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O Senhor da lei é posto sob a lei. - Lc 2.21-38

Nada é relatado da primeira infância de João Batista, porém no caso de Jesus três importantes
acontecimentos duplos são narrados.
1) Primeiro acontecimento duplo: quando o bebê tinha 8 dias de idade, ele é circuncidada em casa,
em Belém, e recebe seu nome. É isso que relata o v. 21.
2) Segundo acontecimento duplo: quando o bebê está com 40 dias de idade, acontece o sacrifício
de purificação da mãe Maria no templo de Jerusalém. Ao mesmo tempo é oferecido também o
sacrifício da apresentação pelo menino Jesus. Disso nos falam os v. 22 -24.
3) Terceiro acontecimento duplo: imediatamente após o sacrifício de purificação e apresentação
acontecem os louvores de Simeão e de Ana. Sobre isso informam os v. 25-38.
Todos os três acontecimentos duplos têm em comum o aspecto de revelar o menino Jesus em sua
humildade e glória.
O primeiro acontecimento duplo
21 – Completados oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de Jesus,
como lhe chamara o anjo, antes de ser concebido.
Os 8 dias prescritos pela lei para a circuncisão são rigorosamente observados. Quem realizava a
circuncisão era o pai. Ela aconteceu na casa em Belém. Precisamos supor que logo depois do
recenseamento, tendo cumprido seu dever, as pessoas retornaram novamente às suas terras. Com a
partida desses numerosos viajantes havia novamente lugares disponíveis nos albergues.
O que significa a circuncisão? 1) Ela é uma confissão: Deus coloca sua mão sobre mim. Sou um
pecador. Sou culpado de morte. 2) A circuncisão significa acolhida no povo eleito. Embora eu seja
culpado de morte, Deus me permite viver e até mesmo me acolhe em seu povo  escolhido, Israel.
Estabelece uma aliança comigo. Ele o faz retardando a punição pelos pecados do povo até o dia em
que colocará a punição pelos pecados sobre aquele que nunca cometeu um pecado, Jesus Cristo. Leia
Rm 3.25. 3) A circuncisão representa um compromisso. O israelita se desprende da vontade própria,
separa-se da vida autônoma.
Para Jesus, a circuncisão foi o começo de sua trajetória de sacrifício rumo ao Calvário.
1) Deus coloca a mão sobre o menino Jesus. Que estranho! Ele, sendo sem pecado, é d eclarado
aqui culpado de morte, com vistas à vicariedade do Calvário. 2) Ele, o eleito desde a eternidade, que
não precisava acolhido no povo eleito, é acolhido, não porque Deus quisesse retardar nele a punição
do pecado, mas porque Deus quer executar nele a punição do pecado. 3) O compromisso contido na
circuncisão, a saber, abrir mão da vontade própria, foi cumprido de modo perfeito pelo santo Filho de
Deus. Lemos em Jo 5.19: O Filho não pode fazer nada de si próprio, mas o que ele vê o Pai fazendo,
isso também o Filho realiza. E 1Pe 1.18-22 relata a paixão e morte de um cordeiro inocente.
À circuncisão estava ligada à atribuição do nome. Lemos: deram-lhe o nome Jesus, que fora citado
pelo anjo.
O nome Jesus, portanto, lhe foi dado por Deus, por meio do anjo. Isso é importante. Quando
pessoas dão nomes, este nome expressa um desejo. P. ex., quem dá ao filho o nome Frederico deseja
que este se torne uma pessoa pacífica [literalmente: rica em paz]. Quando Deus concede um nome,
ele não contém meramente um desejo, mas a realidade. O nome Jesus expressa uma realidade: Deus
ajuda poderosamente, no tempo e na eternidade.
O segundo acontecimento duplo
22 – Passados os dias da purificação deles segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém
para o apresentarem ao Senhor,
23 – conforme o que está escrito na Lei do Senhor: Todo primogênito ao Senhor será
consagrado!
24 – e para oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida Lei: Um par de
rolas ou dois pombinhos.
A lei previa a realização de dois atos: primeiramente o sacrifício de purificação, que devia ser
ofertado em prol da mãe, v. 22 e v. 24, depois a apresentação da criança como primogênito, v. 23.
De acordo com a lei, uma mãe que desse à luz um menino, era considerada impura por 40 dias
depois do parto. Durante esse tempo ela precisava permanecer em casa e não podia entrar no templo.
Essa impureza ritual testemunhava que todas as pessoas são nascidas em pecado. Visava manter viva
a consciência da pecaminosidade (Gn 3.10,16).
Durante sua peregrinação para a purificação, Maria poderia ter pensado: “Será que de fato fiquei
impura quando aconteceu o milagre do nascimento de Jesus?” Contudo Maria não acalentou esse tipo
de pensamento. Como serva do Senhor, ela percorre com modéstia e obediência o caminho  prescrito
a toda parturiente: o caminho até o ofertório de purificação. Justamente nessa caminhada de
obediência até o templo de Jerusalém, a fim de realizar o sacrifício de purificação, ela prepara a
oportunidade para que Simeão e Ana reconheçam e enalteçam o Cristo como Senhor e Redentor.
A oferenda dos pobres era um par de pombas, uma para a oferta queimada e outra como sacrifício
pelos pecados. Os ricos deviam acrescentar um cordeiro ao holocausto pela purificação, sendo que a
pomba era suficiente para o sacrifício pelos pecados mesmo para os ricos (Lv 12.8).
O Senhor demandava a santificação dos meninos nascidos em Israel como gratidão pelo fato de
que ele os havia poupado quando feriu os primogênitos dos egípcios. Através dos primogênitos todo
o povo dos egípcios fora golpeado, e Israel fora poupado (embora também fosse culpado de morte).
Israel deveria permanecer consciente de que era povo de Deus unicamente em virtude da soberana
graça. Por essa razão os primogênitos deviam ser consagrados ao Senhor  e, nos primogênitos, Israel
se consagrava a ele como povo. Essa consagração era chamada de “apresentação” e indicava que o
menino fora consagrado ao Senhor e entregue para servir ao templo.
Mas o primogênito era eximido desse serviço no templo porque o Senhor havia aceitado os levitas
para que exercessem o serviço sacerdotal em lugar dos primogênitos (Nm 3.13,40). Contudo, a fim
de manter viva no coração do povo a consciência do direito de Deus sobre a primogenitura, Deus
instituira o pagamento de um resgat e para cada primogênito.
O preço do resgate era 5 siclos (Nm 3.47 e 18.16; cf. também Mc 11.15).
José efetuou o pagamento dos cinco siclos, equivalentes a 12 gramas de prata ou ouro. Um artesão
como José tinha de trabalhar quarenta dias para juntar esse va lor.
Embora aqui Jesus fosse resgatado de seu serviço sacerdotal como qualquer menino israelita, na
verdade ele se apresentava a Deus como se não tivesse sido eximido. Nele e com ele são, como aqui
na imagem reflexa, assim no Calvário de forma essencial e em verdade, consagrados a Deus todos os
seus irmãos nascidos posteriormente, formando, como povo de sua propriedade, um reino somente de
sacerdotes. Esse é o cumprimento da cerimônia no AT no NT.
O terceiro acontecimento duplo
O louvor de Simeão e Ana, v. 25-38 - De Simeão - Lc 2.25-35
25a – Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão; homem este justo e piedoso que
esperava a consolação de Israel.
Que personagem maravilhoso, esse Simeão! Quem era ele? O texto diz: “Ele era um ho mem”. A
julgar pela narrativa, era um ancião, talvez desconhecido entre as pessoas, porém bem conhecido de
Deus. Quase poderíamos dizer que ele aparece no relato de Lucas à semelhança de Melquisedeque,
sem que sejam mencionados pai, mãe, genealogia, o começo ou fim da vida (Hb 7.3).
Simeão é um representante para muitas almas tementes a Deus. Sua justiça consistia na fiel
observância da lei, e seu temor a Deus em um reverente respeito à sublimidade e santidade de Deus.
Por reconhecer que era impossível cumprir por si próprio a lei de Deus, tinha anseio por consolo e
paz. Era algo que somente o Messias prometido poderia propiciar-lhe. Por essa razão, seu temor a
Deus transformava-se cada vez mais em espera pelo consolo de Israel. Porém, sSua espera foi longa,
até a idade de ancião.
“Prosdéchomai” não significa esperar, mas aguardar. Aguardar diz respeito a uma espera bem
específica, i. é, a pessoa que espera dirige o olhar e toda a atenção àquilo que vem, que há de suceder.
Prosdechomai ocorre para Simeão, no v. 25, e para Ana e os “humildes na cidade de Jerusalém”, no
v. 38.
Esse aguardar faz parte do amadurecimento de toda a verdadeira espiritualidade. O servo que
aguarda é sempre o servo mais fiel.
De onde vem a expressão “consolação de Israel”? Talvez essa expressão evoque Is 40.1ss.
Assim como a igreja do Novo Testamento exclamará, com vistas à vinda plena de Cristo, de
forma cada vez mais alta e insistente: “Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20), a ssim também a
prece pela vinda do Cristo se torna cada vez mais insistente. A profunda vergonha do povo de Israel
impelia as pessoas mais sérias e compenetradas a aprofundarem-se na Escritura, a pesquisar se,
afinal, não chegaria em breve o tempo em que o Senhor se compadeceria de seu povo. Quem dava
atenção a Gn 49.10 e Daniel 9.24, podia considerar plausível a idéia de que o Senhor viria em breve.
Mas aquilo que acontecera com o sacerdote Zacarias causara um impacto peculiarmente profundo
naqueles que há não muito tempo o viram sair do templo em Jerusalém. Esse impacto acelerou
poderosamente a expectativa. Entre essas pessoas pode ter estado também Simeão, com seu coração
sensível.
25b – E o Espírito Santo estava sobre ele.
Em Zacarias, Isabel e Maria já ressurgira o despertar do Espírito profético. Simeão e Ana parecem
ter sido impelidos por mais tempo pelo Espírito profético. O Espírito Santo é também um Espírito de
oração. Simeão era um orador tenaz e devotado.
26 – Revelara-lhe o Espírito Santo que não  passaria pela morte antes de ver o Cristo do
Senhor.
Ele havia obtido a bendita certeza interior de que não morreria sem ter visto o Cristo do Senhor.
Como essa resposta deve ter dado asas a seu anseio! Como seu olhar deve ter buscado o Cristo do
Senhor, a consolação de Israel, desde então! De acordo com o texto, no entanto, Simeão
provavelmente procurara um homem, e não um menino.
27a – (No Espírito) Movido pelo Espírito, foi ao templo.
Desta feita Simeão, portanto, não foi ao lugar sagrado em que sempre gostava de permanecer por
causa do seu costume, mas por um irresistível impulso que tomara conta dele, levando -o a correr ao
templo justamente naquele momento. A direção de Simeão por intermédio do Espírito Santo ainda
tem uma conotação típica do AT. O Espírito não habita (de forma imanente) nele, como nos crentes
posteriores, mas vem temporariamente sobre ele como um poder que, na seqüência, o conduz e
pressiona.
27b – E, quando os pais trouxeram o menino Jesus para fazerem com ele o que a Lei
ordenava,
28 – Simeão o tomou nos braços e louvou a Deus, dizendo:
29 – Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra.
30 – Porque os meus olhos já viram a tua salvação, (Is 40.5)
31 – a qual preparaste diante (da face, dos olhos) de todos os povos: (Is 52.10)
32 – luz para revelação aos gentios (Is 42.6 e 49.6), e para glória do teu povo de Israel.
Quando três pessoas pobres (como Maria, José e o menino Jesus) adentravam o templo de
Jerusalém, nada em seu aspecto atraía os olhares dos que os rodeavam, ouvindo as explicações dos
mestres fariseus ou comercializando no átrio dos gentios. Afinal, muitas mães chegavam diariamente
para a oferenda de purificação e para o sacrifício de apresentação do primogênito. O pequeno grupo
de fato não merecia uma atenção especial. Contudo precisamente nesse dia estava no átrio um
homem que enxergava mais fundo que os demais e que era capaz de perceber o que estava oculto à
multidão. – Com santa reverência, Simeão, conduzido pelo Espírito Santo, aproxima-se e encara o
bebê. Então a realidade fica clara para ele, e passa a ser sua mais ditosa certeza:  esse bebê é ele! E
Simeão toma-o nos braços. Quem poderia impedir o ancião? E louvou a Deus. O ancião curvado
sobre o menino deve ter formado um quadro profundamente comovente. Não o acaricia e beija. A
reverência proíbe-o de agir com essa criança como se costuma agir com outras crianças. Que brilho
deve ter se estampado no semblante idoso! Simeão alcançou o que almejava e aguardava. Seu
coração se dissolveu em alegria divina.
Em Simeão encontramos a imagem do Israel que atingiu o cumprimento de sua missão especial,
porque a salvação na verdade devia vir dos judeus. “Senhor, agora despedes em paz teu servo.”
Simeão encontra-se ali como alguém prestes a embarcar na carruagem da eternidade. Com esse
“agora” ele se desprende desta terra. Na verdade, seus olhos físicos apenas contemplaram um
pequeno bebê. Mas os olhos da fé vislumbraram nesse menino a eterna salvação de Deus, um
maravilhoso mistério.
Agora Simeão está satisfeito. Agora ele tem paz. Foi liberto de todas as preocupações pelo futuro
de seu povo e de toda a pressão que ainda onerava sua alma por causa do presente sombrio. Agora
não deseja mais nada. Seu tempo de serviço chegou ao fim. “Agora, Senhor, despede teu servo” ou,
em outra tradução: “Senhor, agora desarreia teu servo, mais precisamente em paz conforme tua
promessa!”
O agraciado servo de Deus não encontra a paz em suas obras, mas unicamente no fato de que tem
a Jesus e sua salvação.
É interessante que Simeão emprega para a palavra “Senhor” não o termo grego “kyrios” =
“Senhor”, mas recorre à expressão “despótes” = “soberano, imperador”. Seu intuito é estar, como
escravo, totalmente submisso a seu patrão.
“Meus olhos viram a tua salvação”. A expressão “viram” é significativa. Recordamos a narrativa
acerca dos pastores, onde também é dito: “Vejamos a palavra” (Lc 2.15).
Simeão vê nesse menino a salvação não apenas para Israel, mas igualmente para todas as nações.
Simeão expressa isso da seguinte forma: “A salvação que preparaste diante dos olhos de todos os
povos (Is 52.10). Uma luz para revelação aos gentios e para a glorificação de teu povo Israel.”
Aquilo que Maria indicara no Magnificat, que Zacarias deixara transparecer no  Benedictus, que o
Gloria in excelsis Deo, o louvor dos anjos, já proclamara  –  isso agora é expresso de modo
completamente nítido e irrestrito no Nunc dimittis de Simeão, i. é, no cântico: “Agora demite teu
servo…”: veio “uma luz para a revelação aos gentios”, ou seja, o menino Jesus traz a salvação a
“todos”, gentios e judeus.
No instante em que o menino Jesus é resgatado de suas obrigações de primogênito no povo de
Israel, ele se torna propriedade de salvação de todos os povos da terra.
Ficamos pasmos com a profunda percepção que Simeão tem da função do Messias. O fato de que
o Messias traz salvação para todos os povos e representa luz para os gentios, para aqueles gentios
incrédulos que estavam fora do eleito povo israelita, significa escândalo e revolução para o
farisaísmo. – Posicionar Israel e as demais nações lado a lado, no mesmo nível, era, na opinião dos
escribas judaicos, heresia e agitação! Um estreito orgulho nacional levara a esquecer passagens como
Is 42.6 e Is 49.6.
33 – E estavam o pai e a mãe do menino admirados do que dele se dizia.
Com que poder e comoção os sons desse cântico devem ter perpassado a alma de seus pais!
34a – Simeão os abençoou, continuamos na leitura. Agora ele faz o melhor para os pais, a
saber, ―abençoar‖. Uma alma sacerdotal pode e deve abençoar.
Humanamente talvez pareça questionável que agora Simeão inescrupulosamente passe a misturar,
nos v. 34b e 35, uma amarga gota no cálice de alegria da exultação materna. Simeão havia visto e
anunciado a “glória” da criança. Contudo também não deixa de ver sua “humildade”. A partir das
palavras proféticas da antiga aliança Simeão dá a entender à mãe que seu Benjamim, seu “filho de
felicidade”, se tornará um Benoni, i. é, um “filho de dores” (Gn 35.18). São esses os maravilhosos
caminhos de Deus.
Como eram terrenas as concepções do reino messiânico até mesmo entre os discípulos do Senhor,
inclusive após sua ressurre ição! Como foi indizivelmente difícil para eles entender que Cristo teria de
sofrer e ressuscitar (Lc 24.25s)! E no caso de Simeão? A consolação de Israel é simultaneamente
aquele que passará pela mais profunda e dolorosa aflição. Como ele obtém essa perce pção? Será que
foi por revelação direta? Não, foi a pesquisa na Escritura que lho concedeu. Como era diferente a
pesquisa dos escribas! Simeão havia dado atenção especial à palavra do servo sofredor de Deus em
Isaías (Is 50.6; 53) e outras profecias correlatas nos salmos e profetas.
34b – Eis que este menino está destinado (literalmente: deitado) tanto para ruína como para
levantamento de muitos em Israel.
Constitui um atestado da visão profunda do velho Simeão que ele constate o cumprimento da
promessa de Isaías (Is 8.13-15) em Cristo. Em Israel todos têm de passar por ele e ninguém pode
deixá-lo de lado. Israel é como uma torrente que será quebrada diante de Cristo, a rocha, seguindo
seu curso dividida. Para a condenação de alguns, para a salvação de outro s.
Até o dia de hoje a humanidade divide-se e continuará a dividir-se diante dele! Enquanto alguns
enaltecem o evangelho como poder de Deus para a bem-aventurança de todos os que nele crêem,
para outros o Cristo crucificado é estorvo, escândalo, tolice, absurdo.
34c – E para ser alvo de contradição. Esse grande sinal do amor de Deus é transformado em
alvo do escárnio e da ridiculização.
35 – (também uma espada traspassará a tua própria alma).
A espada perpassou a alma de Maria não apenas no Calvário, mas freqüentemente também antes,
sendo que o Calvário foi sua última e mais contundente manifestação.
Simeão na realidade fala de um grande evento, de um golpe mortal de espada, em decorrência do
qual seu coração de mãe sangrará. Mas Simeão ainda não vê que evento é esse. O Espírito de Deus
poupa-o dessa mais terrível das imagens de horror, a ignominiosa execução de Jesus como
“facínora” no madeiro maldito. Ele poupa também a mãe, mas a aflição e a gravidade do madeiro
maldito já estão diante dos olhos de Simeão, quando este menciona, em lugar da cruz sofrida por
Jesus, a espada que traspassa a mãe de Jesus.
O mesmo evento, porém, que penetra como uma espada na alma de Maria, serve simultaneamente
para que se manifestem os (maus) pensamentos de muitos corações (v. 35b; os “maus” consta
também no manuscrito encontrado sobre o Sinai). Na cruz do Calvário manifestou-se o coração de
Judas, a maléfica autoconfiança de Pedro, além da grande fraqueza dos  demais discípulos. Na cruz
do Calvário manifestou-se o coração hipócrita dos fariseus, cheio de inveja e ódio, o coração
pusilânime de Pilatos, a volubilidade do povo de Israel entre seu “Hosana” e “Crucifica-o!”, e a
rudeza dos gentios. Na cruz do Calvário explicitou-se o que Jeremias (Jr 17.9, literalmente) diz:
“Extremamente traiçoeiro é o coração, e desesperadamente corrupto; quem o sondará?” A
contradição, exacerbada até a crucificação real do príncipe da vida, desmascara o íntimo do coração
de todo o mundo, dos inimigos do próprio Senhor, de cada pessoa. Lutero diz: “Não apenas eu, mas
nem mesmo um apóstolo teria sido capaz de imaginar ou crer que exista uma maldade tão grande no
mundo.”
De Ana. V. 36-38
36 – Havia uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, avançada em
dias, que vivera com seu marido sete anos desde que se casara
37 – e que era viúva de oitenta e quatro anos. Esta não deixava o templo, mas adorava (a
Deus) noite e dia em jejuns e orações.
É estranho que sejamos informados precisamente sobre quem foi Ana. Mas não lemos as palavras
de seu louvor. Exatamente ao contrário de Simeão, do qual nada se diz acerca de sua vida, mas se
reproduz o louvor. A narrativa adquire, assim, conotação de relato histórico, minuciosamente
pesquisado por Lucas. Ana, a “filha da graça”, como seu nome pode ser traduzido, é expressamente
honrada com o título de uma profetisa. Ela exercia sua profissão à maneira das profetisas do AT, à
semelhança de Débora (Jz 4.4) e Hulda (2Rs 22.14), ainda que talvez somente para um pequeno
grupo. Ela é chamada de filha de Fanuel (aquele que vê a Deus). O nome do marido não é
mencionado. Descendia da tribo de Aser, que tinha seu território na porção noroeste da Galiléia. Ana
veio ao templo das regiões mais distantes. Servir a Deus representava sua mais sublime alegria, era
esse o contexto em que ela vivia e se sentia bem-aventurada. Com oração e jejum ela se devotava
sem cessar a seu Deus.
Esses anciãos, que vivem tão ligados a Deus e à sua palavra e em oração, são poderosos
pregadores, até mesmo quando não pregam audivelmente. São, no entanto, singelos apresentadores
da palavra.
38a – E, chegando naquela hora, dava graças a Deus.
Seu louvor e sua exaltação foram um eco a Simeão. Ela acolheu o testemunho dele e o entendeu,
por estar plena do mesmo Espírito. Simeão a antecedeu no louvor, e ela o segue. A profecia de
Simeão é confirmada por Ana: isso é agir divino. Quantas vezes os dois anciãos podem ter-se
encontrado nesse lugar, partilhando seu anseio e sua esperança! Agora alegram-se juntos. A alegria
da idosa Ana, no entanto, transborda, de tal maneira que ela não pode deixar de contar o que viu e
ouviu.
38b – e falava a respeito do menino (Jesus) a todos os que esperavam a redenção de
Jerusalém.
Encontramos aqui um grupo de humildes. Não é dito se eram muitos ou poucos, contudo deve ter
sido um pequeno “grupo de comunhão” em Jerusalém, em parte fruto do fiel trabalho de Simeão e
Ana. Esses dois parecem ter sido uma espécie de referência para aqueles que aguardavam a salvação.
A expressão “redenção em Jerusalém” é oriunda de Is 52.9, onde se lê: “Javé tem compaixão de seu
povo, ele redime a Jerusalém.”
Portanto, Jesus foi trazido ao templo e apresentado diante do Senhor, sem que o sacerdócio oficial
do templo e de Jerusalém tomasse conhecimento dele. O dom da profecia, inerente ao simples
israelita Simeão e a Ana, faltava completamente nesses sacerdotes. O santo de Israel é trazido para
dentro do templo, e os servidores oficiais do santuário não o percebem.
Permanece calado o templo visitado por Jesus, no qual os humildes haviam cele brado uma festa
de sua aparição. Em Nazaré, porém, desenvolvendo -se em sagrada reclusão, cresceu a salvação do
mundo, vindo a ser menino, jovem e homem.

Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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