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O grande soberano da virada dos tempos tem de servir ao "menino na estrebaria" Lc 2.1-7

Os dias de César Augusto e do rei Herodes constituem o centro da história universal. “Vindo,
porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4)
e, em contrapartida, “como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse (muito mais) a graça”
(Rm 5.21). O pecado havia se tornado poderoso no judaísmo e no mundo gentio.
A expressão “a plenitude do tempo” de Gl 4.4 significa: na época do mais poderoso e mais
extenso império mundial, a saber, do Império Romano, nasce Jesus. Lutero traduziu, em Lc 2.1, toda
a população por “o mundo todo”. Literalmente consta: “todo a terra habitada”.
O tempo estava cumprido sob o aspecto político, lingüístico e de comunicações. Um  reino (o
Império Romano), uma língua (o idioma grego), uma  rede de comunicação (estradas e conexões de
navegação) unia o império mundial no mar Mediterrâneo.
Em nenhuma outra época anterior os apóstolos teriam sido capazes de disseminar com tanta
rapidez a palavra da cruz. Os canais estavam preparados. Sob a fiel direção de Deus o mundo havia
trabalhado a favor do reino de Deus. O tempo estava cumprid o.
Ao elemento poderoso apresentado em Gl 4.4, sob o aspecto da história universal, agrega-se Rm
5.21: Onde o pecado passou a reinar… O pecado havia eclodido vigorosamente no judaísmo. Cf. a
esse respeito o exposto no Comentário Esperança, Mateus, p. 41ss,  bem como as explicações a Lc 1,
acima, p. 42ss.
O pecado havia eclodido poderosamente no mundo gentio:
O livre-pensamento filosófico havia ridicularizado amplamente a velha fé nos deuses. Uma
mistura de antigas e novas religiões substitutas (sincretismo) havia se alastrado.
Acontece, pois, que o humanamente impraticável (tanto para os judeus como para os gentios) foi
feito por Deus – enviando por sua iniciativa a libertação (a salvação), a saber, no menino de Belém.
1. Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população 
do império para recensear-se.
2. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria 
(Quirino, Cyrenius, também exercia a supervisão sobre a Palestina).
3. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
4. José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, 
chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi,
5. a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
6. Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias,
7. e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou  -o e o deitou numa manjedoura, porque 
não havia lugar para eles na hospedaria.
Em vista do aspecto inaudito do milagre da encarnação de Deus somos surpreendidos pela
característica quase que primitivamente singela, por assim dizer, da narrativa de Lucas, seca e em
forma de crônica, com muitos “e”, seguidos de “aconteceu” ou “sucedeu que”, com frases
subseqüentes simples, breves, sem elaboração artística. Esse tipo de objetividade nua só pode ser
concebida por um autor consciente de fixar por escrito nada menos, mas tampouco nada mais que a
verdade.
Cumpre-se agora a promessa extraordinária e incompreensível feita a Maria em Lc 1.31 -37. O
eterno e santo Filho de Deus, o próprio Deus, nasce em meio à humanidade pecadora.
Retornemos ao texto:
Com simplicidade, como se não tivesse acontecido absolutamente nada especial, Lucas começa:
1  Aconteceu, porém, naqueles dias. A referência cronológica “naqueles dias” remete-nos de volta a
Lc 1.57ss, i. é, ao tempo do nascimento de João Batista. Contudo, “naqueles dias” é uma expressão
tão geral que não informa nem a data do aniversário em si nem o ano do nascimento de nosso
Redentor.
Os dias de nascimento dos grandes homens daquele tempo, p. ex., Augusto, Tibério, etc., são
informados da maneira mais exata possível. As obras historiográficas informam essas datas. Parece
que os evangelistas que escreveram acerca de Jesus não estavam nem um pouco preocupados com
isso. Na realidade não visavam redigir uma biografia d e Jesus ou editar uma obra historiográfica
científica. O propósito não era comunicar conhecimento, mas  despertar fé.
A inserção do nascimento de Jesus no contexto histórico do governo do imperador Augusto tem
meramente a finalidade de mostrar que em última  análise os mais poderosos desta terra não passam
de instrumentos para a concretização da vontade de Deus!
O texto original de Lucas diz: Aconteceu… que saiu uma ordem (um dogma) de César Augusto.
Onde diz decreto (ordem), consta no grego “dogma”. A expres são “dogma” possui diversos
significados no NT.
No lugar de “recensear-se” o texto original traz apographesthai. Isso significa “o registro do nome
de cada cidadão, de sua idade, posição social, do nome da esposa e dos filhos, do patrimônio e da
renda no cadastro oficial com o objetivo de calcular os impostos”.
O resultado do recenseamento de César Augusto foi de 60 milhões de pessoas. Isso significava:
um imenso reino, uma enorme potência. O resultado da contagem divina significa: “Um pobre
gênero humano, um mundo perdido!”
No v. 2 lemos: Esse recenseamento foi o primeiro no tempo em que Quirino (Cyrenius) foi
governador na Síria.
Os historiadores romanos também citam o senador P. Salpicius Quirinius. Nascido nas cercanias
de Lanuvium, em Tusculum, na Itália, ele soube galgar altos cargos no império através de ações
astutas.
3  Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
4  José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada 
Belém, por ser ele da casa e família de Davi,
5  a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
Também no decreto de César e na obediência do judeu José ao gentio Augusto, que governa de
modo absoluto, se explicita que unicamente a mão de Deus governa, precisamente pelo fato de que
Jesus nasceu em Belém para cumprir a Escritura e para que se cumprisse a vontade de Deus.
No v. 4 consta enfaticamente: José foi a partir da Galiléia (mais precisamente da cidade de
Nazaré) subindo para a Judéia (tradução do autor).
Nazaré está situada a 525 metros acima do nível do mar, e Belém a 777 metros acima do nível do
mar. Em cerca de cinco dias de caminhada era possível chegar a Belém partindo de Nazaré! A
distância entre Nazaré e Belém era de 170 km.
No tempo de Maria e José, Belém era uma localidade consideravelmente miserável. Setecentos
anos antes o profeta Miquéias já designara Belém de pequena. Em Mq 5.2 lemos: “E tu, Belém, (na
região de) Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, (mas) de ti me sairá
o que há de reinar em Israel…”
Contudo, Lucas não cita Belém como “local de cumprimento” de profecias do AT, simplesmente
como a cidade de Davi.
A cidade de Davi não é a cidade em que Davi governava, mas aquela na qual ele nascera (cf. 1Sm
16.1, 17.12).
Do v. 4 depreende-se claramente que José era da descendência de Davi, o que confirma a
genealogia de José em Mt 1.1-16. José é descendente direto da linhagem real.
Os 170 km de viagem de Nazaré a Belém devem ter sido muito difíceis para Maria, que se
encontrava no nono mês de gravidez. Para os numerosos migrantes do recenseamento, não apenas  a
precária condição das estradas representavam uma incomparável agrura, mas também o calor do dia,
a poeira da estrada, a carência de água, a irregularidade da alimentação. O esforço da caminhada, a
precariedade dos abrigos noturnos, tudo isso Maria teve de suportar em avançado estado de gravidez!
Depois de chegar a Belém é que o sofrimento começou de fato. Pelo fato de que o pequeno local
pululava de gente, era absolutamente impossível conseguir um abrigo para a noite. Quantos lamentos
e súplicas ardentes devem ter sido alçados ao céu para que Deus proporcionasse um abrigo ao jovem
casal (que na verdade se encontrava em uma aflição ainda maior em vista da iminência do parto de
Maria). Contudo, não houve resposta à insistente prece.
6  Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias,
7  e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não 
havia lugar para eles na hospedaria.
De maneira simples e singela Lucas relata o episódio mais importante da história universal: o
nascimento do Salvador.
O texto bíblico salienta: “Maria deu à luz seu filho, o primogênito (em grego: prototókos).” A
Igreja Católica Romana crê que a expressão  “primogênito” significa o mesmo que filho único, isto é,
que Maria não teve outros filhos posteriormente porque Maria não teria mantido relacionamento
conjugal com José.
Diante disso, no entanto, cumpre constatar que a expressão “primogênito” (prototókos) deve ser
usada de forma conscientemente contrária a “filho único” (monogenés). Também na presente
passagem cabe dar todo o mérito à letra da Escritura, porque de acordo com o testemunho múltiplo
dos evangelhos Jesus tinha 4 irmãos e várias irmãs (cf. Mt 12.46ss; 13.55s; Mc 3.31ss; Lc 8.19ss; Jo
2.12; 7.3).
A palavra “primogênito” é pronunciadamente hebraica. “Filho primogênito” corresponde ao termo
hebraico bekor, uma expressão de significado particularmente jurídico, porque o primogênito
hebraico (sempre que possível) tinha de ser apresentado no templo de Jerusalém, ou melhor,
“resgatado do serviço sacerdotal”. Lucas, portanto, já agora nos prepara, pelo significado da palavra
“primogênito”, para a apresentação no templo, um relato que somente Lucas faz ent re os quatro
evangelistas.
Lucas assinala com destaque especial que “não havia lugar para eles (autois) na hospedaria”.
Essa forma de expressão é mais ponderada do que parece à primeira vista. Se Lucas tivesse apenas a
intenção de afirmar que o abrigo de caravanas (a hospedaria em si) não era capaz de acolher mais
ninguém, teria bastado que escrevesse: “Não havia mais lugar na hospedaria”. Mas, pelo fato de que
a frase enfatiza que para eles não havia lugar, Lucas aponta para a condição peculiar em que se
encontrava o casal, em vista da iminente hora de nascimento do menino Jesus.
Por meio do fato de que para o Senhor não havia qualquer hospedaria, cumpriu-se também a
palavra: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11).
É impressionante essa grande renúncia a todos os recursos tão necessários para o nascimento de
uma pequena vida humana, que na verdade merece ser colocada em um berço macio e quente,
preparado por afetuosas e ágeis mãos maternas. Talvez possamos considerar a acomodação em u ma
manjedoura como sinal do imenso sacrifício redentor no Calvário, do qual todos os viventes hão de
se beneficiar.
Três vezes ocorre a menção da manjedoura: no nascimento, na fala do anjo, e finalmente quando
os pastores encontram a criança (Lc 2.7,12,16; pormenores sobre a “estrebaria” por ocasião do relato
acerca dos pastores).
O camponês palestino costuma acomodar-se no chão para dormir. Isso não o incomoda. Porém de
uma manjedoura para um recém-nascido dispunha – desde os tempos de Abraão – até mesmo a  mais
pobre mãe palestina (veja Dalman, Orte und Wege, 1921, p. 36s).
Com a manjedoura, Israel, o povo eleito de Deus, deu as boas-vindas ao Messias. E com a cruz
despediu-o da forma mais infame!

Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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