que se forma por intermédio da palavra de Javé, i. é, por ordem de Javé. Isso
significa: A palavra de Javé constitui uma força tal que nos mantém com vida (Sl 33.9).
Era assim que Jesus considerava a palavra do AT, superando vitoriosamente a tentação, que Israel
não havia superado.
Resumindo:
O sentido da primeira tentação é:
a) Fé é confiança filial irrestrita. Deus pode e também sustentará onde não existe nada, onde tudo
contradiz a razão (Lc 5.1ss).
b) Conseqüentemente, a fé é o uso correto dos dons concedidos por Deus.
A SEGUNDA TENTAÇÃO – LC 4.5-8
5 – E, elevando-o, (o diabo) mostrou-lhe, num momento, todos os reinos do mundo.
6 – Disse-lhe o diabo: Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me 
foi entregue, e a dou a quem eu quiser.
7 – Portanto, se prostrado me adorares, toda será tua!
8 – Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás 
culto.
A tentação que Mateus relata como sendo a terceira é apresentada por Lucas como a segunda
tentação. Essa inversão provavelmente se deve ao fato de que Mateus descreve os ataques em ordem
cronológica. Lucas, por seu turno, presumivelmente observa uma seqüência gradativa dos locais: o
deserto, a montanha, a cidade santa.
O diabo conduziu Jesus para o alto, mostrando -lhe dali todos os reinos do orbe terrestre,
particularmente “num momento”. O tentador afirma que toda essa esfera de poder e sua glória lhe
fora entregue. Por isso também poderia passá-la adiante segundo seu bel-prazer. O diabo exige de
Jesus que o adore se quiser o que oferece.
Essa condição (a adoração) que Satanás relaciona com a transferência de seu senhorio foi
considerada uma tentação grosseira demais. Qualquer israelita teria rejeitado, imediatamente e com
indignação e justa ira, uma proposta dessas. O sentido é, porém, o s eguinte:
O povo de Israel havia recebido de Deus a promessa de reinar sobre os outros povos, motivo pelo
qual aguardava o Messias, por meio do qual essa promessa deveria ser cumprida.
Portanto, não havia absolutamente nada incorreto no desejo de avançar em direção a esse futuro. É
a essa incumbência que Deus dera ao povo que o inimigo se reporta. Do cume da montanha o
tentador lhe mostra, em um único relance, todos os reinos do mundo, t oda a terra habitada. Foram
magia e ofuscamento satânicos. Todos os milagres satânicos têm uma faceta enganosa. Possuem uma
aparência fascinante (2Ts 2.9). Não são milagres de bênção, que conduzem a Deus, mas artifícios,
ilusão fantástica, que desviam as a lmas de Deus. Estaríamos muito equivocados se imaginássemos o
tentador como aquela figura distorcida em que a Idade Média o transformou.
6  A palavra do diabo “Todo esse poder e sua glória… me foi entregue” contém a alusão a uma
reivindicação legít ima de senhorio. Portanto, como podemos inferir, antes de sua rebelião Satanás
tinha recebido nossa terra como seu domínio. No entanto, foi destronado! E diante dele encontra -se
aquele a quem havia sido prometida a soberania sobre o mundo (cf. Sl 2.8; Dn 7 .13s; etc.) e que
agora viera para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8b). A afirmação “Eu a dou a quem eu quiser”,
pela qual o diabo se declara soberano absoluto e irrestrito da terra, é uma grande mentira. É inegável
que Satanás exerce um terrível poder no mundo. É capaz de elevar a pessoa favorecida por ele ao
mais alto degrau do poder terreno. É o que a experiência demonstra repetidamente. O próprio Jesus
fala do archon deste mundo, i. é, do detentor de poder e soberano deste mundo, em Jo 12.31; 14.30;
16.11. O Senhor levou este potentado sumamente a sério. E também os apóstolos do Senhor sabem
do terrível poder do deus deste éon [desta era] em 2Co 4.4 e Ef 6.12. E toda pessoa que trabalha no
reino de Deus pode relatar a respeito desse  terrível fato de ter o terrível  inimigo dentro e em redor de
si, pela mais amarga experiência própria. O cristão sabe como é poderoso o velho inimigo mau.
Porém – e novamente porém – apesar dessas declarações sobre o diabo como inimigo mortal de
Deus, a fé sempre, constantemente, pode testemunhar maravilhosamente o singular e único Deus do
céu e da terra! O cristão tem certeza do bendito fato de que em tudo o que vem a seu encontro ele não
precisa contar com dois senhores, ou seja, Deus e Satanás, mas apenas e integralmente com o único
Senhor. Foi isso que também sustentou o Senhor, como nosso inigualável exemplo, nessa segunda
tentação pelo diabo. Contou exclusivamente com Deus, seu Pai.
Jesus havia desmascarado a artimanha do diabo. Jesus também conhecia as promessas que hav iam
sido dadas ao povo de Israel e a seu Messias em vista da primazia de Israel sobre os demais povos.
Contudo, em lugar algum a Escritura dizia que essas promessas dadas no AT acerca da eleição divina
e universal de Israel dentre as nações forçosamente significaria, p. ex., um privilégio exterior ou uma
posição de domínio político de Israel sobre os povos. Era precisamente esse o elemento satânico na
intenção tentadora do diabo.  – Infelizmente, na época de Jesus o povo eleito já havia se devotado
inteiramente a essa dimensão satânica da imagem política universal do Messias (cf. o exposto sobre
Lc 3, no tocante à falsa expectativa messiânica daquele tempo, e ao 17º salmo de Salomão).
O assédio sedutor de Satanás na segunda tentação, portanto, consistia em que Jesus deveria ceder,
no curso de sua obra, aos desejos messiânicos terrenos do Israel carnal. Desse modo ele conquistaria
o favor do povo e a cooperação dos líderes religiosos (os fariseus e escribas). Então colheria um
triunfo após o outro, levando, pois, à gloriosa e esplendorosa realização e execução das promessas do
AT acerca de Israel e seu Messias. Essa era a interpretação satânica da Bíblia.
Também nós conhecemos mais do que suficiente a recorrente exegese satânica da Bíblia que
perdura até a atualidade. Basta recordar os entusiastas, os hereges, as maléficas seitas, todos os
movimentos ocultistas, o livre-pensamento na filosofia e na teologia.
Também desta vez Jesus sai vitorioso da tentação, rejeitando a oferta do diabo com as palavras:
“Ao Senhor, teu Deus, venerarás prostrado e só a ele servirás!” Essa declaração é citação de Dt 6.13
conforme o texto alexandrino da Septuaginta. O texto hebraico diz: “A Javé, teu Deus temerás, a ele
honrarás.”
A resposta de Jesus, que também pode ser traduzida como “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e
somente a ele servirás‖, passou a ser o grande lema de sua vida na terra. Com tudo o que é e possui,
ele coloca-se à disposição obediente do Pai e de Deus. “O Filho nada pode fazer de si mesmo (“não
poder” não deve ser interpretado segundo a natureza do Filho, mas segundo sua vontade), senão
somente aquilo que vir fazer o Pai” (Jo 5.19). Quem adora a Deus  abre mão de si integralmente, a
fim de perder-se totalmente para Deus em obediência incondicional a cada instante, dissolvendo-se
no seu serviço. A palavra para servir (latréuo) designa, no presente caso, o serviço sacerdotal. A
vida e atuação de Jesus foram um constante serviço sacerdotal na singela obediência, até a morte,
sim, até a morte na cruz (Fp 2.8). “Embora sendo  Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que
sofreu” (Hb 5.8).
Esse aspecto de obediência absoluta também deve ser conferido à nossa vida por intermédio de
Jesus. Deve ser sustentado pela adoração a Deus e devoção a ele no serviço sacerdotal ( latréuo). –
Essa trajetória de obediência, no entanto, representa uma trajetória de sacrifício radical. Cabe
render-se constantemente, com todos os desejos vãos, teimosos e arbitrários, sobre o altar de Deus,
entregando assim a vida como oferenda a nosso Deus (cf. Rm 12.1).
Esse sacrifício em que constantemente entregamos ao Senhor a nós mesmos e a vida –  inclusive e
principalmente em todos os instantes críticos do dia-a-dia – é obediência diante da vontade de Deus.
Ele é, como Paulo ainda acrescenta, “o culto a Deus condizente com a palavra”. É importante que
aqui se use para “culto a Deus” a mesma palavra grega (na forma de substantivo) que Jesus emprega
na frase “E somente a ele servirás (a saber, latreia)”, ou seja, o serviço sacerdotal em devotada
obediência.
Essa obediência que “sacrifica”, e por meio da qual se processa a santificação do cristão, só tem
um único comportamento: obediência integral, pura, pontual, conscienciosa e alegre!
Sintetizando: na segunda tentação, Jesus deveria simbolizar e incorporar vitoriosamente a
obediência incondicional, não-dividida e alegre, que constitui o outro lado tão importante da
autêntica fé.
A TERCEIRA TENTAÇÃO – LC 4.9-12
9 – Então, o levou a Jerusalém, e o colocou sobre o pináculo do templo, e disse: Se és o Filho 
de Deus, atira-te daqui abaixo!
10 – Porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem;
11 – e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra!
12 – Respondeu-lhe Jesus: Dito está: Não tentarás o Senhor, teu Deus!
A vitória de Jesus na primeira tentação deixou claro o que está em jogo no uso correto dos dons
concedidos por Deus e que “fé” genuína é confiança ilimitada e incondicional em Deus, o Pai. O Pai
há de fazer tudo bem feito!
A segunda tentação mostrou Jesus como aquele que demonstrou a obediência integral e alegre da
fé, que não faz concessões nem para a esquerda nem para a direita, e que tampouco se inclina diante
do eu ou diante do mundo.
A terceira tentação nos revela um terceiro lado da “fé de Jesus Cristo”, sendo também aqui a fé
vista como genitivo subjetivo, i. é, como traço essencial da pessoa de Jesus.
Essa última tentação no deserto constitui um estímulo para a exacerbação ou agudização da
essência da fé.
Por se tratar, nessa tentação, da exacerbação da fé, o diabo recorre pessoalmente à palavra de
Deus, citando o Sl 91.11s. “Está escrito: Aos seus anjos ordenará por tua causa que te guardem, e
eles te carregarão nas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.” O diabo havia notado que Jesus
desembainhara duas vezes uma palavra da Escritura como espada do Espírito. Então o diabo tenta
também utilizar a mesma arma. Sua argüição tem como base uma conclusão  a fortiori (rumo ao
elemento mais forte): “Se Deus é capaz de proteger dessa maneira o justo comum, quanto mais ele o
fará contigo, que és seu Filho!”
É significativo que Satanás, nesta terceira tentação, cite uma grande palavra de fé da Escritura, do
Sl 91, o salmo de fé do AT, a fim de desviar o Senhor (leia esse salmo de fé).
Em que consiste o elemento tentador, o satânico, nessa terceira tentação?
Em nossa opinião trata-se do seguinte: Jesus deve declarar-se publicamente como Messias, i. é,
como Redentor do povo. Nessa notória proclamação, que ainda por cima aconteceria diante do santo
templo em Jerusalém, Jesus deve agir com fé audaciosa.  – Isso parece ser autenticamente bíblico e de
acordo com a fé. Contudo, há um calcanhar de Aquiles em tudo isto: em um ato de fé tão arbitrário, a
majestade e santidade de Deus não seriam honradas e respeitadas, mas desafiadas e coagidas. O
relacionamento entre o Pai celeste e o Filho em peregrinação sobre a terra seria totalmente invertido.
O Filho se tornaria Senhor, e o Pai seria degradado a servo! – Algo inconcebível! Na verdade era
esse o pecado do próprio diabo, que queria apoderar-se como um ladrão da igualdade com Deus, que
ele não possuía (bem ao contrário de Jesus, que desde a eternidade era essencialmente igual a Deus).
– Ele pretendia seduzir Jesus para esse tipo de causa satânica.
Ao responder, Jesus chama a intenção do diabo de tentar a Deus. Aqui o idioma grego apresenta
um termo mais intenso do que simplesmente peirázein = tentar (como no v. 2). Aqui aparece
ekpeirázein. Talvez possamos reproduzir a intensificação com “desafiar insolentemente a Deus”.  –
De acordo com a concepção de Jesus, bem como de toda a Escritura, essa é a maior blasfêmia.
Isso não passa de provocação a Deus, e até mesmo uma ameaça por parte da criatura, de que, se o
Criador não socorrer imediata e instantaneamente a criatura, ela demitirá o Criador. Isso é blasfêmia.
A majestade do onipotente e santo Deus demanda que nossa confiança nele seja irrestrita e nossa
obediência, não-dividida! Podemos confiar que ele socorre em qualquer situação, mas jamais
podemos prescrever-lhe a intervenção. Temos o privilégio de servir -lhe em obediência total como
filhos e com alegria, mas nunca comandar ou ordenar o que ele deve fazer.
Fé genuína, assim como Jesus viveu e prefigurou, é a dependência filial voluntária do Pai no céu,
a coisa menos autônoma que existe em toda humanidade.
Em outras palavras: a melhor e mais ditosa condição na terra não é estar nos pináculos do templo,
bem “por cima”, mas permanecer “por baixo”, sentado aos pés de Jesus, aprendendo de suas
palavras, sendo mendigo em espírito, confessando como o centurião de Cafarnaum: “Não sou digno
de que entres em minha casa” (Mt 8.8). “Sou indigno de todas as misericórdias e de toda a
fidelidade” (Gn 32.10). “Não sou digno de desatar -lhe as correias das sandálias” (Jo 1.27). “Eis que
me atrevo a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza” [Gn 18.27]. Essa é a posição mais bemaventurada na terra! – É ali que cumpre permanecer! Ali acontece o crescimento genuíno da fé, que
tem alegre consciência da dependência permanente do filho em relação ao Pai.
Lutero afirma:
No templo o menino pressentira: „Tenho de estar naquilo que é de meu Pai‟, e o sagrado
pressentimento lhe fora confirmado ao ser batizado no Jordão. Agora ele deve comprovar, no alto do
templo, por meio de um salto, que também lá na altura ele se encontra no que é de seu Pai. Como é
diabólica essa ironia!
E na seqüência o tentador até mesmo torna-se „doutor da Sagrada Escritura‟, dizendo: „Como estás
apelando tanto para a Escritura, também te direi um verso que te dará coragem: Ele ordenou a seus
anjos a teu respeito, etc. Por meio de tua milagrosa preservação conquistarás todo o  mundo. E
justamente os devotos que se apegam ao templo, que na verdade são os que aqui importam, hão de
aderir a ti e dizer: Esse é o enviado de Deus, o Messias, que Deus está enviando palpavelmente até
nós.‟ É dessa maneira que o diabo tenta seduzi-lo para uma fé que no fim das contas nem mesmo é
fé, mas presunção espiritual, exacerbação e exagero da fé, ou seja, transposição dos limites da fé.
Com a singela palavra que o Senhor contrapõe ao tentador: „Dito está: Não tentarás o Senhor,
teu Deus!’, o Senhor evidencia inicialmente que a Escritura precisa ser explicada pela Escritura,
condenando a arte negativa, definhada, de iludir as almas com uma Escritura encurtada ou alongada.
Afinal, o velho inimigo deixou fora as palavras „em todos os teus caminhos‟. O salto arbitrário nos
ares não é um caminho no qual os anjos possam proteger, mas significa tentar a Deus. E isso é o que
Jesus considera como o ponto mais perigoso.
Até aqui as palavras de Lutero.
Essa terceira tentação, cujo objetivo é precaver-nos contra a transgressão da fé para o lado da
exacerbação e insolência, constantemente ameaça os cristãos em dois sentidos. Referimo -nos às
supostas curas milagrosas e a ostentação das chamadas revelações do Espírito.
Acerca das curas milagrosas, Karl Heim afirma:
Para quem não sabe nada de Deus e não é pessoa que ora, é evidente que nas enfermidades existe
apenas uma ajuda, a saber, chamar o médico.
Contudo, quando temos uma vida de oração, surge involuntariamente a idéia: será que consultar
um médico não seria incredulidade, uma desconfiança última contra a onipotência de Deus? Acaso
não está escrito: Eu sou o Senhor, teu médico? Não deveríamos ousar algo grandioso em Deus e
soltar o apego a recursos naturais? O tratamento médico não seria o terreno a que sempre no s
apegamos na incredulidade? Será que não deveríamos tomar um impulso e saltar para o vazio, para
nos deixar carregar exclusivamente pela onipotência divina? Ou seja, nenhuma cirurgia, nenhum
remédio, porém unicamente Deus?
Na terceira tentação Jesus foi confrontado com a mesma pergunta, com a qual centenas de cristãos
se deparam constantemente. Posso fazer uso dos meios naturais? Ou será que isso é pequenez da fé?
Devo largar a segurança pelos meios naturais? Que é certo perante Deus?
Existem horas em que podemos renunciar pela fé a todos os meios naturais, deixar cair todas as
boas escoras, pisar em chão vitorioso e esperar cura exclusivamente pelo poder milagroso de Deus.
Muitos cristãos constantemente o experimentaram e experimentam também nos dias atuais. Contudo
não podemos produzir pessoalmente essa hora. É prerrogativa de Deus fazer isso. Do contrário nos
afastamos da relação filial com Deus. A fé sempre tem de ser obediente.
Até aqui as palavras de Karl Heim.
Acrescentamos: o poder de Deus revela-se de três maneiras, a saber, da maneira que ele deseja.
Ele manifesta-se pela intervenção direta em nosso corpo enfermo, concedendo restauração e cura de
forma milagrosa e perfeita. Ele elimina uma grave doença como o câncer, ou uma demorada
tuberculose pulm onar, ou uma incurável enfermidade estomacal ou intestinal, etc. Em outras
ocasiões, Deus ajuda por meio da cirurgia e do auxílio médico, curando a doença. Uma terceira
situação é quando Deus ajuda a suportar a enfermidade. Recordamos particularmente a Pau lo, a
quem Deus manda dizer: “A minha graça de basta” (2Co 12.8-10).
A forma com que Deus socorre em cada caso, se pela eliminação repentina do sofrimento, se pelo
médico ou ajudando a suportar o sofrimento – isso é determinado unicamente por ele! Qualquer uma
das três formas redundará em bênção para o filho de Deus!
Quanto à ostentação de conhecimentos e revelações mais novas, mais profundas e maiores da
Escritura, Krummacher, ao tratar a terceira tentação, expõe o seguinte: “ disfarçado na figura de um
anjo da luz, o tentador tenta seduzi-lo para fora da sua pequena condição. Ele lhe conduz à cidade
santa e aos pináculos do templo. Ele o leva a uma especulação sobre mistérios insondáveis. O
tentador avança e lhe ensina a considerar pensamentos próprios como revelações do Espírito,
valorizando mais a luz interior do que a palavra escrita. – Então cumpre gritar: “Está escrito!”
Acrescentamos: o tentador analisa seu público-alvo. Ele sabe que amamos a Escritura e estamos
familiarizados com a Bíblia; então o tentador chega a nós com a Escritura, e seus lábios tentadores
exclamam: “Está escrito!”
Conseqüentemente, nesta terceira tentação o tentador tem a ousadia de colocar a palavra da
Escritura a serviço de seus próprios interesses. Também nós estamos entregues a essa tentação
quando, como “eruditos da Escritura”, construímos o nosso sistema de pensamento que depois é
divinamente sacramentado com auxílio de palavras da Escritura. Já sucumbimos ao tentador quando
queremos dispor da palavra. No entanto, não é assim que a palavra de Deus deve dispor de nós?
Coagimos a Escritura para que sirva a nós, ao invés de sermos servos da palavra. Foram trocadas as
competências, e o tentador consegue chegar ao ponto de que a Escritura seja usada para esfacelar a
palavra de Deus!
Chegamos ao final da história da tentação. A fé do Senhor Jesus (cf. Gl 2.20) e, por
conseqüência, toda a fé genuína, vista a partir da história da tentação, contém três coisas:
1) Fé é confiança incondicional e irrestrita (1
a
tentação)
2) Fé é obediência incondicional e integral (2
a
tentação)
3) Fé é dependência filial incondicional e humilde e não uma transgressão arbitrária dessa atitude
(3
a
tentação).
O Senhor permaneceu vitorioso! Essa primeira grande vitória oficial decidiu todo o curso de sua
vida, como a queda do primeiro Adão foi decisiva para todo o gênero humano! Essa primeira vitória
de Jesus constituiu o fundamento de todas as vitórias posteriores, como a primeira vitória de Adão
também teria sido o fundamento da vida do gênero humano como tal (Rm 5).
A primeira vitória do Senhor conduziu-o de vitória em vitória, de luz em luz – não no sentido de
um descanso nos louros da primeira vitória –  mas no de criar uma raiz viva, a partir da qual se
processou um crescimento de fé em fé.
Jesus saiu da escola da tentação e provação com um sólido programa para seu “ministério e
serviço do Cristo”. E ele de fato executou esse programa do Cristo passo a passo, hora a hora, até sua
morte, sim, até a morte na cruz.
Abençoado e fortalecido, por meio do batismo no Jordão e da provação no deserto, ele dirige-se à
humanidade que por ele espera, a fim de redimi-la e libertá-la de pecado, morte e diabo, concedendo
e devolvendo-lhe o que outrora lhe pertencera, mas que ela havia esbanjado e perdido ao d esviar-se
de Deus – a saber, perdão dos pecados, vida eterna e bem-aventurança.
2. A frase final da história da tentação – Lc 4.13
13 – Passadas que foram as tentações de toda sorte, apartou-se dele o diabo, até momento 
oportuno (até outra hora ou até outra oportunidade). [Hb 4.15]
Muitos comentaristas relacionam a expressão até momento oportuno com a luta de Jesus no
Getsêmani. – Nós, porém, somos da opinião de que a expressão grega  achri kairou deve ser traduzida
como “até outra oportunidade”. O diabo ficaria esperando ociosamente até a hora do Getsêmani, mas
aproveitaria incessantemente todas as oportunidades para fazer o Senhor tro peçar. Satanás prossegue
suas tentações, seja por meio dos adversários de Jesus (os fariseus, que em todas as suas
interrogações tentavam armar uma cilada para o Senhor), seja por meio de seus amigos (veja a
resposta de Pedro em Mt 18.21s). Nós, porém, “vimos a sua glória” (Jo 1.14).


Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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