Pessoas que gostam deste blog

Um ato magnífico de Deus - Lc 1.7-25

7 – E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, sendo eles avançados em dias.
A formulação “não tinham filhos, sendo eles avançados em (seus) dias” é puramente hebraica, cf.
Gn 18.11; 24.1; Js 13.1; 23.1; 1Rs 1.1.
Não ter filhos era um grande infortúnio para um casal em idade avançada, e até mesmo era
percebido, com extremo sofrimento, como um sinal do desfavor divino e como vergonha perante as
pessoas, como um sinal da destituição da bênção prometida em Gn 1.28. Lucas dá a entender que a
causa da ausência de filhos se deve a Isabel, a qual chama de “justa”. – Não se trata de coincidência,
mas de sabedoria do educador celestial permitir que justamente aquelas pessoas que ele honra com
graças especiais passem por graves provações.
Precisamente a infertilidade contribuiu de modo essencial para preparar o matrimônio do casal
agora idoso como local de revelação divina. Na verdade, agora eles estavam menos enredados nos
pensamentos e nas preocupações do mundo. Em calada solidão eles tiveram a oportunidade de
aprender a esperar no Senhor e a crer cegamente que Deus se lembra de seu juramento (Zacarias
significa: Javé se lembrou, e Isabel: Deus é meu juramento).
Como autênticos israelitas, pois, era impossível a esse grisalho casal crer que a infertilidade fosse
a última vontade de Deus. Por essa razão eles aguardavam ansiosamente por descendência.
8 – Ora, aconteceu que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, 
coube-lhe por sorte,
Novamente aparece o aconteceu que = estilo hebraico. As palavras diante de Deus ou diante da
face de Deus ressaltam a relevância da atividade sacerdotal.
9 – segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso.
A locução na ordem do seu turno significa: juntamente com toda a categoria de serviço de
Abias, Zacarias permaneceu em Jerusalém por uma semana, prestando o serviço no templo. Por
sorteio coube-lhe a tarefa de acender o incenso. Para isto, ele entrou no chamado recinto santo, no
qual se encontrava, além do candelabro de ouro e da mesa de pães da propo sição, também o altar de
incenso. A expressão santuário do Senhor destaca a santidade do templo (Êx 30.8).
10 – E, durante esse tempo, toda a multidão do povo permanecia da parte de fora, orando.
Depois de Zacarias ter derramado o incenso sobre as brasas incandescentes do altar, ele se
prostrara, conforme prescrito, para a adoração. Nessa hora da queima do incenso, em todo o país os
rostos do povo se voltavam para Jerusalém, e as pessoas oravam. No instante em que o sacerdote se
posta diante de Deus, ele resume, como representante do povo, as orações de todos, trazendo -as à
face de Deus. Nessa hora ele também pode expressar sua intenção mais íntima e sagrada diante de
Deus. A subida do incenso é uma imagem da ascensão da oração, agradável a Deus. Veja Sl 141.2 e
Ap 5.8; 8.3s.
11 – E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso.
A hora da oração é a hora da revelação de Deus. Deus não esquecera a oração do idoso casal. De
forma muito mais gloriosa do que eles jamais haviam suplicado, atendeu-se o que eles aguardavam
ansiosamente. Apareceu-lhe um anjo do Senhor. À direita do altar do incenso constitui um sinal de
que ele vem a Zacarias de fato por incumbência e autorização de Deus.
12 – Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o temor.
Quando o mundo invisível subitamente se torna visível, o ser humano fica perplexo. Quando a
consciência de sua indignidade e de seu pecado despertam na seqüência, a perplexidade se
transforma em  temor, porque a pessoa sente que o juízo é iminente.
13 – Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, 
tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João.
14 – Em ti haverá prazer e alegria, e muitos se regozijarão com o seu nascimento.
Primeiramente o anjo tranqüiliza Zacarias. Está trazendo uma mensagem de misericórdia, não de
juízo. Ele anuncia um filho, o descendente há muito tempo almejado. A expressão  tua oração pode
muito bem ter o sentido de “tua prece constante”. O nome João se origina de Joanã (2Rs 25.23; 1Cr
12.4,12) e significa o mesmo que “o Senhor agracia”. Ele ocorre diversas vezes no AT. Na realidade
a graça não é característica da prédica de João, mas por meio de sua atuação inaugurou -se o domínio
da graça. Contudo faz parte da natureza do domínio da graça que ela persiga o pecado de forma
implacável até nos menores vestígios, e o puna inexoravelmente. A premissa da graça é o
arrependimento total.
Esse filho há de ser “um sinal da graça” e “um motivo da alegria”. De uma alegria tal que
culminará no estremecimento, na exultação, no júbilo. E esse júbilo valerá não apenas para os
familiares de João, mas para todo o povo!
15 – Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio 
do Espírito Santo, já do ventre materno. 
João está entre as pessoas especialmente consagradas que tentavam concretizar o exemplo da
santidade israelita em círculos não -sacerdotais. Essas pessoas eram chamadas de nazireus, i. é,
pessoas “consagradas a Deus”, “noivas de Deus”.
À simplicidade de vidas agrega-se como decisivo o fato de que já no ventre materno ele fica pleno
do Espírito Santo. Nesse caso tem-se em mente o Espírito Santo no aspecto de seu efeito de poder,
conforme derramado sobre os profetas como Espírito de serviço (embora apenas por pouco tempo),
inclusive sobre Sansão e Saul, transformando -os em ferramentas de Deus.
16 – E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus.
17 – E irá adiante do Senhor no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais 
aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo 
preparado.
Como primeiro ato é anunciado um poderoso movimento religioso, um grande avivamento entre o
povo. Muitos hão de ser arrancados da alienação de Deus e novamente reconduzidos a Deus pela via
do arrependimento.
Por intermédio de um trabalho desses ele abrirá caminho para o tempo messiânico, e isso será a
coroa de sua obra. A marca característica da atuação de João é, como outrora em Elias, “o poder”.
18 – Então, perguntou Zacarias ao anjo: Como saberei isto? Pois eu sou velho, e minha 
mulher, avançada em dias.
A solicitação de um sinal é tratada aqui como uma transgressão que merece punição. Não
obstante, Abraão (Gn 15.8), Gideão (Jz 6.36s, 39 três vezes) e Ezequias (2Rs 20.8) externaram um
pedido semelhante, sem que isso lhes fosse imputado por pecado. Por que, pois, não é correto no
presente caso o que em outros episódios foi aceito? Provavelmente porque Zacarias vivia depois
daqueles e tinha à disposição toda essa série de revelações e fenômenos, que ele, como sacerdote,
certamente conhecia. Ademais, o próprio local em que ele recebia essa mensagem, bem como o
fenômeno celestial que lha trazia, deveria m livrá-lo de qualquer dúvida. Sua dúvida, portanto, não
era nada mais que falta de fé e a incapacidade de alçar-se, por força da promessa divina, acima do
curso natural das coisas.
19 – Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e ( eu, no original 
consta ―egõ‖ = eu enfático) fui enviado para falar-te e trazer-te estas boas novas.
O mensageiro revela-se como um personagem já conhecido: “Eu sou Gabriel”. O nome significa:
“o homem forte de Deus”.
Gabriel é o mensageiro de Deus, aquele que traz boas notícias, o evangelista de Deus, que edifica.
Com as palavras anteriores de Zacarias (“eu sou velho”) contrastam as palavras do anjo: “Eu sou
Gabriel, que assisto diante de Deus.”
Pessoas que se encontram diante de Deus são usadas e enviadas por ele. Quem está diante de Deus
não conta mais com aquilo que está perante os olhos, mas com o que Deus falou. O anjo continua
dizendo: “eu fui enviado para falar contigo, para te evangelizar”, como diz o texto original.
Evangelho significa boa nova, uma  mensagem que nos liberta do que é visível e nos ergue para
alturas invisíveis, para a palavra eterna de Deus, de onde se descortina a visão das glórias eternas.
20 – Todavia, ficarás mudo e não poderás falar até ao dia em que estas coisas venham a 
realizar-se; porquanto não acreditaste nas minhas palavras, as quais, a seu tempo, se 
cumprirão.
Essa palavra é um juízo sobre a incredulidade, porém justamente aqui e nesses tempos de ruptura
fica claro que todos os juízos de Deus (na história da redenção) são mais juízos da graça. Jamais
desejaríamos omitir a faceta da graça diante da faceta do juízo. Para Zacarias, ficar mudo até a hora
do nascimento do filho prometido é uma ajuda, uma assistência, uma graça de Deus. A santa e boa
mensagem tinha condições de sedimentar-se nele, sem ser esmagada pela constante troca de idéias.
Agora Zacarias tinha tempo de adaptar-se a um novo mundo, de orientar-se e criar raízes, para na
seqüência apresentar-se em seu contexto como um filho da luz. Era uma graça maravilhosa que  ele
ficasse mudo e depois, ao sair, tão -somente conseguisse fazer sinais: “Não me perguntem nada, não
consigo falar.”
21 – O povo estava esperando a Zacarias e admirava-se de que tanto se demorasse no 
santuário. 
22 – Mas, saindo ele, não lhes podia falar; então, entenderam que tivera uma visão no 
santuário. E expressava-se por acenos e permanecia mudo.
23 – Sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para casa.
O povo esperava no átrio pela bênção costumeira. Admirava-se da demora incomum do sacerdote
atrás da cortina. Por sua incapacidade de falar e abençoar, a multidão reconheceu que ele tivera uma
visão no templo. Através de persistentes gestos com a mão ele convenceu o povo a ir para casa sem
obter a bênção.
Como é singular esse episódio! O aspecto de juízo desse acontecimento deixa explícito que, por
causa da incredulidade de Zacarias, Deus o impedia de exercer sua função sacerdotal “de conceder a
bênção”.
A mudez de Zacarias, no entanto, igualmente explicita o aspecto salvífico: quando a voz do que
clama no deserto é anunciada, o sacerdócio do AT emudece. Cala-se a bênção levita quando vem “a
descendência em que serão benditas todas as nações da terra” [cf. Gn 12.3].
24 – Passados esses dias, Isabel, sua mulher, concebeu e ocultou-se por cinco meses, dizendo:
25 – Assim me fez o Senhor, contemplando-me, para anular o meu opróbrio perante os 
homens.
Por que Isabel não se dirigiu imediatamente, cheia de alegria, às pessoas, para gloriar -se de sua
felicidade? Por que ela se retrai silenciosamente durante cinco meses? Por que ela oculta sua ditosa
situação? Deus permitiu-lhe tornar-se mãe. Agora, por causa dele e de si mesma, ela não deve mais
apresentar-se entre as pessoas como infértil (v. 36). Disso se explica o tempo de cinco meses. Após
cinco meses a realidade da gravidez torna-se visível, e então ela de fato pode ser reconhecida como
abençoada por Deus.
Não há como formular de forma mais sucinta o fato de que “ele contemplou de tal maneira que
ele afasta”. A expressão “opróbrio”, que evoca os longos anos de humilhação que a devota israelita
experimentara, é explicada pelas palavras do anjo no v. 36:  “aquela que diziam ser estéril”. “A
estéril” era seu epíteto infame entre as mulheres de sua localidade, mas Deus a contemplara e
abençoara.
É da fé, e não da natureza, que resulta um fruto verdadeiramente divino. Unicamente o fruto da fé
dura para a eternidade, e o que não provém da fé é pecado. Felizes de nós quando, por meio da
relação viva com Deus, trazemos fruto para Deus!
Era isso, pois, que puderam experimentar também os dois idosos, já grisalhos, já no limiar do
Novo Testamento.
Sua mísera vida na terra, colocada à disposição de Deus, podia gerar frutos para a eternidade em
virtude da grande graça de Deus. Seu filho João, pelo qual rogaram a Deus, foi o fruto de sua vida
oculta de fé. E João tornou-se frutífero para as gerações futuras, ao abrir espaço para o Senhor.
Uma bênção presenteada por Deus, no entanto, somente torna-se bênção real para o povo de Deus
e o mundo quando é novamente devolvida a Deus; quando o fruto continua sendo um sacrifício
oculto, oferecido tão-somente a Deus. Unicamente aqueles que viram o sentido de sua vida no
sacrifício da vida hão de verdadeiramente trazer frutos para Deus.
Fonte: Lucas - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Online