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Somente mensageiros vindos da eternidade são capazes de anunciar essa grande façanha de Deus e cantar para sua adoração. - Lc 2.8-14

8 – Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu 
rebanho durante as vigílias da noite.
9 – E um anjo (mensageiro) do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor 
brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor.
10 – O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, 
que o será para todo o povo:
11 – é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador (um Redentor), que é Cristo, o 
Senhor.
12 – E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em 
manjedoura.
13 – E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a 
Deus e dizendo:
14 – Glória (ou: honra) a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem 
ele quer bem.
Não foi sobre o menino diante de Maria que resplandeceu a luz celestial. A estrebaria continuou
escura e em sua constituição normal. Contudo lá fora, no campo, na direção do deserto, onde os
pastores de ovelhas estavam acampados junto aos rebanhos, um dos mensageiros angelicais cumpriu
um alto mandato de arauto (Schlatter).
Depois que o primeiro Adão havia sido criado conforme a imagem de Deus, ele foi saudado por
uma criação perfeita, “muito boa” segundo a avaliação de Deus, e esse Adão na realidade era da terra
e terreno. O outro Adão, porém, que é o Senhor do céu (1Co 15.47)  – para este há somente uma
estrebaria e um cocho. No entanto, o céu está repleto daquilo que a terra deixa de lhe oferecer! A
terra se cala. Todos dormem na noite profunda. O céu, porém, celebra um grandioso e eterno dia, e
de sua mesa ricamente servida caem migalhas tão preciosas para os “cachorrinhos” na terra que estes
são tomados de uma poderosa intuição da futura glória do novo céu e da nova terra.
As revelações de Deus na aparição de seu anjo, revelações que no geral eram dadas somente aos
eleitos da velha aliança, a saber, aos profetas em si, e também apenas a alguns indivíduos,  são agora
concedidas a um grupo inteiro de pobres pastores que à noite cuidam dos rebanhos no campo. São
pastores os que pela primeira vez ouvem acerca da encarnação de Deus da boca do anjo.
A classe dos pastores de ovelhas é muito desprezada na literatura rabínica. Os fariseus os
caracterizavam como ladrões e enganadores, igualados aos publicanos e pecadores. Os pastores eram
considerados plebe que desconhece a lei. Os tribunais não admitiam pastores como testemunhas.
Eram privados da honra dos direitos civis.
Um ditado rabínico dizia: “Nenhuma classe no mundo é tão desprezível quanto a classe dos
pastores.”
É desses pastores, que cuidavam do rebanho nas cercanias de Belém, que a história do Natal fala
agora.
Sobre os mesmos campos em que no passado Davi pastoreava os rebanhos do pai, e sob o mesmo
céu estrelado, sob o qual Davi se edificava (Sl 8), os pastores talvez entoassem os salmos de Davi,
fortalecendo assim o seu anseio pelo  filho de Davi. Deve ser plausível a suposição de que aqui em
Belém aquela expectativa estava particularmente viva, pelo menos entre aqueles que esperavam pela
redenção.
Comprovações disso aparecem em Lc 2.38, onde não se afirma que Simão e Ana esperavam pela
“redenção” (lytrosis), isto é, pelo Messias, em Jerusalém –  mas que, como consta no v. 38, havia “em
Jerusalém muitos” que se devotavam ao mesmo anseio. Se acrescentarmos aos que esperavam em
silêncio, além de Zacarias e Isabel, Maria e José, também os pastores de Belém, o número dos que
aguardam a salvação certamente não terá sido pequeno. Em que terá consistido sua expectativa pelo
Messias? Talvez aguardassem a redenção de Israel no sentido de Is 40.1 e Is 49.13. Talvez esses
“humildes da terra” vissem o consolo e o socorro de Deus no fato de que  ele se compadece
especialmente dos miseráveis e desprezados no povo, acolhendo-os.
Retornemos aos pastores de Belém. Era noite. Um silêncio profundo e solene paira sobre os
campos adormecidos. Não se ouve nenhum som. Serenamente brilham os astros. Os pastores vigiam
junto aos rebanhos. Freqüentemente o Senhor está muito próximo nessa abe nçoada solidão.
Justamente no silêncio podemos experimentar e vivenciar a proximidade de nosso Deus.
Visto que o nascimento do Redentor aconteceu durante a noite, os pastores foram os únicos que
puderam ouvir a mensagem, enquanto vigiavam os rebanhos. “Os adormecidos não são acordados,
mas são chamadas as pessoas de Belém que estão vigilantes naquela noite” (Schlatter).
9  E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles.
Se em algum momento da história da humanidade houve necessidade de que anjos falassem, foi
neste momento. – O céu havia tomado a resolução da encarnação. Do céu viera o Filho de Deus para
chamar a si a humanidade. É ao céu que a humanidade será reconduzida. A terra deverá ser
novamente unida com o céu. Porventura deveríamos estranhar que os habitantes do céu participem
alegremente da execução das resoluções celestiais?
O anjo do Senhor, porém, não se apresenta de modo simples e singelo, como o arcanjo Gabriel
aparecera a Zacarias lá no templo ou à virgem Maria naquela casa em Nazaré. Agora o esplendor do
Senhor, a doxa = glória, o envolvia. A glória do Senhor é aquela shequiná, aquela plenitude da luz de
Javé que atesta sua presença, aquela coluna de fogo em que Javé (Cl 1.15) seguia adiante do povo e
habitava entre o povo (Êx 33.14). Portanto, a primeira revelação do Redentor a Israel aconteceu
exatamente da maneira que o povo da aliança podia esperar, conforme toda a sua condução e
educação. Essa glória da luz do Senhor rodeava não somente o  anjo, mas também os pastores. Eles
estavam envoltos por esse mar de luminosidade, diante do qual as estrelas empalidecem e a noite se
transforma em dia! Essa glória da luz do Senhor é um fulgor das alturas, que nos permite vislumbrar
a magnitude e imensurabilidade daquela glória em que os anjos se encontram na face de Deus. Nele o
céu se inclina à terra, a fim de anunciar à terra que também ela há de ser novamente consagrada
como lugar da honra divina. Essa claridade celestial deve expandir -se sobre a terra, continuando a
iluminar de ano para ano, de século para século, de modo transfigurador na igreja dos crentes, até que
ele venha, a saber, o próprio Senhor, o Redentor do mundo, por intermédio do qual se formam um
novo céu e uma nova terra.
E ficaram tomados de grande temor. Quando a doxa, i. é, a radiante glória da luz do céu rompe
a escuridão da terra, temor e pavor são sempre a primeira reação do ser humano mortal e pecador. O
poder divino de luz causa ao ser humano temor e pavor até mesmo quando traz uma notícia alegre e
salutar (Lc 8.25 e Gn 28.17). O pecado, a imperfeição e impotência do ser humano destacam-se
nítida e grotescamente à luz do dia da revelação celestial, provocando pavor, como se o próprio juiz
celestial tivesse vindo e quisesse trazer à luz tudo o que ainda resta de pecados ocultos. Também o
crente treme e estremece diante dessa manifestação de luz vinda da eternidade. Ele se atemoriza
enquanto ainda vive no crer e não no ver (Dn 10.15s; Ap 1.17; Lc 1.12,29).
O anjo de luz aproxima-se dos assustados pastores como um personagem amistoso, dizendo
palavras tão grandiosas e poderosas que ainda hoje, ao soarem para diante de um coração carente de
salvação, o temor diante da majestade e santidade de Deus forçosamente desaparece. E a claridade e
glória de sua graça refulgem em direção dele, de sorte que tão somente resta ao homem adorá -lo.
10  O anjo, porém, lhes disse: Não temais! É a primeiríssima mensagem de Natal, muito sucinta,
simples e sem ornamentações (Lutero diz: nos versículos  10-14 cada palavra precisa ser considerada
com a máxima exatidão). Esse primeiro sermão de Natal contém apenas a frase: “Não temais!”
Quando a glória do Senhor resplandece com graça e veracidade, já não há espaço para o temor, mas
unicamente para a alegria e o regozijo.
Eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo. No texto original
consta: eu vos “evangelizo”, i. é, “trago-vos uma alegre notícia”.
A mensagem do anjo traz uma primeira tríade no v. 10: 1) alegre notícia, 2) grande alegria, 3) para
todo o povo.
O anjo do Senhor não traz juízo, mas alegre notícia. Esta é a primeira característica essencial da
nova aliança. No entanto, a palavra euangelitzesthai = evangelizar, trazer uma notícia alegre – ainda
é reforçada pela palavra grande alegria. Essa é a segunda característica essencial da nova aliança. E
essa grande alegria é novamente intensificada pelo fato de que ela vale plena e exclusivamente para
todo o povo, para cada ser humano na terra (como no v. 14b). Essa é a terceira característica
essencial da nova aliança. Ainda que os pastores inicialmente a acolhessem literalmente como alegria
para o povo de Israel, na essência a afirmação expressa o universalismo pleno da salvação, que vale
para toda a humanidade.
Uma segunda tríade está contida na mensagem do anjo no v. 11a: 1)  é que nasceu, 2) para vós, 3)
hoje.
1) Ele nasceu. O nascimento é sempre a primeira realidade de um ser humano de carne e sangue
(cf. Jo 1.14). Esse Redentor “nasceu”. Ele nasceu, e não apareceu como esse anjo que o anuncia com
as vestimentas de luz da glória de Deus. Não, esse Salvador tornou-se nosso irmãode sangue, osso
dos nossos ossos, carne de nossa carne, para que soubesse como nos sentimos neste pobre corpo
carnal, e viesse a ser nosso misericordioso sumo sacerdote, para expiar nosso pecado e nos atrair para
o alto como membros de seu corpo, de sua carne e seus ossos (Ef 5.30).
2) Para vós, diz o anjo. Essa é a mais gloriosa palavra em toda a primeira pregação de Natal.
“Para vós”, diz o anjo, “para vós”, para os humanos, não para nós, os anjos, é que ele nasceu, se
tornou ser humano. Lutero diz: “Os anjos não  precisam do Redentor, e os diabos não o querem. Ele
veio por nossa causa, nós é que precisamos dele.”
3) Hoje! O Redentor, que é de eternidade a eternidade, entrou no tempo. A palavra “hoje” define
seu nascimento como fato histórico. A encarnação do Filho de Deus não é um pensamento, u ma
idéia, um produto da fantasia que se construiu em personalidades ansiosas e esperançosas, mas um
fato histórico que provocou um efeito imenso.
Desde aquele “hoje” passaram-se séculos, mas será que a palavra do anjo não continua sempre
ressoando em nosso coração, como se fosse hoje? A história de nosso Redentor, por mais verdadeira
e real que tenha sido no tempo, não é como a história de outras pessoas, pertencente apenas ao
tempo. Aqui o passado se torna presente, porque essa história pertence à eternida de e se renova
incessantemente, prolongando -se todas as vezes que seu poder animador é experimentado por um
coração humano.
A mensagem do anjo contém uma terceira tríade.
Um Redentor (Salvador), que é Cristo – um kyrios (Senhor) na cidade de Davi. Três tít ulos –
três nomes para o menino de Belém: 1) Redentor (Salvador)!  Soter! – 2) Cristo (Ungido – Messias) –
3) Senhor (kyrios).
Quanto a 1) Redentor (Salvador). O AT fala diversas vezes de redentores, de salvadores. P. ex., os
juízes são chamados de “salvado res”, pessoas que o Senhor convocou em épocas difíceis para salvar
seu povo (Jz 3.9; 2Rs 13.5: Ne 9.27; Obadias 21). – Acima de tudo, porém, desde os primórdios a
palavra “Redentor” é um título de honra de Javé (1Sm 14.39; Sl 17.7; 51.14; Is 43.3,11). Agor a, no
entanto, Deus enviou um Redentor que é simultaneamente o próprio Deus Redentor. Por essa razão
ele é o Redentor, e em nenhum outro há salvação e redenção (soteria), e tampouco há outro nome no
qual os humanos serão bem-aventurados.
É peculiar que a palavra Redentor, muito usada no linguajar da igreja de Jesus, ocorra apenas 16
vezes no NT com referência a Jesus. Nos evangelhos, o termo Redentor (Salvador =  soter) aparece
apenas duas vezes, justamente em Lc 2.11 e em Jo 4.42. Já Paulo usa “Redentor” para o Senhor
exaltado (p. ex., Fp 3.20 e Tt 2.13).
Não se deve ignorar que não há artigo antes de “soter” = “Redentor” ou “Salvador”. O anjo não
anuncia “o Redentor” aos pastores, mas um Redentor que deve ser comparado aos redentores que
Deus suscitou em épocas muito distintas. Veja-se Ne 9.27. Mas a palavra subseqüente “Cristo”
imediatamente diz aos pastores que esse Redentor (Salvador) não pode ser comparado com aqueles
heróis de Israel, mas que ele é o Redentor por excelência. Curiosa é aqui a escrita minúscula e a falta
de artigo antes do nome Cristo (no Comentário Esperança, Marcos, há mais detalhes a esse respeito,
p. 41s).
2) Que é Cristo. Por meio da palavra Redentor (Salvador) o anjo anunciou a grande obra de Jesus.
Agora ele cita seu título. Ele é Cristo, i. é, o Ungido, em hebraico o “Messias”. No AT esse nome
ocorre somente em Daniel 9.25s, mas desde então se tornou tão predominante entre o povo judeu que
o anjo foi imediatamente compreendido quando usou esse termo.
Em Israel o sacerdote era ungido (Êx 29.7; Lv 4.3,5; Lv 8.12 e Sl 105.15). A unção com óleo
anunciava ao sacerdote que ele precisava do “óleo”, i. é, do Espírito no seu serviço sumamente
importante. Mais tarde o Ungido em Israel é o rei (1Sm 2.10,35; 10.1; Sl 2.2 e Is 45.1). Jesus,
portanto, passa a ser simultaneamente sacerdote e rei. Ele é um rei sacerdote com o Espírito
profético, como Israel o necessita. Unicamente por intermédio desse Cristo, o Ungido no sentido real
e pleno da palavra, os filhos de Israel e todos os que pela fé lhe  foram acrescentados, podem tornarse cristãos, i. é, ungidos: a saber, “raça eleita, o sacerdócio real, a nação santa, povo de propriedade
exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes daquele que o chamou das trevas para a sua
maravilhosa luz” [1Pe 2.9].
3) Senhor (kyrios). O anjo acrescenta a Cristo ainda o termo  kyrios = Senhor. Essa correlação é
única no NT. De At 2.36, “Senhor e Cristo”, depreende-se que cada palavra possui um significado
determinado, delimitado. Quando o menino recém-nascido é chamado pelo anjo de “Senhor”, isso é
sumamente relevante. O primogênito de Maria é um “kyrios”, um Senhor dos pastores e de todo o
povo! Pelo fato de que toda a profecia conhece somente um Único eternamente entronizado, uma luz
intensa incide sobre a criança que nasceu naquela noite e que vale como Senhor para toda a
humanidade. Kyrios é, na forma mais profunda, “Deus” (Cf. Kittel, Theologisches Wörterbuch).
A última coisa que o anjo tem a dizer é que o nascimento aconteceu “na cidade de Davi”. Isso
não é apenas uma confirmação de que Jesus é realmente o Rei Messias, que deveria ser oriundo da
casa de Davi, mas dessa forma também se explicita a peculiaridade do cumprimento da profecia
messiânica.
Por mais que as revelações da nova aliança suplantassem a velha aliança, todos esses
cumprimentos literais visam demonstrar com que profundidade a nova aliança está enraizada na
antiga.
12  E isto vos (pastores) servirá de sinal (de identificação): encontrareis uma criança envolta em
faixas e deitada em manjedoura.
Uma admirável troca: o servo (no caso, o anjo do Senhor) vem na “glória de seu Senhor”, a saber,
em esplendor de luz sobrenatural, a ponto de as pessoas se atemorizarem (v. 9), mas o Senhor em si
vem como um bebê de fraldas na manjedoura. De fato, se o anjo do Senhor não o tivesse dito
pessoalmente – como os pobres pastores poderiam ter crido e acolhido essa mensagem?!
Como tudo até então, também a notícia do sinal de identificação é desdobrada em uma tríade para
os pastores:
1) Uma criancinha, 2) envolta em faixas, 3) deitada em manjedoura.
Comecemos falando sucintamente do próprio sinal de identificação! Como é peculiar esse
“semeion”, esse sinal de identificação da manjedoura, na mais amarga pobreza e humilhação, em
contraste com os sinais posteriores, os “semeia”, milagres e prodígios de Jesus que autenticavam
poderosamente sua condição de Messias (cf. a esse respeito, o Comentário Esperança, Mateus, p.
164, sobre os sinais prodigiosos em seu significado tríplice, e no comentário a Marcos, p. 197 e a At
2.22 [p. 50], onde se fala de Jesus de Nazaré como aquele que foi autorizado por Deus por meio de
façanhas poderosas, de prodígios e sinais).
Talvez aqui já seja possível apontar para o grande fato, extraordinário e ímpar, de que Jesus foi
pessoalmente o “sinal milagroso (semeion) como tal (Lc 2.34) alvo de contradição”. Em Mt 12.39ss,
em virtude do sinal de Jonas, Jesus, o Ressuscitado, é o sinal milagroso ( semeion) para a
humanidade. Com base em Mt 24.30, Jesus, o que há de retornar, é igualmente o sinal milagroso
(semeion), mais precisamente o “sinal do Filho do Homem” para as pessoas. Ou seja, no “Salvador
que há de voltar” pode-se constatar as marcas das chagas nas mãos e nos pés, “sinais de
identificação” de sua anterior humildade.
Retornemos à tríade da mensagem do anjo!
1) Uma criancinha (brephos). Como é indefesa uma criancinha recém-nascida! – É nessa
condição desamparada que o Deus e Senhor eterno se coloca. “A quem o orbe jamais cercou, no colo
de Maria jaz: pequena criança vem a ser do mundo o Mantenedor!”
2) Envolta em faixas. Essas fraldas que o envolvem cuidadosamente visam assinalar o amor
materno protetor. Schlatter opina: “Com isso aniquila-se qualquer concepção docetista (de aparência)
de uma criança-prodígio que se move imediatamente e consegue proteger-se por si mesma.”
3) Deitada em manjedoura. O nascimento do Senhor na “estrebaria” é relatado indiretamente em
dois momentos. Uma vez Lucas aponta para uma estrebaria por meio da já citada tríplice menção da
manjedoura em Lc 2.7,12 e 16 – e, além disso, a tradição de Belém aponta para uma gruta como local
do nascimento, pois na Palestina as cavernas situadas na proximidade dos vilarejos servem de
estrebaria para os pastores. Talvez os próprios pastores da narrativa de Natal tenham sido
proprietários dessa estrebaria (quanto à gruta existente sob a Igreja da Natividade, em Belém, veja as
informações precisas no Theologisches Wörterbuch zum NT, de Kittel, vol. VI, p. 490).
Foi assim que Maria trouxe ao mundo seu primogênito, que o anjo havia prenunciado como
herdeiro do trono de Davi, seu pai (Lc 1.32).
Naquela época, esse herdeiro do trono de Davi possuía uma estrebaria como salão real, uma
manjedoura como trono, feno e palha como lugar de repouso, uma lanterna de galpão como lustre,
duas pessoas desabrigadas como séquito.
“É preciso ler a narrativa de Natal sem o brilho poético, aconchegante da tradução de Lutero, a
fim de captar o realismo rude, terreno, com que aqui se apresenta a narrativa. O evangelista não fala
do doce menino de cabelo cacheado, da estrebaria limpinha e dos probos pastores, mas de um casal
exausto, da miséria de uma jovem mãe que tem de dar à luz seu filho em lugar estranho e precário
sem qualquer ajuda, de uma criança que enxerga a luz do mundo  em uma estrebaria suja, e de cuja
chegada inicialmente ninguém, exceto alguns pastores proletários, tomou conhecimento”
(Gollwitzer).
13  E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e
dizendo:
A locução grega plethos stratias ouraniou = uma multidão da milícia celestial corresponde ao
hebraico zebá hashshamaim = “exército do céu”, como em 1Rs 22.19; 2Cr 18.18. Contudo no
presente contexto não cabe pensar em corpos celestes, como o sol, a lua e as estrelas,   mas em seres
vivos. É uma unidade bem ordenada e disciplinada. A Escritura relata categorias na multidão dos
seres angelicais celestiais. Fala de anjos e arcanjos (1Ts 4.16; Jd 9). Em torno do anjo que anunciava
a mensagem natalina agrupou-se uma “multidão das milícias angelicais celestes”. – Não é dito “a
multidão” ou “toda a multidão”, e sim “uma multidão”.
À primeira mensagem de Natal, proclamada por um anjo do Senhor, é acrescentado, portanto, o
primeiro hino de Natal, cantado pelas multidões de anjos celestiais, um hino que nunca mais
silenciará, mas que repercute por todos os séculos, por todos os cultos da igreja celebrante e
adoradora, de eternidade a eternidade. Sua letra é: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra
entre os homens, a quem ele quer bem.”
Os pastores, desprezados pelas pessoas, são tidos em tão alta consideração por Deus que se tornam
testemunhas de uma grande festa dos anjos, celebrada nas alturas por causa do nascimento do menino
na manjedoura. “Sobre que estão fundadas as suas bases ou quem lhe assentou a pedra angular,
quando as estrelas da alva, juntas, alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?” (Jó
38.6s). Agora que estavam para ser lançados o fundamento e a pedra angular da nova terra, é preciso
que no sempiterno céu se “celebre” algo novo! É essa festa que convém celebrar pela chegada do
Filho de Deus na terra, e ela tornará a acontecer quando ele voltar com grande poder e glória (Mt
25.31).
O hino de adoração nas alturas celestiais –  v. 14
14    Glória (e honra existem junto) a Deus nas alturas do céu, e paz na terra aos homens aos quais
ele concede o seu favor! [NVI]
Os anjos exaltam o nascimento do Senhor como o início da maior glorificação de Deus na história
da humanidade e do universo. As multidões adoradoras dos anjos já constatam nesta criancinha de
Belém a perfeição assegurada por esse fato. Cada uma das palavras de seu hino torna-se uma grande
profecia, e se o olhar para o presente miserável tenta abafar o júbilo do Natal, a previsão pr ofética
dos gloriosos alvos futuros da consumação de Deus faz com que a voz torne a ressoar em júbilo e
louvor.
O hino de adoração celestial dos anjos nas alturas não é formado, como expressa a tradução alemã
de Lutero, de três partes – mas apenas de dois elementos.
A tradução de Lutero traz:
1) Glória a Deus nas alturas, 2) paz na terra, 3) e às pessoas um aprazimento.
Lutero traduziu a versão do grego koiné de que dispunha na época, que traz no grego a palavra
aprovação (eudokia) no nominativo, e não como  os manuscritos mais antigos, que ele não conheceu
(a saber, Vaticanus e Sinaiticus), no genitivo. Por isso Lutero divide também o louvor celestial em
três partes.
A tradução literal é a seguinte:
1) Glória (ou honra) existe junto de Deus em alturas celestiais.
2) Paz existe na terra entre as pessoas (divinamente) aprovadas.
A 1
a
parte do hino de adoração dos anjos diz o que ocorre nas alturas do céu. A 2
a
parte do hino de
adoração dos anjos diz o que existe aqui embaixo, na terra.
Nenhuma das partes está no modo optativo, como trazem algumas traduções, como a de Lutero:
“Glória seja a Deus… Paz seja na terra”. A melhor forma de reproduzir o verbo auxiliar faltante
“ser” é o indicativo, a saber “glór ia é (ou existe) junto a Deus… Paz é (ou existe) na terra…”
A 1
A PARTE
Os anjos no céu declaram: “Junto a nosso Deus nas alturas celestiais foi manifesta uma glória
incomparável.” Tão incomensuravelmente grandiosa era para nosso Deus a encarnação de seu eterno
Filho divino, que ao longo de milênios ele constantemente chama a atenção para esse evento único,
singular, que abarca céu e terra, todas as eras e eternidades. A carta a Tito diz: “Manifestou-se a
benignidade (literalmente a amizade, a philantropia) de Deus, nosso Salvador, e o seu amor
[bondade] para com todos… por meio do Salvador (soter) Jesus Cristo” (Tt 3.4,6). E a carta aos
Romanos declara: “A justiça de Deus se revela no evangelho (que é Jesus Cristo; Rm 1.17). No
evangelho de João é dito: “Vimos com alegria e atenção preciosamente contempladora
(etheasametha) a sua glória” (Jo 1.14).
A expressão doxa = glória (honra), que no hebraico é kabod, aplicada aos humanos significa “sua
honra, sua fama”. Junto a Deus, a doxa é seu extraordinário esplendor glorioso de luz, sua
incomparável santidade e beleza eternamente pur a.
O que aconteceu em Belém supera esse radiante esplendor glorioso da luz da majestosa beleza de
Deus com um poder jamais imaginado. Mais maravilhadas e impetuosas que o bramido das vagas do
mar, as multidões celestiais cantam a seu Deus e Senhor um cântico novo, que provavelmente jamais
haviam cantado. Afinal, a glória daquele, que sobretudo é Filho no céu e na terra do verdadeiro Pai,
revelou-se no menino de Belém não apenas aos humanos, mas também aos anjos, e de um modo tão
transbordante que estes, por assim dizer, apenas agora passam a perceber plenamente o benefício que
Deus Pai representa para eles.
Certamente conheciam a Deus, que é o amor por excelência, e cuja maior glória não apenas é
constituída por seu poder, mas também por seu amor. Agora, por ém, descerrou-se diantes dos olhos
dos anjos uma nova profundidade e plenitude do amor de Deus, que também no céu era plenamente
nova e indescritivelmente preciosa, cuja contemplação surpreendeu também a eles, e que os
encantou, embora não fosse dirigida a eles, os anjos, mas a nós, os seres humanos. Nem mesmo um
anjo teria sido capaz de imaginar que para Deus seria possível restabelecer sua glória na terra de
forma tão maravilhosa, que o Pai no céu arrancaria do coração o Filho primogênito por amor do
mundo pecador, e que esse seu Filho teria tamanho amor pelos perdidos que trocaria, por causa do
mundo caído de pecadores, o trono de Deus pela manjedoura e pela cruz! Essa encarnação do Filho
de Deus desvenda o mistério do profundo amor de Deus, aos quais também os anjos anelam
perscrutar (1Pe 1.12).
A 2
A
PARTE
14b  E paz na terra aos homens aos quais ele concede o seu favor! [NVI]
Inicialmente cumpre responder a duas perguntas:
1) O que significa “paz na terra”? 2) O que significa a expressão “pessoas (divinamente)
aprovadas”?
1) O que significa paz? A paz não se refere a outra pessoa senão Jesus Cristo. Por isso o hino de
louvor dos anjos também poderia trazer em lugar de “paz existe na terra”:  Jesus Cristo está na terra.
Contudo, será possível substituir paz por Senhor Jesus sem mais nem menos? Há comprovações
dentro e fora da Bíblia que podem atestá-lo.
Afirmações rabínicas declaravam: “O nome do Messias é paz.” – “Grande é a paz, porque,
quando vier o Messias, começa exclusivamente com paz!”
Em Isaías 9.6 o Messias é chamado de príncipe da paz. Em Ef 2.14 consta: “Ele”, a saber, Cristo,
“é a nossa paz.” A última palavra que o Senhor diz aos discípulos na despedida (Jo 14.27) é: “A
minha paz  vos dou.” E a primeira palavra do Ressuscitado é: “Paz seja convosco!” (Jo 20.19,21,26).
A carta aos Romanos declara (Rm 5.1) “… temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus
Cristo”.
Jesus Cristo é a paz em sua pessoa, a saber, de forma essencial. Jesus Cristo é a paz ao efetuar e
criar a paz.
2) O que significa a expressão pessoas do aprazimento (divino)?
A expressão “pessoas aprovadas” não significa, como pensa o comentarista, “pessoas que de boa
vontade reagem aos atos e às palavras de Deus” ou, como diz a Vulgata: “pessoas com boa vontade.”
Não, não é isso que é dito aqui. A expressão “entre as pessoas aprovadas” (genitivo:  eudokias) – ou
como consta no manuscrito disponível para Lutero, a saber, o grupo de manuscritos da  koiné: nas
pessoas uma aprovação (nominativo: eudokia) – deve ser entendida como o prazer que Deus tem nas
pessoas. Esse fato incompreensível, de que Deus se agrada da “humanidade perdida e condenada”  –
foi consubstanciado pela vinda do menino de Belém.
A expressão: en anthropois eudokias = entre as pessoas do aprazimento refere-se à resolução da
graça de Deus, que se mostrou em Cristo (cf. Ef 1.5s). O termo grego “eudokia” corresponde ao
hebraico “razon = aprovação”, exteriorizando a graça e os benefícios de Deus (cf. Sl 145.16). Por
causa do pecado, os seres humanos nunca evidenciaram aprovação para Deus. – Mas Deus
demonstrou sua aprovação por intermédio de seu Filho!
A 2
a
parte do cântico de louvor das milícias celestiais contém, portanto, nada mais que o precioso
conteúdo do eterno e divino evangelho. Por sua iniciativa Deus doa à Terra, naquela noite em Belém,
o que lhe era mais amado e valioso, a saber, Seu Filho amado, sobre o qual pousou Sua aprovação
desde a eternidade (cf. Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 3.21s).
Por ter enviado o Filho de sua aprovação justamente para este mundo, esse mundo  se tornou,
apesar do pecado e da condenação, objeto de sua aprovação! Que milagre, incomparável milagre!
Tanto neste mundo quanto na eternidade é completamente impossível entender e apreender um
milagre assim, tamanho poder do amor – porém queremos adorar já aqui, em conjunto com as
milícias celestiais, e muito mais lá no além, na glória, esse milagre de Belém. Cabe adorar ao Deus
triúno, de eternidade a eternidade.
Portanto, com a expressão pessoas aprovadas (em virtude do precioso conteúdo do evangelho
acrescentamos “pessoas divinamente aprovadas”) exalta-se em adoração, de modo muito consciente,
o grande feito de Deus no Natal em sua objetividade  monumental!
Na presente passagem não se menciona nada a respeito do comportamento subjetivo do ser
humano, nem mesmo aludindo à vontade do ser humano, à sua resposta positiva, sua rendição, sua fé
no feito de Deus.
Neste hino de Natal das milícias celestiais exalta-se tão-somente o grande feito de Deus, como o
próprio Jesus expressa em Jo 3.16: “A esse ponto foi Deus com seu amor pelo mundo, i. é, ao mundo
perdido e condenado, que ele enviou seu Filho unigênito…”
No presente hino de Natal das milícias celestiais declara-se a mesma coisa que Paulo escreveu em
2Co 5.19: “Deus estava em Cristo e reconciliou consigo o mundo, i. é, o mundo perdido…”
Em suma, o que já está indicado no AT, no proto-evangelho (Gn 3.15): “… Ele ferirá a cabeça da
serpente…” mais tarde se torna, depois de repetidos anúncios pelos profetas do AT, fato irrevogável
em Jesus Cristo: “Deus não poupou o próprio Filho, mas o entregou em favor de todos nós…” desde
Belém até o Calvário!
Schlatter formula isso do seguinte modo: “Pessoas às quais Deus concedeu Sua aprovação existem
pelo fato de que Cristo está junto com a humanidade. Sua existência é para eles „não-atribuição da
dívida‟, anulação da divisão que separava as pessoas de Deus. Por isso, pelo fato de acontecer aqui a
reconciliação de Deus com os humanos por iniciativa de Deus, os celestiais o louvam. Tudo isso,
porém, é obra exclusiva de Deus, efeito de sua determinação. A referência à aprovação de Deus
insere na proclamação de sua graça o testemunho em favor de sua magnitude.”

Fonte: Lucas - Comentário Esperança

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