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O começo da atuação de Jesus na Galiléia – Lc 4.14 -15

14 – Então, Jesus, no poder (dýnamis) do Espírito (Santo), regressou para a Galiléia, e a sua 
fama correu por toda a circunvizinhança.
15 – E ensinava nas sinagogas, sendo glorificado por todos.
Esse v. 14 conecta-se diretamente com o v. 1, complementando -o. Jesus deixou o Jordão (v. 1)
para retornar à Galiléia (v. 14). A permanência no deserto representou na prática uma parada ao
longo desse caminho, por estímulo do Espírito Santo. Antes que ele, no entanto, retornasse da
tentação para a Galiléia, voltou ao Jordão, ao local do batismo de João Batista, para ali convocar,
conforme nos informa o evangelista João (Jo 1.29-51), os primeiros seis discípulos para o seguirem.
Na seqüência rumou a Caná na Galiléia (Jo 2.1-11). De lá peregrinou por toda a Galiléia, atingindo
também Cafarnaum (Lc 4.23). Finalmente o Senhor rumou para Nazaré. Depois de ser  enfaticamente
expulso de Nazaré, Jesus mudou-se com a mãe e os irmãos (Jo 2.12) para Cafarnaum, onde
permaneceu primeiro por pouco tempo, estabelecendo-se mais tarde, após o retorno de Jerusalém (Jo
2.13-4.54), definitivamente naquela cidade, e transformando Cafarnaum em “sua cidade” (Mt 4.13;
9.1). – (Observe-se que Mateus recupera esse relato sobre a pregação em Nazaré somente em Mt
13.54-58, e Marcos em Mc 6.1-6a,). Condução e direção pelo Espírito Santo numerosas vezes
coincidem com o “empurrão” e a guinada trazidos pelas circunstâncias.
O v. 14, no entanto, não é apenas uma ligação cronológica com o v. 1, mas também no conteúdo,
pela retomada da expressão “cheio do Espírito Santo”.
Essa visão da atuação de Jesus no contexto da atuação do Espírito Santo  é particularmente
peculiar ao evangelho de Lucas. Nos cap. 1-3 já chamamos atenção para esse fato. Veja-se ali o
exposto sobre Lc 1.15,17,35,41,67,80; 2.25-27,40; 3.16,22; 4.1.
Que significa “no poder do Espírito Santo”? O mesmo Espírito que havia conduzido o Senhor ao
isolamento (Lc 4.1), para longe das pessoas, leva-o agora à cena pública, às pessoas. Com isso fica
claro que Jesus se deixa conduzir em tudo pelo Espírito Santo. Isso vale também para nós. Quem
sempre abre sua vida para o eu e suas demandas, não está aberto para a condução por intermédio do
Espírito Santo. A pessoa que se abre em direção de Deus é conduzida pelo Espírito Santo. O Espírito
de Deus a conduz, seja para o silêncio, para o meio das pessoas, para o descanso ou também para o
trabalho. O Espírito Santo conhece a proporção correta entre repouso e trabalho, entre “inalar” e
“expirar” no tocante ao serviço no reino de Deus. O Espírito Santo sabe qual é o silêncio correto e o
testemunho apropriado.
Com freqüência perdemos essa disponibilidade para nos deixar guiar pelo Espírito de Deus. Por
essa razão acontece a confusão.
Lucas fala “do poder” do Espírito Santo. No caso do Senhor, suas palavras e obras poderosas
(milagres) fluíam da fonte de poder do Espírito Santo. O termo grego para pod er (dýnamis) contém a
característica de ser poderosamente movente, daquilo que poderosamente restaura e coloca de pé.
Nós, no entanto, formulamos a partir do termo dýnamis a palavra dinamite, com a qual designamos
um explosivo altamente destrutivo.
Contudo, onde opera o Espírito de Deus e não o espírito dos humanos e do eu, ali não há
destruição, e sim edificação. Onde o Espírito de Deus, a força dinâmica divina, atua, ali é gerado algo
criativo, divino, eterno. A grande força motriz, as realizações criador as dos “santos na luz” são
sempre uma dinâmica autêntica partindo do poder do Espírito Santo. Embora esses “santos da igreja
de Jesus” com freqüência fossem pessoas fisicamente fracas, doentias, elas mesmo assim realizaram
feitos que muitas vezes não são repetidas pelas saudáveis e fortes. O Espírito do Senhor, que é um
Espírito de poder, produz coisas grandiosas também através de instrumentos frágeis  – e até mesmo
muito mais justamente por meio deles.
Retornemos ao texto.
Líamos no v. 14b que Jesus retornou para a Galiléia. “Isso não é propriamente óbvio. O
movimento messiânico começou na Judéia por meio de João Batista. Portanto, seria mais lógico
começar lá com a atuação. Além disso, Jesus foi solenemente introduzido na Judéia através dos
acontecimento no Jordão, e a Judéia, com a capital Jerusalém, na realidade é a verdadeira sede do
povo de Deus. Lá está o templo. Lá são celebrados os sacrifícios. Para lá afluíam as massas. Lá estão
os sacerdotes. Lá estão as escolas dos escribas. Lá está a tradição dos profetas. Logo, seria de esperar
que Jesus começasse por lá. Mas ele vai para a Galiléia. Mais tarde Jesus também chegará à Judéia”
(Gutzwiller).
Jesus anunciará o evangelho e realizará milagres também na Judéia e em Jerusalém (cf. Jo 2.23).
Em Jerusalém, Jesus sacrificará a si mesmo como oferenda pela redenção de muitos. Em Jerusalém
Jesus consumará a obra da redenção. Porém essa hora ainda não chegou. Na Galiléia, a terra
desprezada, ele primeiramente pretende reunir sua igreja. É pelos desprezados, pelos humildes, pelos
rejeitados que anseia seu coração de Salvador. Esses estão dispostos a acolhê -lo. Os poderosos, “os
ricos, os orgulhosos de espírito, não são receptivos. Crêem-se capazes de ajudar a si mesmos. Quem
crê em auto-salvação não espera pelo Redentor. Quem confia em força e poder pessoais não sabe que
depende da graça.”
Com a Galiléia definiu-se fundamentalmente no evangelho de Lucas o lema da introdução. As
partes principais do evangelho estão subdivididas de acordo com os espaços geográficos. A primeira
parte do relato de Lucas acontece na Galiléia, a segunda no caminho da Galiléia para a Judéia
(muitas vezes na fronteira entre os dois territórios), e a terceira na própria Judéia. Dentro desses três
espaços Lucas compõe a seqüência dos acontecimentos também em certa ordem cronológica, mas
apenas em grandes traços, porque seu interesse é mais o aspecto  temático que o cronológico dos
acontecimentos.
Jesus agora retornou para a Galiléia completamente diferente do que era na época em que fora da
Galiléia para o Jordão, até João Batista. O Espírito Santo, que na ocasião do batismo viera sobre
Jesus para capacitá-lo de modo especial para seu serviço, mostrou-se como a força-dýnamis que o
capacitou para uma atuação “sensacional”. Através do Espírito Santo ele realizou prodígios e
milagres, a respeito dos quais Nicodemos afirma: “Ninguém é capaz de realizar milagres como
Jesus” (Jo 3.2). Sua fama expandiu-se em toda a região. Apresentava-se regularmente, ensinando nas
sinagogas. Em todos os lugares ele obt inha grande reconhecimento e era elogiado como pregador (Mt
7.29). Jesus mostrava-se no meio do povo. Sua mensagem não é coisa particular, assunto
provinciano, evento oculto, mas a realidade mais pública do mundo. A pedra foi lançada na água e
forma um círculo de ondas após o outro. Cada vez maior e mais distante  – até que todos os círculos
batam contra a margem das eternidades. Ressoou a nova melodia. Nunca mais se calará  – nem
mesmo nas eternidades.
Ensinava em suas sinagogas. “Jesus também ensina em outros locais. À margem do lago, na
encosta das colinas, nas casas, mas primordial e repetidamente nas sinagogas, pois ali o povo se
congrega, ali são lidos a Torá e os profetas. Por isso estão na sinagoga os pontos de conexão interno e
externo para o ensinamento de Jesus. Ensinar é a primeira coisa a ser enfatizada. Esta não é a coisa
mais importante na vida de Jesus. Sua morte e sua ressurreição são mais importantes. Se, não
obstante, o ensinamento é salientado aqui em primeiro lugar, isso serve para destacar  a relevância da
palavra” (Gutzwiller).
Também nós precisamos sempre dar ouvidos à palavra de nosso Redentor. Palavras humanas não
deveriam impedir-nos de ouvi-lo! Não é a ciência que soluciona os enigmas últimos e responde às
perguntas mais profundas, mas a palavra de nosso Redentor somente.
As sinagogas em que Jesus se apresentava como pregador itinerante eram locais de reunião que
existiam desde o retorno do exílio, talvez desde antes do cativeiro. Esses locais de culto existiam em
todos os lugares, inclusive em outros países onde houvesse uma pequena congregação judaica
(mesmo que fossem apenas 10 famílias). As pessoas reuniam-se ali no sábado e também na segunda
e na quinta-feira, os dias de tribunal e mercado. Os presidentes da sinagoga assentavam-se sobre um
local elevado na extremidade da sala. Quando alguém solicitava fazer uso da palavra, o que era um
direito de cada homem israelita adulto, ele expressava essa intenção colocando -se em pé. Nas
sinagogas não havia leitores oficialmente incumbidos. Qua lquer membro masculino capaz podia
participar da leitura das passagens da Escritura. No começo da celebração eram lidos trechos do
Pentateuco. A leitura dos trechos de livros proféticos formava o encerramento do culto. Ainda podia
ser acrescentada uma explicação das leituras proféticas proferidas, se alguém tivesse manifestado
esta intenção previamente. Essa pregação também não seguia uma formalidade oficial. Aquilo que
Lucas relata sobre Jesus era o uso geral: ele colocou-se em pé para ler o texto profético, mas depois
da leitura sentou-se para apresentar sua mensagem. Ainda cumpre mencionar que se gostava de
conceder oportunidade a “pessoas de fora” para proferir uma palavra na sinagoga (At 13.15).
[15b] Era glorificado por todos, lemos no v. 15b. Sua estatura, seu modo de falar e comportar-se,
sua presença e sua atuação revestem-se de um caráter irresistível. Quem não ouve com preconceito e
não está interiormente condicionado e endurecido contra ele, acaba por admirar e amá -lo. Ele
constrange a uma decisão. As massas movimentam-se. Todos assumem uma posição de aceitação ou
rejeição. Não há neutros, pessoas que permanecem indiferentes e à margem. A primeira reação não é
a resistência, mas o doxázein, i. é, honrar e glorificar. A resistência à Palavra manifes ta-se somente
aos poucos, adensando-se para uma verdadeira frente de hostilidade. Porém no começo está a
jubilosa adesão. Tudo soa como um novo cântico, e acontece um novo impulso. Conseqüentemente,
essas poucas palavras desenham a atuação na Galiléia como  ensino e atuação em amplitude, como
um suscitar da alegria e como uma obra do Espírito Santo.

Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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