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O louvor de Zacarias - Lc 1.67-79

68a  “Bendito seja o Senhor (o enaltecido seja o Senhor), Deus de Israel” – Zacarias designa o Deus
de Israel como o Deus de Israel realmente vivo, eterno e verdadeiro. Esse Deus Javé agora visitou
seu povo. A expressão “visitar” designa a intervenção e chegada divinas após um período de aparente
não-preocupação.
68b  “Porque visitou e redimiu o seu povo.” O nascimento de João é o primeiro fato flagrante da
redenção em vias de ser consumada. De acordo com o modo profético, bem conhecido do AT,
Zacarias já vê, no começo da história, a conclusão e a consumação. Sua fé já “viu” [pretérito
perfeito] irromper na criança a salvação perfeita. “Ele redimiu seu povo.” Dessa vez trata -se de uma
redenção perfeitamente integral, de um desvencilhamento, uma redenção [compra da libertação] de
toda e qualquer servidão (porque daí é derivado o termo redenção), livramento e libertação
completos, um rompimento de todas as correntes, um alívio de todos os fardos.
69  “E nos suscitou na casa de Davi, seu servo, uma poderosa e plena (ou um chifre) de salvação.”
– A imagem do chifre ocorre com freqüência no AT para designar a força que se precipita. A
imagem, no entanto, não é retirada dos chifres do altar, que aque les que estavam em busca de
salvação tentavam agarrar, mas dos chifres do touro, nos quais reside a força desse animal. A
expressão “na casa de Davi” não permite dúvidas de que Zacarias considera a virgem Maria como
descendente de Davi. O chifre da salvação é poderoso para derrubar e perfurar a velha serpente e
toda a sua descendência.
70  “Há muito tempo, desde a eternidade, o Senhor comunicou sua redenção pela boca dos seus
santos profetas” (tradução do autor). – Esse texto explicita claramente a magnitude do plano de
graça e salvação de Deus, anunciando a redenção por antigas promessas constantemente
confirmadas. Para um sacerdote como Zacarias, que desde a infância fora instruído no AT, essas
profecias eram muito conhecidas. O adjetivo santos designa os profetas como homens ungidos por
Deus para serem órgãos de sua revelação.
Os dois v. 71 e 72 desenvolvem o conceito chifre de salvação do v. 69. O chifre de salvação
refere-se à salvação diante de nossos inimigos e da mão de todos aqueles que nos odeiam. Causanos estranheza que Zacarias desde já fale de “inimigos”, em vez de “pecadores”. No entanto, seu
olhar abarca o todo e o desfecho. O olhar do sacerdote vê a redenção de seu povo, ao qual ele
pertence pessoalmente. No Senhor, Zacarias contempla um rei, um rei Davi, cuja obra será (como no
caso de Davi) libertar Israel da mão de todos os seus inimigos. O que Davi realizou, afinal, senão
guerrear as guerras de Deus? É isso que também esse rei fará, contudo sem contaminar as mãos com
sangue, motivo pelo qual também poderá erigir o santuário de Deus (1Cr 22.8). As palavras de
Zacarias têm o caráter próprio do AT, designando com simplicidade e veracidade a esperança dos
iluminados em Israel, a mesma esperança que vivia, p. ex., também nos discípulos de pois da
ressurreição de Cristo (At 1.6).
72s  “Para usar de misericórdia com os nossos pais e lembrar-se da sua santa aliança: de cumprir
o juramento que fez a Abraão, o nosso pai.” – Deus se lembra de seu pacto. Ainda não está
arrependido de ter escolhido esse povo, tão teimoso, que não se cansou de provocar sua ira, e cuja
história é uma longa série de abjetas renegações e por isso também de terríveis juízos. O mesmo
povo, ao qual entregara tão grandes revelações e em cujo seio realizara mui grandes prodígios,
ajudando-os em tantas numerosas aflições. Esse povo que, porém, matou e lapidou os profetas que
lhe foram enviados! Não obstante, o Senhor recorda sua aliança! Sim  – tomaram seu Filho e o
crucificaram, mas apesar disso ele lembra sua aliança com esse povo, porque Deus não se arrepende
de suas dádivas e vocações (Rm 11.29).
Para que tivéssemos um consolo firme ele se rebaixou a ponto de prestar um juramento. E pelo
fato de não haver alguém superior pelo qual pudesse jurar, jurou por seu próprio  nome (Ez 33.11):
“Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus.” Ele não deseja ser Deus, Javé, o Deus vivo, se não
cumprir sua aliança. Acaso o Senhor poderia humilhar-se ainda mais, será que ainda haveria qualquer
outra coisa que pudesse fazer para silenciar um coração incrédulo?
Lembre-se do juramento de Deus, ligado a tantas promessas consoladoras, lembre-se do último e
grande juramento, que se chama Jesus (Mt 26.63s), e não acuse seu Deus de perjúrio! Como ele
conhece admiravelmente bem nosso pobre coração, atormentado de dúvidas! Ele providencia
fielmente, por meio de sua palavra, de sua aliança e agora também de seu juramento, meios para que
todas as preocupações e objeções sejam forçosamente destroçadas! Tenhamos vergonha da
pecaminosidade de nosso coração desconfiado, que exige que Deus ainda jure! Contudo seria
praticamente inconcebível que não quiséssemos dar crédito nem mesmo ao Deus que jura!
74s  “Para que, livres das mãos de inimigos, o adorássemos sem temor, (a saber) em santidade e
justiça perante ele, todos os nossos dias (i. é, durante toda a nossa vida).” – O grande alvo, o
glorioso fruto da redenção é o “culto a Deus em santidade e justiça”. – Como o coração do sacerdote
Zacarias deve ter se alegrado com essa perspectiva! Quantas vezes, quando se dirigia ao templo para
servir ao Senhor, seu próprio pecado anuviara seu coração com um fardo pesado! Quantas vezes
ficara aflito, vendo que o povo se achegava ao Senhor apenas com os lábios, honrando -o apenas da
boca para fora, mas mantendo o coração longe dele! Agora seu anseio sacerdotal será saciado: a
“adoração a Deus em santidade e justiça” aproximará a redenção. Todo o Israel, como povo
sacerdotal, cumprirá seu chamado (Êx 19.6) em um culto a Deus desse tipo. É preciso enfatizar que
se trata do fruto da redenção, e não do fundamento e da causa da redenção. É fruto da gratidão pela
redenção que o povo redimido agora sirva de coração íntegro e completo ao Senhor. Mas também
esse culto puro a Deus, essa santidade e justiça, esse fruto da gratidão são obra de Deus, dádiva de
Deus até o alvo final.
Depois de enaltecer a grande salvação de seu povo, Zacarias volta o olhar para o bebê João. “E
também tu, criancinha” - Zacarias não diz: “tu, meu filho”, mas “tu, criancinha”. Até mesmo o
sentimento de pai desaparece diante da obra que ele vê sendo realizada através de seu João. “E
também tu, criancinha, terás uma posição importante na salvação manifesta,  serás chamado profeta
do Altíssimo”. A criancinha é chamada somente de profeta do Altíssimo e não filho do Altíssimo (v.
32)! Isso precisa ser bem observado! A palavra “profeta do Altíssimo” reproduz o conteúdo dos v. 16
e 17.
76b  Para o israelita autêntico, um profeta é algo muito especial. Os profetas eram os personagens mais
destacados na verdadeira história de Israel. Neles, Israel (o que luta com Deus) parece ter chegado à
sua verdadeira vocação. Os profetas constituíam um testemunho vivo de que Deus estava com seu
povo. E agora, há quanto tempo não havia surgido um profeta! Quatrocentos anos haviam
transcorrido desde Malaquias. Ainda que desde então os “profetas” eram lidos todos os sábados nas
sinagogas criadas depois do exílio babilônico (At 13.27), isso não substituía a atu ação viva da
personalidade profética.
“Porque precederás o Senhor, preparando-lhe os caminhos.” – Para compreender
integralmente essas palavras significativas de Zacarias, é preciso comparar o que ele afirma aqui
sobre a obra de João com aquilo que ele expressou no v. 71 acerca da obra do Messias. O próprio
Messias trará a salvação (soteria); João, porém, proporcionará as condições para que a salvação seja
reconhecida = a gnosis da soteria.
78s  “Por causa da entranhável misericórdia de nosso Deus” – No grego, a expressão “cordial
misericórdia” reza splanchna eleous e significa: “as entranhas da misericórdia”. De acordo com a
acepção do AT, elas representam a sede de todos os sentimentos mais profundos, especialmente da
comiseração e do amor. – A salvação é atribuída à misericórdia do próprio Deus, como nas palavras
de Jesus: “Deus amou o mundo de tal maneira…” ou “Deus avançou tanto com seu amor em direção
ao mundo que ele até entregou seu Filho unigênito” (Jo 3.16).
Que vitória da misericórdia sobre a justiça! Agora o coração de Deus descortina-se aberta e
livremente. Perscrute o coração de seu Deus: perscrute todas as motivações e todos os movimentos, e
você não encontrará mais nenhuma hostilidade, por menor que seja, nenhuma sentença de
condenação sequer para aqueles que desejam agarrar a salvação.
78b  “Pela qual nos visitou o sol nascente das alturas.” – Um astro que emerge das alturas nos
visitou, ou seja: “um ser que vem do alto.” Dessa maneira visa-se expressar que esse ente que surge
sobre a terra é de origem divina, eterna. Por meio de Maria, Zacarias conhecia o maravilhoso
mistério da encarnação de Jesus.
Deus, que na comunhão com seu Filho amado vivia em bem-aventurança não-turbada desde a
eternidade, entrega o que tem de mais precioso, mais qualificado por nós. Prefere abrir mão, por um
tempo, da comunhão direta e da plena bem-aventurança, prefere – em palavras humanas – ser
temporariamente solitário do que permitir que corramos para a condenação eterna: que sacrifício do
Pai! Que entranhável misericórdia de nosso Deus! Quem é digno e capaz de vislumbrar as
profundezas da divindade, precisamente as profundezas de sua compaixão?
79  “Para alumiar os que jazem nas trevas e (os que se assentam) na sombra da morte, e dirigir os
nossos pés pelo caminho da paz.” – As expressões desse versículo são emprestadas de Is 9.1 e Is
60.2. As trevas são a imagem da alienação de Deus e da condição a ela associada, da miséria e da
ignorância. A sombra da morte é expressão das mais profundas tr evas em nosso redor. Tão
lamentável parece ao sacerdote Zacarias a condição em que se encontra o mundo judaico e gentio por
ocasião da vinda do Redentor. A expressão “assentar-se” refere-se à condição do esgotamento e do
desespero em que caiu a humanidade. – Não é preciso entender a expressão “caminho da paz” apenas
na acepção de “o caminho que conduz à paz e à salvação”, mas igualmente como aquele no qual se
“anda” em paz, i. é, em segurança.
“O surgimento a partir das alturas” é a salvação do Messias. Essa salvação equivale ao sol
nascente. Contudo, enquanto o sol terreno é um sol que na aurora surge de baixo para cima, o
“surgimento a partir das alturas” é o sol que desce do alto e que brilha sobre o mundo. Unicamente “a
partir das alturas” uma luz conseguiria penetrar nas trevas noturnas. “Quem vem da terra é terreno e
fala da terra; quem veio do céu está acima de todos”, diz João Batista (Jo 3.31). Trata -se de uma
“visita” que vem do Pai da luz, no qual “não pode existir variação ou sombra de mudança” [T g 1.17].
Interrompe-se o estar sentado, a letargia em trevas. Agora aprendemos a andar, precisamente um
novo caminho, um caminho da paz. Aprendemos a andar um caminho com Deus.
Assim como o cântico de Zacarias foi precedido por uma observação que encerrou as narrativas
anteriores acerca do nascimento de João Batista (v. 66), assim também aparece aqui uma nota
histórica que tem por finalidade mediar a transição da infância ao início do ministério de João
Batista.
Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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